Arabesco por Gustavo Mãozinha

Não ventava. Nunca ventava. Apenas a inabalável imensidão estática. Os grãos de areia comprimidos pela apatia do tempo preservavam o horizonte num contínuo desbotar. O calor colidia contra o chão revelando um sol de eterno meio-dia que esmoreceria um pouco, talvez, com uma brisa.

Mas não haveria de ventar.

Como que por vontade própria um pequeno ponto no branco erodiu. Sem aviso nenhum cavou a si mesmo. Fundo. Profundo. Cavou, cavou e parou.

Silêncio.

A imensidão era ainda… Mas já não era estática; Expectativa abafada, branca e pétrea.
O ponto escavado rompeu e irrompeu. Engoliu areia – Já ponto não era. Era traço. Um traço movendo-se vagarosamente em curva. Lagarteando preguiçosamente sob o sol o traço deu uma volta no ponto original descrevendo uma curva que abre em torno de si mesma e parou.

Silêncio. Petrificado.

Uma pequena erosão e o traço voltou a verter areia para dentro. Fundo. Profundo. O desenho cíclico respeitava o ponto concêntrico como que um padrão resoluto e indissolúvel; infinito e teimoso. O traço não haveria de parar de descrever sua curva – escultura na areia em eterna feitura que o menor vento poderia destruir.

Mas não haveria de ventar.

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2 comentários

Filed under cultura

2 responses to “Arabesco por Gustavo Mãozinha

  1. Murilo Orcus

    “Binladesco”???
    Massa!!!

  2. Flavio

    Já tinha lido mas continuo não entendendo… :-S

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