Quixote Água de Colônia. por Vitor Souza e Gustavo “Mãozinha” Jugend.

E de repente o sangue virou petróleo.”

Rogério Skylab.

Era 5:45h de uma manhã de outono na região agrária. O que realmente não era relevante, uma vez que em Mucujê as mudanças de estação demoram a se fazer sentir: “Calor da porra!” – Nestor limpava o suor da testa com seu pano quadriculado enquanto caminhava com ânimo curto porém crescente em direção ao armazém onde mantinha suas sementes para poder dar início ao plantio da nova safra que colheria dalí a 10 estações. No caminho Nestor lamentava (todos os dias a mesma lamentação) que ao comprar o antigo canavial de Seu Theodoro Eurípedes não tinha aproveitado para construir a instalação de armazenagem perto da área destinada ao cultivo.

10 minutos andando ladeira acima e já era possível distinguir as letras esculpidas em madeira recebendo o pançudo fazendeiro: “Grãos do Charong”; Charong, um asiático de ascendência indeterminada, havia sido capataz no Porto de Santos durante 12 anos e sido um dos líderes da Grande Greve. Ao conhecer Dulce, uma baiana dotada de quadris de boa parideira e gênio difícil, Charong largou a rotina paulista pra viver ao lado da morena no nordeste. Lá conheceu Nestor que o empregou como ajudante em Quixote. Um dia Dulce simplesmente desapareceu deixando um amante melancólico pra traz. Após um mês de desgosto Charong se enforcou com uma gravata que nunca soube porque havia comprado.

“O que uma mulher não faz com o cabra… coitado do china.” – Nestor destrancou o cadeado, removeu a corrente, empurrou a barra de madeira pra cima, escancarou a porta e contemplou seu legado (o qual pretendia deixar para Charong, mas..) – dentro da construção 18 geladeiras brancas Conquistador dispostas em círculo trabalhavam imóveis naquela próspera refrigeração fundiária. Cada uma possuía na parte superior da porta um número pintado em preto e logo abaixo uma tabuleta vermelha magnetizada contendo em rabiscos de giz branco os dados da encubação ali contida. Debaixo delas saía um cano individual que conectava-as com Rossi, o motor central que as mantinha funcionando; uma por uma. Rossi era enorme, e para evitar desastres ficava no chão disposta sobre um tapete de palha. O equipamento havia sido construído por Charong e Nestor a partir de várias partes de motores de maverick, fusca, opala e marajó. Depois de pronto Rossi ganhara pintura azul petróleo que lhe conferia um ar sinistro. Sua engrenagem principal não podia ser vista – apenas escutada – um conjunto de 36 corações de cavalo batendo em sincronia num ritmo tão acelerado que as vezes causava agonia até mesmo no proprietário que, por excesso de zelo, entrava ali todas as manhãs. Os corações eram interligados por fios que se atavam a um revestido condutor principal. Este por sua vez dava de encontro a um dispositivo localizado numa cabine no canto do armazém onde uma vez em quatro meses Nestor descarregava- 3960 volts para garantir que Rossi não morresse.

O fundiário foi até a geladeira 13, e retirou um por vez os 3 embriões que lá descansavam levando os para a carroceria metálica atada a Cadafalso, o pequenino trator que uma vez a cada dois anos saía do campo carregado com patas, orelha, rabos, línguas e focinhos para em seguida subir aquele morro, e, no dia seguinte carregar potros congelados. Nestor voltou e repetiu o modo com as geladeiras 14, 15, 16, 17 e 18. “Esse ano mais 18 sementes cinza. Agora é juntar grana pra expandir…”

Nestor montou em Cadafalso, deu a partida e seguiu ladeira abaixo enquanto assoviava sua ladainha favorita. Sem pressa o fazendeiro dirigia seu trator observando o céu matinal; o calor havia aumentado e chuva não cairia tão cedo, mas Nestor já não dava bola – lembrava-se de quando moço que de saco cheio do marasmo local deixara o Paraná em direção a Bahia… Na metade da descida olhou para as hélices verticais abandonadas na propriedade contígua que se convertera num pasto de bois: “ ..de um coração leviano…” – animado, Nestor transformara a melodia murmurada em palavras cantadas a pleno pulmão – “…que nunca será de ninguém… que nunca será de ninguém…”

Chegando ao campo, o homem, já bastante suado, começou o plantio. Pegava semente por semente posicionando-as ainda congeladas de ventre pra cima. Em seguida cobria-as com terra de maneira que somente cabeça, pernas e um pedaço do rabo ficariam para fora da terra. Todos estes membros eram imediatamente presos uns aos outros por barras de ferro que permitiriam somente vagarosos movimentos para não atrapalhar ainda mais o crescimento dos bichos. O pedaço de terra localizado imediatamente acima da barriga do animal recebia grande quantidade de cimento onde, depois de seco, recebia número. Tudo pronto então Nestor aplicava-lhes na perna injeções de adrenalina para que seus corações ainda resfriados pudessem acelerar seu batimento. Cada cavalo ficava a 14,7m do outro, distância estabelecida por Charong que temia que se os cavalos se aproximassem poderiam, percebendo sua não-solidão revoltar-se.

O relógio marcava já 16:53h e Nestor encontrava-se encharcado de suor. Guardou todo o equipamento e apressou-se em direção a casa. No caminho lembrou que precisava passar no setor de cozimento para certificar-se de que a produção final corria sem problemas. Montou em Cadafalso mais uma vez…

Embaixo do teto de zinco os membros eqüinos decepados eram cozidos em fusão de ervas num caldeirão de 6m de diâmetro numa temperatura que variava de 100 a 300 graus centígrados dependendo do estágio do cozimento. O cheiro agradável que em 2 dias inebriaria o ar e estaria pronto para encher de sonhos as narinas dos varejistas já começava a dar seus sinais. Um sorriso espontâneo esculpiu-se no rosto de Nestor. “Mais um pouco e é engarrafar e vender” – Nestor finalmente dirigia-se ao chuveiro.

Extenuado, resolveu voltar montado no tratorzinho pra casa. Atrás dele o sol começava a se esconder; Nestor torceu o pescoço em direção a saudade e uma lágrima de alegria lhe escorreu ao ler a placa pendurada sob o toldo daquela última parte inspecionada:

Quixote

Água de Colônia.

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7 comentários

Filed under bom gosto, cultura

7 responses to “Quixote Água de Colônia. por Vitor Souza e Gustavo “Mãozinha” Jugend.

  1. Um conto diferente! Vocês prendem a atenção e a desviam para um fator até meio sinistro e duvidoso, e depois encerram de forma melancólica. Gostei!

  2. leticiaturtle

    Que legal seu conto… você escreve bem.

    e olha só a concidencia, seu layout é igual o do meu blog rs

    passa por lá depois… deixe seu comentario sobre o post

    http://leticiaturtle.wordpress.com/2011/04/18/destino-de-praiasampedro/

  3. The Turndown for an idiot (mentaldisorderrr.blogspot.com)

    Belíssimo conto. Suave e cativante, e com referências ao grande Miguel de Cervantes. Parabéns, amigos!

  4. esse blog nao tem nd de segunda, mto pelo contrario, contos diferentes, opiniões um tanto impertinentes e sacarcasticas e eu adoooorrooo isso, talvez curta meu blog… bjokas

  5. legal a historia mais o templede ta meio bizarro

  6. Sheron

    Será que causa algum efeito inotrópico no coração??? =D

  7. Diferente e interessante. Gostei

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