Ameaça… Por Murilo The Kid…

Esse texto é o primeiro de quatro reflexões minhas sobre a relação entre tecnologia e arte no cinema. Dividi o texto original principalmente por dois motivos: 1 – ele ficou muito extenso para o formato do blog; e 2 – É uma tentativa desesperada de ganhar tempo para que o Tosco entre em férias e volte a escrever para cá, ó pá. Caso isso não se cumpra eu postarei a letra e o vídeo de By My Self, interpretada por Celine Dion, sacaram?

 

Cinema: tecnologia e arte. Parte I: Perguntas…

Existem duas coisas que se devem levar em consideração quando se fala em cinema 3D e a suposta revolução que ele causou; uma é a indústria cinematográfica e outra é a arte ou o cinema em si. A primeira é quem investe nos filmes, quem tem os meios de produção e veiculação dos filmes, quem retira a maior parte dos lucros dos filmes, enfim, é para quem o filme é um produto. A segunda é uma realização de uma força criadora, uma obra de arte, são os movimentos artísticos, os estilos, as formas de pensar dos roteiristas, a criatividade na captação das imagens do diretor, a atuação do ator, enfim, tudo que permite à obra existir atuante não mais enquanto ideia.

Os entusiastas de todas as tecnologias novas criadas para o cinema sempre usam o mesmo termo para designar esses adventos: “revolução”. Dizem eles: ‘o 3D é uma revolução’, ‘Matrix foi uma revolução’, ‘o cinema colorido foi uma revolução’, etc… Acredito que tais pessoas não sabem a diferença entre revolução e inovação. Todas essas parafernálias tecnológicas são inovações, e nenhuma delas representam revoluções para o cinema. Revolução, arrisco aqui um conceito sem a devida profundidade reflexiva, significa uma quebra de paradigma, um evento que transforma todo a forma de olhar para o passado e determina todo o futuro dentro de um âmbito. E nenhuma inovação tecnológica representou isso. Continua-se a fazer filmes fantásticos em P&B, pouquíssimos filmes usam as técnicas de Matrix, e a maioria dos que usam, o fazem para parodiar o próprio Matrix; e o 3D chega a ser nocivo, pois só é usado para fins comerciais. Ainda não se teve nenhum ganho artístico com o 3D e pode até ser limitação da minha parte, mas acredito que vai demorar para se conseguirem dar uma significação artística a ele.- Talvez num possível remake de 2001: Uma Odisséia no Espaço, de Stanley Kubrick, a viagem ao infinito em 3D faça algumas pessoas vomitarem na sala, mas até lá… – Enfim, a despeito de toda técnica que tenta cada vez mais reduzir o cinema a um mero entretenimento de massas, tendo como pano de fundo a ideia de que uma obra de arte é apenas uma obra de arte e que deve ser experienciada somente durante o tempo que o filme dura, que começa na primeira cena e termina na última, o cinema de arte ainda sobrevive; ainda temos filmes como “A Fita Branca”, “Um Homem Sério”, “O Cheiro do Ralo”, e muitos outros sendo produzidos.

Feitas essas ressalvas, algumas perguntas surgem: Qual a relação entre a indústria cinematográfica e os filmes não industriais, isso é, até que ponto a existência destes depende daquela? E mais, não se teve nenhum ganho artístico com as inovações tecnológicas, isso é, elas servem meramente à indústria? A primeira pergunta se põe porque os três filmes citados por último, por exemplo, dependem da indústria em algum caso; “A Fita Branca” é um filme alemão visto aqui no Brasil, mérito da distribuidora. “O Cheiro do Ralo” é um filme pouquíssimo popular (no sentido de ser um produto para massa), feito no Brasil, por uma produtora pequena, mas que é muito bem filmado, e bem distribuído – concorrendo a prêmios internacionais – mais um mérito do trabalho industrial; e o “Um Homem Sério”, apesar de contar com uma direção famosa, é um filme de roteiro difícil, sem nenhum ator famoso, e com uma linearidade de sentido nada comercial, mas que é distribuído por uma grande empresa estadunidense. A segunda pergunta cabe se pensarmos pelo seguinte lado; em “Matrix” aquele efeito de câmera fantástico, em que determinadas cenas são congeladas e o “espectador gira” em torno do ator ou do objeto em cena, não cumpre simplesmente o papel de impressionar o telespectador, como uma criança com um truque de mágica, mas ele vem reforçar a tese de perspectivista do filme, ou ainda, a apreensão de cada aspecto da imagem em cena para formar a ideia perfeita situada num ‘mundo das ideias’. Porém, acho difícil que esse efeito se produza dessa mesma maneira em outro filme qualquer que não queira transmitir a mesma ideia – a prova disso são os outros dois “Matrix”, meramente comerciais. No caso do cinema em cores e do P&B; hoje, optar por filmar me P&B é um efeito artístico, o próprio já citado “A Fita Branca” é um exemplo: o P&B remete às origens do cinema, e a história trata das origens do nazismo, portanto o P&B é um reforço na ideia de retorno às origens da questão. O mesmo acontece com filme que usam P&B e uma outra cor escolhida pelo diretor para dar relevo à uma cena ou a um objeto, ou se mescla colorido e P&B com intensão parecida; de Tarantino a Wim Wenders, passando por Robert Rodriguez , esse efeito é usado e bem usado. Nesses casos a tecnologia vem compactuar com a arte, ou melhor, ser incorporada pela arte, participando da ideia de que um bom filme não pode ser só uma mera peça de divertimento mas também e acima de tudo é uma obra de arte, e como toda obra de arte, qualquer elemento que faça parte dela não pode ser meramente ilustrativo, mas compactua com o sentido da obra.

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Filed under bom gosto, cultura, opinião

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