A imparcialidade, o Deus do jornalista*… Por Murilo!

A imprensa sempre foi um porcaria, porém a imprensa contemporânea (pós-guerra fria) é uma porcaria muito mais refinada, e assim o é porque consegue esconder suas orientações através de uma idéia aparentemente muito nobre: a idéia de imparcialidade. Aviso desde já que não se trata aqui de uma crítica comum do tipo “todo mundo sabe que existem interesses por trás da mídia”, e sim uma crítica à concordância por parte das pessoas, mesmo as mais inteligentes, com a idéia que a imparcialidade deve ser o objetivo ou a base da imprensa.
Imparcialidade é em si impossível quando se trata de repasse de informação, e qualquer um que tenha brincado de “telefone sem fio” na infância deveria saber disso. Isso é, a imprensa é feita por pessoas e as pessoas querendo ou não têm convicções sejam elas políticas, sexuais, científicas, filosóficas, religiosas, esportivas, etc. e consciente ou incosncientemente essas convicções vão transparecer e transformar o, e no, sentido da informação, e isso, por si só, anula a imparcialidade.
Mas a idéia mais perigosa de todas é a de que “apesar da imparcialidade ser impossível, a mídia deve sempre tê-la como um horizonte”, esse é o grande véu contemporâneo. Colocar algo impossível como base ou objetivo, é o mesmo que colocar algo que não existe como base ou objetivo, que é o mesmo que não ter base nem objetivo. E o pior, a aceitação dessa idéia justifica a parcialidade sacana, porque sempre que um ato da imprensa é acusado de parcial esse véu é posto sobre a verdade, dizendo-se então que tal ato é parcial porque é impossível ser imparcial e não porque a imprensa foi tendenciosa e manipulativa, e isso soa como um perdão, com a seguinte aceitação de que esta ação foi executada com vistas a imparcialidade.
Na minha modesta e como sempre dispensável opinião, essa idéia só serve para evitar a argumentação, isso é, o exercício do pensamento; pois se os canais de imprensa “jogassem limpo”, tivessem algum compromisso com a “verdade” que defendem, eles não esconderiam de ninguém suas convicções e fariam e exporiam seus atos sempre de acordo com elas, e isso não daria margem a manipulações, visto que sempre que se ouvisse uma notícia o selo ideológico do meio que a transmite estaria lá para ser levado em conta, assim os diferentes canais de diferentes orientações se enfrentariam abertamente tendo de argumentar e defender suas posições a fim de convencer o público, e esse formaria sua opinião no decorrer do debate.
Gostaria de acrescentar que, se ainda não ficou óbvio, a culpa da capacidade de manipulação da imprensa contemporânea ser tão grande é de quem difunde a idéia de que ela tem que ser imparcial, ou pelo menos ter essa idéia como horizonte. São as fiandeiras do véu.
Enfim, o que eu peço, com palavras ao vento é verdade, é que se retire esse véu, que se assumam as posições, e que se assuma a guerra, enfim, que se jogue limpo. Enquanto a imprensa for feita por humanos a “imparcialidade” continuará a ser uma palavra vazia, desprovida de sentido, e enquanto ela estiver no horizonte, este será o nada.

*O título era para ser: “Imparcialidade de c* é rola”, mas resolvi manter uma classe que nem sempre tenho.

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7 comentários

Filed under opinião

7 responses to “A imparcialidade, o Deus do jornalista*… Por Murilo!

  1. Shiniti

    “E, no entanto, ela se move!” (Galileu)

    Só para lembrar que imparcialidade de c* é rola mesmo!!! 😀
    (Se o Murilo tem classe, eu tenho nenhuma mais!)

  2. Tonho

    Só para lembrar que imparcialidade de c* é rola mesmo!!! 😀 [2]

    Certa noite, enquanto assistia a bendita caixinha de pérolas e surpresas que é a nossa televisão brasileira, me deparo com a propagando do jornal dessa emissora (não lembro se era a Record, ou o SBT) a qual dizia mais ou menos o seguinte:

    “… Um jornal novo, moderno! Feito com IMPARCIALIDADE e OPINIÃO!!…”

    Um tanto quanto contraditório… creio eu…

  3. Flavio

    Discordo em muitos pontos. Nós estudantes de filosofia temos a pretensão de buscar A Verdade: universal e absoluta. Será que precisamos exigir isso de outras profissões? Sou contra esse relativismo que tá na moda, mas no caso do jornalismo podemos falar de “verdades construídas” ou talvez, perspectivas de verdade. Concordo que a imparcialidade é um mito.Concordo que é bem possível que algumas mídias utilizem o conceito de imparcialidade para uma parcialidade sacana. Mas ela deveria ser buscada sim, mostrando visões que deveriam ser o mais imparciais possíveis ou com colunistas de diferentes visões.

  4. Murilo des-

    A pergunta que eu quis colocar com esse texto é a seguinte: se a imparcialidade é impossível, o que significa ter ela como objetivo? Na minha opinião, significa não ter objetivo, ja que se põe um que não existe.

  5. Flavio N.

    Discordo; está confundindo impossibilidade com inexistência.
    Acho que ter algo como objetivo é um meio, não um fim. É como ter uma direção: posso usar uma bússola para ir para o norte, mesmo sem chegar ao Pólo Norte…

    Abraços,
    Flavio.

  6. Murilo des-

    é, mas é possível chegar no polo norte!
    a imagem seria assim para mim: escolher o homem como meio de repasse de informação e ter como objetivo a imparcialidade, é mais ou menos o mesmo que escolher a caminhada como meio de locomoção e ter a Lua como objetivo de chegada.

  7. Raphael Z

    sou a favor da imparcialidade sacana.
    heheheheh

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