A estética da fome, ao vivo. Por Lord Milek, do Abranches.

“(…) um artista, um filósofo, devem não apenas criar e exprimir uma ideia, mas ainda despertar as experiências que a enraizarão nas outras consciências.”

Maurice Merleau-Ponty, em “A Dúvida de Cézanne”.

Essa semana tive o prazer de ser atingido por um texto do antigo e genial cineasta brasileiro Glauber Rocha chamado “Por uma Estética da Fome”. O texto é apresentado como uma Tese-Manifesto datada de 1965, ele discorre de maneira crítica sobre o cinema brasileiro da época, defendendo o Cinema Novo – portador da tal estética da fome – e criticando o que o autor classificou de cinema “digestivo” – produzido a partir do golpe de 1964 e que mostrava o Rio de Janeiro rico, bonito, chique, estiloso e vazio de significado, tal qual uma novela global de Manuel Carlos. Mas o que mais me interessou no texto foi a relação feita pelo autor, a todo momento, entre cinema e política. Talvez a tese do texto possa ser resumida assim: um filme não se encerra nos limites da arte, mas contamina a sociedade, sobretudo o plano político; isso é deixado bem claro no segundo parágrafo do texto.

Pois bem, a anos temos assistido um aumento significativo na produção de filmes sobre a vida nos morros cariocas, sobretudo seu aspecto marginal ligado ao tráfico de drogas. Os três primeiro que me veem à cabeça de modo instantâneo são : Cidade de Deus, de Fernando Meirelles; Tropa de Elite 1 e 2, de José Padilha. Os três têm seu roteiro escrito por Bráulio Mantovani. Obviamente devem existir mais filmes , porém, com certeza esses são os mais bem sucedidos, mercadologicamente falando, e os que alcançaram maior público e destaque.

Até que ponto esses filmes influenciaram o meio político? Difícil precisar. Porém, vivenciamos, em tempo real, uma batalha das mais importantes da história entre Estado e tráfico de drogas – inclusive, se você ligar a TV neste exato momento, em qualquer canal de notícias, eu garanto, vão estar falando sobre a ‘guerra do Rio’. E nessa batalha podemos observar em diferentes níveis: organização do Estado, aplicação dos policiais e apoio popular à ação da polícia. Três elementos essenciais na luta contra o crime e que são impressionante e vergonhosamente novos no Brasil. Afirmo, e exemplos históricos soviéticos, nazistas e liberais-hollywdianos – que em essência diferem muito pouco – que o cinema, e as artes em geral, contribui pesadamente para a realização dessa mudança. Por que outro motivo um soldado com um salário de fome se aplicaria tanto no combate se não pelo reconhecimento quase que como herói dado ao soldado honesto nos ‘Tropas de Elite’?; por que outro motivo a classe média intelectual (ou seria melhor dizê-lo “classe mérdia intelectualóide”) passaria a apoiar ações duras contra bandidos que ela defendia e sustentava baseada em uma idéia rasa e enlatada de ‘direitos humanos’ não fosse pelo xeque em que são postas essas posições em filmes como os três citados?; Por que outro motivo os governos destinariam tanta verba e atenção a essas comunidades não fosse pelo potencial de votos que o bem estar dessa população lhe gera, tema comumente explorado pelos filmes citados.

Não que eu seja inocente a ponto de acreditar que os filmes sejam as causas motoras dessas ações, nem que se pode resumir aos filmes os interesses que determinam essas ações, e que, consequentemente, as artes podem mudar o mundo. Mas seria inocência, por outro lado, acreditar que o cinema e as artes não são um dos motivos mais fortes nesse despertar – ainda que pontual – de consciência que podemos testemunhar. Uma das ideias mais fortes a serem combatidas sobre o assunto “arte e formação de um povo”, é de que a obra de arte é apenas uma obra de arte. Filmes como esses, ou movimentos artísticos como o ‘Cinema Novo’ de Glauber Rocha e cia, não são nunca apenas isso. São reflexos, reflexões, ensinamentos, laboratórios, experiências, criadas ou imaginadas, que permitem a iluminação – ou o obscurecimento, se má intencionadas – dos problemas e modos de lidar com esses problemas de um povo, cabe se educar para perceber esses aspectos quese sempre sutis.

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4 comentários

Filed under cultura, Filosofia de Butéco (Botéco), opinião

4 responses to “A estética da fome, ao vivo. Por Lord Milek, do Abranches.

  1. Também acredito nesta relação; na associação entre arte e realidade, elevando a possibilidade de realização real do que é apresentado nas telas. De certa forma, acredito que possa si haver algum tipo de intenção na disseminação desse conceito, ou seja, penso que alguns pontos levantados nos filmes (ou até outros tipos de arte) possam ter sido inseridos no contexto de modo a alterar pensamentos em busca de resultados que sejam relevantes.

    A sociedade sempre elegeu seus heróis, e muitas vezes somente no cinema havia disponibilidade destes. A aproximação de um filme à determinada realidade possibilita que se vejam heróis (no sentido bom da palavra – no caso policiais e demais) com formas mais humanas e próximas da realidade.

    Adorei tua crítica! Até a próxima.

  2. Acho muito interessante a dominação que os filmes trazem. Lembro quando lançaram cidade de deus, o filme é realmente ótimo, mas é impossível fazer uma obra que seja a total realidade. A arte imita a vida, a vida imita a arte. A massa pensa que só assistindo aos filmes, ou acompanhando a telejornais vão compreender tudo sobre, por exemplo, a onda de ataques no R.J. Foi post foi muito bem colocado quando disse que os filmes, e a mídia principalmente tem um poder muito forte sobre os humanos. Hitler, Mussolini, Lênin, Bush, Obama, e até o Lula, a maioria dos grandes líderes vem usando isso a seu favor. E se lembrarmos ainda, os imperadores romanos já faziam isso. Mandavam fazer esculturas belíssimas sobre eles, para demonstrar poder e altivez. Agora não é diferente, sempre em todo veículo de comunicação vai haver pensamentos distorcidos, e fatos ocultados.
    Belo post
    LordRafid
    P.S.: Há um post que fala sobre a onda de ataques no R.J. no meu blog, napprosa.blogspot.com espero sua visita!

  3. opiniaodesegunda

    Obrigados!

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