Monty Python’s e os monólogos coletivos… por Murilo!

“Aos surdos os que dançam parecem loucos”

Johann Wolfgang von Goethe

De repente surgem dois sujeitos ao longe, no que aparentemente seria o ano de 932 D.C, um cavalgando (sem cavalo) e outro, mais atrás, batendo dois cocos e com isso imitando o som de um cavalgar. O primeiro veste-se de maneira nobre e carrega somente uma espada, o segundo está coberto de panos brutos e repleto de carga nas costas. Essa é a primeira imagem da primeira cena do filme Monty Python’s: Em Busca do Cálice Sagrado (O Santo Graal) de 1975. A primeira impressão do espectador é: “são dois malucos fazendo algo sem sentido”.

Na sequência os dois se deparam com um castelo, do alto um sentinela os autua e pergunta por quem vem, o nobre da um passo a frente e se identifica como “Arthur, rei dos Britânicos, que derrotou os Saxões; soberano de toda Inglaterra” e diz que esta cavalgando pelo reino desde há muito tempo para encontrar bravos cavaleiros que queiram se juntar a sua corte em Camelot. O guarda retorna: “Cavalgando? Vocês estão usando cocos!” Eis a segunda impressão do espectador: “O guarda não é maluco, esta tentando restaurar o sentido ao Rei.” Doce Ilusão. N sequência o sentinela pergunta onde o eles encontraram aqueles cocos. A resposta é vaga: “Encontramos!” E o guarda segue exclamando que encontrar um coco naquela região era absurdo, afinal coqueiros são arvores nativas de climas tropicais e o clima da Inglaterra é temperado. Daí para frente o sentinela e o Rei começam um breve diálogo (dos mais geniais da história do cinema – a seu modo) sobre a possibilidade de uma andorinha carregar um coco durante seus voos migratórios de regiões tropicais. Cansado dessa conversa sem nexo, o Rei tenta reimpor o sentido de sua visita exigindo que o guarda comunique seu Sr. sobre a visita real. O guarda simplesmente ignora o Rei e continua divagando sobre a possibilidade de andorinhas carregarem cocos – agora com a ajuda de um outro guarda que entra em cena. O fato é que os dois núcleos de personagens perdem o contato e findam o diálogo apesar de continuarem a falar uns com os outros, promovem um verdadeiro “monólogo coletivo”¹. Vendo a esterilidade da situação, o Rei abandona a cena e simplesmente deixa os guardas falando sozinhos; nesse momento a câmera se mantem filmando o vazio deixado pelo Rei enquanto os guardas não para com a discussão – é assumido o ponto de vista do Rei. Temos aqui a terceira impressão da cena: “Os guardas são loucos, ignoram o Rei e sua missão e se mantêm numa conversa sem sentido algum!” A cena acaba – um tempo – quarta impressão sobre a cena: “São todos loucos! Nada faz sentido!”

Esta no movimento da cena toda genialidade de Monty Python’s. É promovida uma verdadeira dança entre espectador e sentido, em que os criadores do filme jogam o espectador para lá, depois mudam o sentido para cá, e assim por diante até que o espectador se solta na compreensão da cena, e de repente, se vê dançando sozinho, pois não há mais sentido em parte alguma.

holy_grail

1 – termo chupinhado de: M. M-Ponty – Psicologia e pedagogia da criança – Martins Fontes – São Pulo, SP. 2006!

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6 comentários

Filed under cultura, Filosofia de Butéco (Botéco), opinião

6 responses to “Monty Python’s e os monólogos coletivos… por Murilo!

  1. fábio420

    E aqueles que foram vistos dançando foram
    julgados insanos por aqueles que
    não podiam ouvir a música.
    Friedrich W. Nietzsche.

    pelo visto essa frase é simplesmente como vemos o mundo.

    vou baixar esse filme, gosto de filme com monólogos sem sentido :B

  2. A vida muitas vezes não faz sentido algum…

    Eu nunca ouvi falar desse filme…

  3. Lucas

    nunca ouvi falar nesse filme ,bateu curiosidade agora…bacana 😉

    Estou ajudando uma amiga na divulgação do blog, se puder comentar e ajudar…Abraço
    http://gihcamp.blogspot.com/

  4. Beleza, galera, só retribuindo a visita e comentário no meu blog. Bem, a respeito do seu comentário e pedido de resposta, creio que o Código Penal está caduco, precisa ser revisto o quanto antes e que as penas são brandas. Não entendo como um bandido que mata um pai de familia, pega 10 anos de cadeia e sai por bom comportamento para o semi-aberto para cometer crimes de novo. Nos Estados Unidos, pegou 10 anos, só sai depois de toda a pena cumprida. Lógico que o problema da criminalidade é bem mais complexo do que pensamos, pois envolve educação, trabalho e outras coisas.

    Parabéns pelo blog e abração.

  5. Carmen Rita Soethe de Barros

    Estou me divertindo muito por aqui!!!
    Adorei o blog meninos!!!
    Abração#

  6. Esse filme é sensacional,e o que tem de metáforas é assustador…

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