Noel Gallagher versus o bom senso por J R Tosco

Na semana passada comemoramos o dia internacional do Rock. É, tá certo, concordo que foi uma comemoração meio fraca, nada de feriado, o que seria o mínimo, dada á importância do rock para a humanidade, nada de festas gloriosas, nem homenagens, enfim, foi praticamente a mesma coisa que saber que aquela sua tia que mora no Acre fez aniversário. Pois bem, foi na semana passada também que eu infelizmente li uma notícia muito desagradável e que me fez pensar a respeito do rock, de suas ramificações, suas ideologias e principalmente sobre para onde estamos caminhando. Noel Gallagher, um dos irmãos encrenqueiros do Oasis, criticou o ativismo político de Bono do U2 e Chris Martin do Coldplay, afirmando que estava cansado de grupos que falavam de pobreza e fome em suas músicas e que os fãs queriam apenas se divertir. Nem sei por onde começar depois de uma declaração dessas. Mas vamos lá. Nunca morri de amores por nenhuma dessas duas bandas. O Coldplay está longe de ser uma banda “tudo isso”, e achei extremamente vexatórias para todos os músicos do mundo as diversas acusações que recaíram sobre eles a respeito de plágio e cópia de músicas de outros artistas. Com relação ao U2, sempre achei a musica deles popular demais, embora agradável de certa forma, mas é preciso admitir que aqui o buraco é bem mais embaixo. O nosso amigo com nome de biscoito recheado, Bono, é um ativista de longa data e a relação entre a música do U2 e a política vem desde 1983 no álbum War, onde o cara já era casca grossa ao criticar e cutucar a ferida exposta do conflito religioso entre cristãos e protestantes que praticamente dividia a Irlanda ao meio. Mas, independente do mérito das bandas citadas por Noel Gallagher, a questão aqui parece ter dimensões maiores e ser bem mais complexa, no meu entendimento.

Bom, mas antes de tentar delinear meu ponto de vista, eu gostaria de fazer uma pergunta ao leitor: A defesa do estilo de vida rockstar feita por Noel Gallagher, as bebidas, as mulheres e o imortal “rock and roll all night and party everyday” transcendem, são mais importantes do que o caráter formador de opinião do rock, e o conseqüente engajamento político de alguns músicos?

Bem, eu acho que não. Acredito que o rock, juntamente com seus afluentes, representam a essência do espírito “viemos para incomodar”. Seja contra a opressão dos pais ou da religião, contra a hipocrisia dos costumes tradicionalistas, contra a política sanguinária e as mortes de inocentes, contra a fome e a miséria ou mesmo em defesa do direito de beber até cair, festejar a noite toda e por ai vai, estamos falando do bom e velho rock and roll, e não do axé ou qualquer outro estilo musical que exige mais da bunda de quem está ouvindo do que da cabeça. Este é o mesmo rock and roll que conta em suas fileiras com a forma de música mais revoltada e ativista politicamente, o punk rock, e sinceramente é de se esperar muito mais dele do que apenas encher a cara, usar drogas, pegar a mulherada, se divertir e virar as costas para a realidade. Acho que os muitos artistas que usaram este tipo de música para expressar seus descontentamentos, assim o fizeram porque julgaram ser de certa forma “abençoados” pela bandeira do estilo de música baderneiro, mal educado e sem regras que fazem de nós os fãs mais privilegiados de todos.

Também é preciso levar em conta que alguns destes problemas são realmente muito graves, como a bizarrice em imaginar que estamos no ano de 2009 e pessoas ainda passam fome, morrem em guerras e conflitos interesseiros, que etnias inteiras ainda são dizimadas, que muitos ainda não sabem ler e escrever e que cultos pateticamente mal explicados e incoerentes ainda façam com que garotos peguem em armas para matar outros seres humanos.

Se Noel Gallagher, e quem mais quiser concordar com ele, conseguem fechar os olhos para essas coisas, eu confesso que não consigo. Eu fui politizado pelo rock. Desde a minha terna (e distante) adolescência, eu sabia que o fato de Max Cavaleira estar berrando: “Face the enemy/Manic thoughts/Religious intervention/Problems remain” e Tom Araya vociferar enfurecido os versos: “Count the bullet holes in your head/Offspring sent out to cry/living mandatory suicide/Suicide” não era á toa. Descobri mais tarde as letras de Bob Dylan e foi com imensa curiosidade que li a respeito do que John Lennon fez nos anos 70, presenciei o surgimento de bandas violentas, barulhentas e engajadas como Rage Against the Machine e System of a Down, conheci os discos do The Clash e sempre acompanhei entusiasmado as diversas bandas politizadas do trash metal e dos demais estilos chamados de radicais.

Nunca tive nada contra cantar sobre bebedeiras, mulheres, paixões, história ou contos fantásticos, nem qualquer outro tema, e aliás, sou fã de muitas bandas que fazem isso, mas acho que ninguém tem o direito de criticar quem faz música de protesto, ainda mais em uma época em que o “movimento emo” (essa expressão só aumenta minha úlcera) parece ser a única forma de rock para a mídia e a piazada perde os valores que as gerações que vieram antes da deles lutou tanto para consolidar, fazendo com que o rock meio que perca sua característica “fuck the system”. Perto disso, a verdade é que o que Chris Martin e Bono fazem parece ser muito pouco.

Alguns podem alegar que só protesta e é engajado quem teve alguma experiência ou motivo para isso, porém eu acho isso meio furado, afinal Joe Strummer do The Clash, por exemplo, não viu guerras ou coisas do tipo e fez o que fez em nome do punk rock. Lennon moveu o traseiro de seu confortável trono de integrante dos Beatles na Inglaterra e foi para a América fazer barulho contra a palhaçada que foi a Guerra do Vietnã, o que é no mínimo irônico, pois Noel Gallagher gosta de ser comparado a ele (fato este que eu nem quero comentar aqui, dada a gigantesca desproporção e a latente prepotência do Gallagher).

Bem, para terminar, gostaria de deixar mais algumas perguntas para o leitor: Será que seria preciso alguém ir a Manchester e acabar com todos os ingleses narigudos com cabelinho “tigela” para o Noel Gallagher se convencer de que a vida não é o mar de flores que ele imagina? Já que estamos todos felizes e contentes com o dia internacional do Rock, que tal pensarmos a respeito disso, hein?

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3 comentários

Filed under opinião

3 responses to “Noel Gallagher versus o bom senso por J R Tosco

  1. Mãozinha, O Necessário.

    Excelente texto!!!

  2. samael

    eu odeio essa bosta de OASIS nao curto beatles mas os caras fazem musica parecer igual e nem deveria opiniar sobre nada sao uns merdas deviam crucificar eles de ponta cabeça……..BONO marca d bolacha recheada e foda ……ksksk

  3. Murilo, [renato aragão mode on]

    cuma?

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