“INÚTIL” (?) por Roberto Shiniti

Depois de alguns anos lendo pesquisas, artigos, dissertações, teses e outras coisas sobre a vida cotidiana das pessoas, confirmei uma coisa que sempre eu questionava (e o Jô Soares continua questionando): a utilidade das pesquisas científicas. Desde os tempos imemoriais existem pessoas interessadas em saber como funcionam as coisas. Perguntas de cunho retórico perelmaniano do tipo: “O que é aquela bola amarelada que sempre aparece no céu e a tudo ilumina?” Deram-nos respostas e outras perguntas. Assim foi nascendo a ciência, com todas as suas questões. Diz uma propaganda de TV: “O que move as pessoas, não são as respostas, mas as perguntas”.

Aprendi uma coisa interessante: nada é por acaso e nenhuma pesquisa é completamente inútil. Inútil no sentido de não mudar as nossas concepções sobre a realidade. Assim tive esse insight quando li uma pesquisa sobre a velocidade do caminhar das pessoas nas principais capitais brasileiras. Curitiba é a 6ª cidade do planeta com maior velocidade de caminhar das pessoas. Ora, qual a importância dessa pesquisa aparentemente inútil?

Antes de responder a essa questão, vamos para 150 anos atrás, quando um monge beneditino de uma cidadezinha do interior da República Tcheca ficou anos cruzando plantas de ervilha-de-cheiro e descobriu como as características delas passavam às gerações seguintes. Houve também um lorde inglês que viajou ao mundo num navio mercante identificando e coletando bichos de todos os tipos, descrevendo seus hábitos e tentar descobrir como eles adquiriam características que permitiam aos seus descendentes dominarem o ambiente. E assim exemplos e mais exemplos se perpetuam na ciência.

Assim voltamos para Curitiba. Diz a pesquisa que a cidade onde as pessoas andam mais rápido é Cingapura, eles levam em média 10 segundos para percorrer 18,3 metros. Curitibanos levam 11s13 para percorrer essa mesma distância. Para os pesquisadores, que atuam desde o início dos anos 90, as pessoas estão aumentando suas velocidades de caminhada por motivos de produtividade. Aumentam as necessidades das grandes cidades e isso acarreta no aumento da velocidade de caminhada. Uma análise pragmática disso é que estamos nos atolando em trabalho para produzir riquezas e mover a máquina (seja capitalista ou comunista, não importa).

Uma vez eu assisti ao maldito Programa do Jô, onde ele ironizou uma pesquisa que mostrava pesquisadores que descobriram que, num corpo em decomposição, diferentes espécies de coleópteros (besouros) habitavam esse corpo em diferentes fases de decomposição. Claro que utilizar o Jô como exemplo é facilmente refutável. Porém, a população pseudo-intelectual que o assiste, gosta e repete as mensagens do apresentador. Nessa mesma linha, o Ratinho ironizou certa vez quem pesquisa as baleias, pois ele compreendia que “eram animais inúteis e que colaboravam para a extinção dos peixes, prejudicando os pescadores”.

Mas esse pensamento é histórico e vem de Francis Bacon, que na sua obra Novum Organum fundou as bases da ciência moderna, levando-nos a crer que a ciência tinha uma utilidade. No século XIX, com os primórdios do capitalismo durante a Revolução Industrial, a ciência é chamada pelas indústrias para colaborar com o desenvolvimento tecnológico e, no início do século XX, nascem os primeiros laboratórios de pesquisa nas Universidades, primeiramente financiados pela classe financeira e depois passando a um investimento estatal, principalmente nos EUA. Em meados da década de 1960 o interesse do governo norte-americano passou a ser o ensino de ciências para a população em geral, haja visto que a Guerra Fria inaugurou a pesquisa aeroespacial com o lançamento do Sputnik russo. Assim eles espalharam para os países aliados um método de ensino que criou disciplinas específicas para o ensino das ciências. Nasceram as disciplinas escolares Biologia, Física e Química, numa abordagem conteudista laboratorial, na tentativa de formar os cientistas-mirins. Kits e feiras de ciências nasceram com forte investimento norte-americano, para formar pessoas que fizessem ciência no seu cotidiano. Claro que, como vemos a situação no Brasil, a idéia não deu muito certo: ciências na escola virou mais um show de luz, cores e explosões do que aprendizado.

No final das contas, a idéia de uma ciência utilitária ainda perdura, quando vemos o investimento pesado dos governos a tecnologias de ponta em detrimento de outras pesquisas. Ser geneticista, físico nuclear, ou engenheiro é mais lucrativo do que ser pesquisador de qualquer outra área. É só assistir ao Globo Repórter.

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Filed under cultura, Filosofia de Butéco (Botéco), opinião

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