As férias e o existencialismo do dito ‘vagabundo’. Obviamente, por Murilo.

Tempo livre não significa repouso. O repouso, como o sono, é obrigatório. O verdadeiro tempo livre é apenas a liberdade de fazermos o que queremos, mas não de permanecermos no ócio.”
George Bernard Shaw

 

‘Ócio’ até onde se sabe nos chega aos ouvidos pelo latim ‘otiun’. Para os latinos originais, o ‘otiun’ era a parte da vida dedicada às atividades propriamente humanas, isso é, não naturais, não animais, não instintivas, não fisiológicas, etc. Se ‘otiun‘ era a palavra dos latinos, para os gregos a palavra era ‘Eskolé‘, significava praticamente a mesma coisa, era aquilo que valia a pena ser feito por um ser humano com seu tempo. A ‘eskolé’ era parte da ‘Bios’ grega, que designava a parte humana da vida (é a origem de palavras como ‘Biografia’, por exemplo); já a vida animal, da qual o homem participa, era designada pela palavra “Zoo” (daí “Zoologia”, por exemplo).

Tanto no ‘otiun‘ latino quanto na ‘eskolé‘ grega, as atividades ditas “propriamente humanas” eram as ciências, as artes, a filosofia, a política, a religião, etc., que vou chamar aqui de modo arbitrário e descomprometido de atividades culturais. O oposto do ‘otiun‘ era representado por uma simples negação: “nec-otiun”, que nós traduzimos simplesmente por ‘negócio’. Era na parte do ‘nec-otiun‘ que os homens ganhavam seu sustento (agricultura, comércio, etc), planejavam sua defesa (construindo casas, formando exércitos, etc), era quando dedicava-se o tempo a cuidar de necessidades animais, instintivas, de subsistência. Sendo assim, as atividades culturais concediam ao homem existência, e as atividades “animais” sub-existência. Pela observação desse homem dividido em ócio e negócio podemos ver o caráter libertário do ócio, o homem podia escolher as atividades as quais se dedicar; no negócio não, fizesse o que se fizesse o único objetivo era suprir as necessidades físicas do animal homem.

Ao contrário da antiguidade, o ócio hoje tem uma conotação extremamente negativa; tempo ocioso é tido como inútil, ou então, se dedicar ao ócio é o mesmo que se entregar à preguiça. Agora, o mais próximo de um adjetivo digno é o dito “tempo livre”. “Tempo livre” é o termo por nós usado como antônimo de ‘trabalho’, que por sua vez vem do latim “tripalliun‘, que nada mais era que um instrumento de tortura romano, pois bem, não é muito difícil imaginar como um termo que antigamente designava tortura atualmente designa a atividade produtiva humana. Em todo caso, a questão é que o uso do termo “tempo livre” joga na cara uma situação incômoda:

 

I – quando trabalhamos não somos livres.

II – quase todos seres humanos tem a necessidade de trabalhar.

III – logo, quase todos os seres humanos não são livres.

 

Que Bernard Shaw me desculpe, mas para o fantástico e modesto blogueiro que vos escreve O verdadeiro tempo livre é o ócio!

Como é aquela história de que “o trabalho dignifica o homem”? Quem foi que disse que “só o trabalho liberta”? Se ‘tempo livre’ é o oposto de ‘trabalho’, então o tempo livre na antiguidade deveria ser o tempo que se dava ao torturado para quer se recuperasse até a próxima sessão de tortura. Hoje é diferente? A questão é que o trabalho ou o negócio sempre foram vistos como ‘maus necessários’, e agora o mal “dignifica”, “liberta”, “engrandece”, e muitos outros blá blá blás¹ por aí.

Se você adora trabalhar e adora tirar férias, veja se não se identifica com o Charlinho do vídeo a baixo.

 

 

 

1- como seria o plural de “blá blá blá”?

Anúncios

Deixe um comentário

Filed under cultura, Filosofia de Butéco (Botéco), opinião

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s