Cinema: tecnologia e arte. Parte III: pirataria…

A pirataria surge no cenário da produção artística quase que como um resgate de certas bandeiras anarquistas, porém, não penso que essas análises sejam totalmente corretas pois a pirataria não acerta do mesmo modo todas as artes. Ela não é a mesma na música e no cinema, por exemplo.

Em música o processo é mais ou menos o seguinte: o artista compõe, grava as composições em um CD, esse é lançado no mercado, a crítica ouve e dá sua opinião, o público ouve e se manifesta comprando mais ou menos o CD, e de acordo com os resultados dessa conjuntura, a produtora da banda vai fazer mais ou menos camisetas, os artistas vão dar mais ou menos entrevistas, enfim, a exposição vai ser maior ou menor, e isso vai determinar o sucesso do trabalho. Porém, quando se pirateia um CD, se pirateia uma obra de divulgação, um produto de marketing, e não uma obra de arte ou uma experiência artística; quando se pirateia um CD não se contribui para o fim da musica popular como a conhecemos, muito pelo contrário, se contribui para o alargamento da experiência artística da musica obrigando os artistas a fazerem mais shows; é no Show que o musico mostra o quanto é bom, o quanto sua música tem qualidade e capacidade de tocar o público; e mais, é com Show que o artista ganha seu sustento, os ganhos com venda de CD são muito maiores para a indústria fonográfica que sobrevive da venda de Cds, camisetas, bottons, posteres, etc… Não é a toa que tem muita banda por aí pouco se lixando e colocando suas músicas direto na net, e na medida que a tecnologia permite que um CD possa ser gravado com qualidade no fundo do quintal de casa, disponibilizar seu trabalho diretamente e gratuitamente para o público é somente eliminar o atravessador.

Porém em cinema se tem uma diferença fundamental: o filme, o rolo, a película, a gravação, não é um produto de marketing, ele é condição de possibilidade de existência da obra de arte, e na medida em que se pirateia isso, acaba-se por piratear o trabalho do artista junto com o trabalho industrial, fazendo essa tática anarquista jogar a criança com a água do banho. O trabalho de produção e distribuição também é uma condição de possibilidade de existência da obra de arte, se se corta essa dimensão o cinema definha e morre, seja pelo aumento desesperador de merchandising de produtos dentro do filme que isso causa, ou seja pelo fato de que não se terá mais como viver de cinema obrigando os artistas a diversificarem suas atividades, e convenhamos, se Francis Ford Coppola fosse, ao mesmo tempo que diretor, chapeiro da lanchonete do china da esquina, Apocalypse Now não existiria, pelo menos não da mesma forma genial. Mais uma vez a correspondência entre cinema e indústria fica evidente enquanto essencial, cortar essa ligação dentro de uma sociedade liberal capitalista é matar a arte, e o anarquismo que começa pelo lado errado, mais uma vez, dá um tiro no pé.

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Filed under bom gosto, cultura, opinião

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