Onze anos e um segredo. Por Murilo.

Toda vez que sai um resultado de um daqueles testes para se medir a qualidade da educação num país os brasileiros ficam rubros de vergonha. E com razão. Nós conseguimos ficar atrás de países do Caribe e da África – nada contra Caribe e Africa, mas para quem almeja ser uma das maiores entre as maiores economias do mundo isso é embaraçoso. E a coisa fica ainda mais feia se pensarmos que os níveis atuais de educação dos brasileiros que se formam no segundo grau de hoje são inferiores aos níveis dos próprios brasileiros de 45 anos atrás. Nós estamos atrasados 45 anos em relação a nós mesmos. Passamos quase meio século emburrecendo – 20 anos de ditadura militar que considerava ‘pensar’ um ato criminoso, mais 10 anos de “democracia” boa parte dela sem participação popular direta que serviu só para realocar os caciques que não tinham interesse nenhum de mudar a situação da educação, e por último 15 anos de governos com alguma boa vontade em relação a educação, mas uma vontade fraca, insuficiente. E como se não bastasse o “novo” governo federal resolve “cortar gastos com a educação” – como se dinheiro destinado para educação fosse ‘gasto’ e não ‘investimento’ – cuspindo no prato que lhe deu muito o que comer na última eleição.

Mas o ponto aqui é outro; nos últimos anos tem ocorrido – seja por sorte, esforço, ou politicagem – uma volta de matérias há muito esquecidas à grade do Ensino Médio brasileiro, tais como a filosofia, a Sociologia, a Música e, falasse, numa possível colocação da psicologia nesse bolo, entre outras. A intensão por trás disso é das mais nobres: “contribuir para uma formação mais humanista de nossos jovens.” Lindo. Para além do fato de que a grande massa desses jovens chega ao segundo grau sem saber ler e escrever, o que boicota o próprio projeto e torna esse “humanismo” todo uma piada de mau gosto, existe o fato de que a ‘demanda’ de nosso sistema educacional, enfaticamente no Ensino Médio, caga para o ‘humano’. Isso é, o discurso de que “a escola visa formar seres humanos conscientes de sua condição” vai por água a baixo quando a escola acaba e o formado se vê diante da necessidade de entrar numa faculdade, e descobre que o meio para isso é um aborto da razão chamado ‘vestibular’, que exige que ele jogue fora sua educação humanista e se concentre na sua educação tecnicista. Talvez o maior crime contra o ensino em todos os tempos seja esse tal vestibular. É um choque de princípios, de um lado uma ‘formação humanística’ que dura 12 anos, de outro uma demanda técnica para se inserir no mercado de trabalho que só leva em conta o último ano desses doze, e ainda, só uma parte das matérias estudadas. Os alunos passam 11 anos sem saber o que estão fazendo naquele lugar feio que chamam de escola, aí no último ano descobrem que tem que passar num tal de vestibular que, via de regra, é difícil, e então fazem das tripas coração com cronogramas de estudo sub-humanos, os pais gastam um dinheiro que não tem pagando cursinhos astronomicamente caros e sustentando os filhos do aborto supracitado chamados de “terceirões”, assim a educação vira um negócio lucrativo para uma meia dúzia, e um prejuízo enorme para o país que patina atrás de “Panamás” e “Azerbaijões” da vida.

Depois de todos esses anos o que de melhor nosso sistema consegue fazer é formar uma legião de técnicos, uma massa de profissionais relativamente qualificados, e quase nenhum cidadão. Uma corja de pretensas “inteligências” do país que, de “baseadinho” em “baseadinho” sustentam o tráfico de drogas. O mesmo tráfico que promove a violência e mata os amigos desses “inteligentes” que depois fazem passeatas pedindo paz segurando belos cartazes, todos vestidos de branco, com uma imagem bem pacífica – ou seria passiva? – para mostrar toda sua indignação. Um bando de “gênios” que resolvem problemas repletos de ‘integrais’, ‘derivadas’ e ‘infinitesimais’ antes mesmo do café da manhã, e a tarde elegem “Malufs”, “Sarneis” e “Tiriricas” e, ainda no mesmo dia, vêm o jornal e exclamam “Que vergonha!”. É essa a idiotice sistemática que sustenta “Bolsanaros” e “Ricardos Barros” da vida. Essa idiotice é consequência direta dos onze anos jogados fora que os jovens tem perdido na escola. Essa incapacidade quse patológica de pensar encontrada na maioria dos jovens que se formam no Ensino Médio brasileiro é consequência direta dessa contradição interna do nosso sistema – já nem sei mais se esse nome é adequado. Talvez o primeiro e mais importante passo para resolver os problemas educacionais brasileiros seja determinar o que de fato se espera da educação, formar seres humanos ou animais?

Enquanto não nos decidimos, lentamente o ovo da serpente quebra sua casca.

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8 comentários

Filed under cultura, opinião

8 responses to “Onze anos e um segredo. Por Murilo.

  1. Realmente,é ridículo.Somos umas das maiores economias mundias,porém não temos nenhuma universidade entre as 100 melhores.Chega a ser patético.Belo post!
    http://juventudeinformada.blogspot.com/

  2. Olá querido blogueiro, eu ameei todos os textos e etc…
    Ja estou seguindo e sempre vou estar aqui dando umas olhadas e comentando sempre!
    o meu blog ja esta alí, então se poder me seguir agradeço mt!
    Um bjo;*

  3. Concordo com vc, para um país que a economia é uma das maiores do mundo ainda não evoluímos em questão da educação. Acho que as escolas públicas deveriam receber mais investimento do governo com mais didática, talvez com mais qualidade e infraestrutura a absorção do conteúdo seja melhor, e talvez no futuro essa realidade mude.

    Ótimo blog

    Leandro
    http://www.emquestao.org
    comente e siga!

  4. A crítica tá bem feita, os argumentos todos bem defendidos. Há de se concordar com a maioria deles, só não consegui enxergar a relação dos ‘onze anos’. Pareceu meio que tirado da cartola.

    Sobre o tema em si, toda a nação que se preze não pode deixar educação e cultura de lado, caso contrário vai pagar caro a conta em outros setores: terá de importar mão-de-bra qualificada, investirá mais em campanhas de cura para algumas endemias (como a dengue) pois a população é incapaz de seguir uma cartilha de recomendações, visto seu alto grau de ignorância. E estes são apenas alguns poucos exemplos.

    • opiniaodesegunda

      ” (…) É um choque de princípios, de um lado uma ‘formação humanística’ que dura 12 anos, de outro uma demanda técnica para se inserir no mercado de trabalho que só leva em conta o último ano desses doze, e ainda, só uma parte das matérias estudadas. Os alunos passam 11 anos sem saber o que estão fazendo naquele lugar feio que chamam de escola, aí no último ano descobrem que tem que passar num tal de vestibular que, via de regra, é difícil, e então fazem das tripas coração…”

      São 12 anos dentro da escola (do pré ao 3° ano); como só se estuda no último ano, por causa do vestibular, os outros 11 são perdidos.

  5. Marina

    Sensacional… triste é ser professora do primeiro ano do ciclo I e saber que o início da formação será desperdiçada nos próximos anos… lutar por uma Educação Infantil de qualidade e por uma alfabetização capaz de produzir crianças letradas, curiosas e ávidas por coisas novas, nos faz refletir onde é que a educação se perde… sim, pq há bons profissionais nas escolas públicas, interessados em levar encaminhar nossas crianças para um futuro melhor… pena que há outros “profissionais” preocupados em tirar o dinheiro que deveria ser “gasto” com a educação… e um governo preocupado em números e índices…

    • opiniaodesegunda

      O problema é que a gente não sabe o que quer com a Educação. A gente não sabe se quer formar cidadãos consciêntes, emancipados, que vão saber viver em sociedade e construir um país melhor; ou se quer formar um monte de técnicos, com alguma capacitação profissional, que vão conseguir algum emprego relativamente bom depois que se formarem, mas que vão continuar sendo inconsciêntes, alienados, e que simplesmente estão cagando para o resto do mundo. Enquanto a gente estiver dividído entre esses dois caminhos – técnicos ou cidadãos – nós não vamos resolver nenhum problema grave. Esse é um problema de princípio, não se resolve com dinheiro.
      Bons profissionais nós temos aos montes, como você Marina, como vários colegas meus, como vários professores que nos deram aula e que são inesquecíveis. Só que como esse problema é de pricípio, o trabalho desses bons profissionais é jogado fora junto com os 11 anos, o problema é que o que é ensinado é diferente do que é cobrado. A gente pode ensinar uma coisa da melhor forma possível para uma crinaça, mas se quando ela sair da escola cobrarem dela uma coisa completamente diferente, aquilo que foi ensinado perde o valor.
      Foi esse o ponto principal do texto… O comentário sobre “gasto” com Educação foi só um espetada num governo que começa a fazer cagada.

      Marina, aquele abraço quirids… volte sempre!

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