Hipermodernidade crítica. Por Murilo, o intelectualóide.

Revelando desde já o conteúdo do texto eu digo: defendo o termo hipermodernidade em detrimento do termo pós-modernidade, desde que, contudo, tome-se o termo de maneira crítica.

Pós-modernidade passa a impressão de que a modernidade esta pronta e acabada, que em algum momento, alguma coisa aconteceu e quebrou um paradigma. É uma afirmação bastante vaga, e não por acaso: primeiro há a impossibilidade de se demonstrar quando isso ocorreu, por que ocorreu e como se deu. Segundo, essa noção mitifica a modernidade, pois aqueles que defendem sua existência o fazem quase sempre para apontar que os “males do mundo atual”, como subjetivismo exacerbado e sua conseqüente alienação, são fruto dessa quebra de paradigma, são frutos da “pós-modernidade”, e tudo se passa como se a “idade moderna” já acabada não tivesse nada a ver com o problema e que foi constituída do mais puro bem universal.

Pensemos da seguinte forma. Como dizia o velho Sócrates “Pensar como geômetra” significa, colocar um princípio e aceitar como verdadeiro o que esta em consonância com ele rejeitando o que está em desacordo, o que faz o geômetra é propor hipóteses e retirar conseqüências lógicas delas*.  Agora nos lembremos da figura de Descartes, “o pai do método científico moderno”, e do modo como ele relacionava filosofia e matemática; Resumindo bastante grosseiramente a argumentação: a matemática é uma ciência, e na medida em que todas as ciências naturais práticas são matematizáveis, ela é essencialmente prática. A filosofia, para além de sua definição piegas de “amor ao saber”, é antes de qualquer coisa, um modo de lidar com o puro pensamento, é um saber contemplativo, uma “atividade” (que não se confunda com “prática” ou “técnica”) que se ocupa do pensamento, da verdade, das essências, etc. Ela é essencialmente teórica. Sendo assim, o que Descartes faz, ao colocar a ciência como modelo para o pensamento, é travestir a “prática sobre o mundo” de guia para a reflexão, é colocar um filtro, um molde, para o pensamento, a matemática. Isso é, ele subverte o modo clássico de pensar. Se na república de Platão não entrava aquele que não fosse, no mínimo, um geômetra, na da Descartes não entraria aquele que não fosse, no mínimo, um filósofo. Se para os gregos o concreto tinha de alcançar o ideal, para os modernos o ideal deve se conformar, adequar, ao concreto. Assim a hipótese da inversão entre pensar e agir como o paradigma quebrado da pós-modernidade já está contida em germe no modo de pensar dos primeiros modernos, a inversão que ocorreu entre técnica e ciência que ocorre hoje, por exemplo, não ofende esse princípio, só o maximiza. Assim, se pensarmos como o ‘geômetra de Sócrates’, que seria substituído sem muita perda pelo ‘cientista moderno’, a época moderna não acabou, só está em uma nova fase.

Aqueles que assumem a hipermodernidade de maneira crítica entendem que boa parte dos ditos “males do mundo atual” são de responsabilidade moderna, os próprios  subjetivismo e alienação entram nessa, na medida em que não ofendem, em princípio, o modo de pensar moderno, Descartes mesmo – e não me canso de repetir: “o pai do método científico moderno”, do modo de pensar na modernidade – chegou a duvidar num primeiro momento que outras consciências pudessem existir e que a única certeza clara e distinta que tinha era de que ele, enquanto pensa, existia. Talvez esse seja um exemplo máximo de subjetivismo e alienação na história do pensamento ocidental. A pós-modernidade daria a entender que esse modo de pensar está acabado, e que todo esse mundo atual é recém-nascido, e assim quando se tentar achar as raízes de tais problemas atuais se cairá em “algum lugar”, “algum momento”, “alguma coisa”, sempre no indeterminado. Já a hipermodernidade, se tomada de maneira crítica, no faz buscar as raízes de nossos problemas na origem da modernidade, num tempo tido como “época das luzes”, início do “império da razão”, etc. Isso é em um lugar determinado e sondável, que pode ser criticado, e que se pode identificar o porquê de seus princípios acabarem por agir contra eles mesmos. Por isso e por outras, “hipermodernidade” me parece um modo muito mais responsável de se cunhar nosso tempo do que pós-modernidade.

*Platão, col. Os Pensadores. 1996
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4 comentários

Filed under cultura, Filosofia de Butéco (Botéco), opinião

4 responses to “Hipermodernidade crítica. Por Murilo, o intelectualóide.

  1. Mãozinha

    Se por hipermodernidade está se dizendo que existe uma radicalização das questões modernas, concordo pela metade (mas também não aceito o termo pós-modernidade). Primeiro há de se ddeixar claro que a definição da história da filosofia (ou de qqer outra história) em eras NÃO POSSUÍ STATUS EPISTEMOLÓGICO, sendo apenas por motivos didáticos. Ora, aquestão da modernidade, por exclência, é a questão da essência do sujeito, seja ela metafísica, topológica ou linguística; isto abrange o cógito, o sujeito transcedental e o queridíssimo dasein. Todos projetos que esbarram em algo e não finalizam a filosofia. Não há mais então uma doutrina que busque essência meta ou topos. Sobrou… a linguagem. Investigar a réstia de cogito e transcedentalismo que há na linguagem tem se mostrado a tarefa a ser realizada… pela via heideggeriana… eu sei, baderna. Mas, uma vez que essencia meta está fora de questão (sim, kant) e a topológicxa virou um problema de alienação dada a separação entre imagem e ser que se revela numa sociedade guiada por representaçõies (Marx, Adorno, Debord, Agamben, Chomsky, Zizek, e mais umas dúzias), sobrou nos o ser linguístico. mas o problema do ser linguístico JÁ ESTAVA NO COGITO. Mas sob forma teleológica. De qualquer maneira a operação cartesiana extirpou do processo do conhecimento rigoroso a imaginação. Começa aí uma inversão do ser-linguístico que vai ser consumada na Crítica Pura. Portanto, retomo, a questão moderna, ainda é a questão filosófica, mas na mesma medida em que o é, já não é mais a mesma. Se o nome disso é hiper, pós, deluxe ou jedi-modernidade, bom, isso é o de menos.

  2. Murilo des

    Sei que depois de um texto como esse não precisava dizer, mas acho que o nome não é o de menos, ainda mais numa situação dessas, entre a escolha de uma continiudade ou um final. Nomes, como os do caso, remetem a uma significação, e bons nomes, que remetam a significações mais rigorosas, facilitam e ajudam bastante uma tarefa crítica. Concorda que há uma grande diferença entre se perguntar pelo sentido da Modernidade e pelas origens de nossos problemas contemporâneos? É o motivo para se usar hipermodernidade e não pós-modernidade.

    Mas confesso que gostei mais do termo jedi-modernidade do que de qualquer outro. rsrsrsrs…

    • Mãozinha

      Murilo, se prestares atenção, verás que não estamos em desacordo.
      Ou pelo menos não em completo. É exatamente isso que quis dizer quando falei que o nome é DIDÁTICO. O nome aponta evidências que caracterizam uma época. Nada mais. Ainda sim, repito, se a origem dos problemas a serem pensados encontra-se na modernidade, a maneira de se olhar não é mais a mesma…

  3. Murilo des

    Ok, só tentei deixar um pouco mais claro…

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