Veni, Vidi, Vici em dois atos por Maximilian Drugba

Dias de show são especiais para a maioria das pessoas, e comigo não é diferente. Em menos de quinze dias, dois shows de duas grandes bandas aqui na nossa cidade (Curitiba, muito embora, o show do Iron foi em Pinhais). No dia 5 de abril, uma terça-feira, o Iron Maiden tocou para alguns milhares de fãs. No domingo dia 17, foi a vez do powertrio mais barulhento do mundo, o Motorhead. Descreverei brevemente neste texto minhas impressões sobre as duas apresentações, começando por Lemmy Killmister & Cia. Bem, o que falar desses caras? Vinte e poucos discos gravados, uma carreira sólida como uma rocha e a devoção de seus fãs, principalmente no que diz respeito ao líder da banda Lemmy (para quem não conhece, procure a respeito da maior questão transcedental do rock: Lemmy x Deus). Aliás, para entender o que acontece em um show do Motorhead é preciso recorrer a uma leve dose de transcedentalismo. Talvez a única forma de explicar a aura que envolve as apresentações dos caras seja mesmo recorrer ao sobrenatural. Talvez. Fato é que a soma da força da apresentação e da competência dos três em cima do palco promove uma estranha comunhão entre os fãs. Religioso ou não? É preciso estar lá para explicar. Competência é também a palavra que melhor definiu o show do Iron Maiden. Há outra referência á religião aqui, pois na terça feira, dia 5, o que eu vi foram várias pessoas reunidas para uma celebração. Celebração esta que contava com uma simbologia própria (a quantidade de camisetas com o mascote Eddie era impressionante), um grande orador (novamente, para explicar o que Bruce Dickinson faz no palco, só estando lá) e aquele estranho sentimento de comunhão presente no ar. Mas se me pedissem para definir os dois shows em uma só palavra, ela com certeza seria COMPETÊNCIA. Fui ver no dicionário e olha só o que eu encontrei:

“… capacidade decorrente de profundo conhecimento que alguém tem sobre um assunto…”

Isso basta? Acho que por hora, sim. Sendo um pouco mais específico, vou comentar algumas das canções presentes nos dois concertos. Primeiro, o Iron Maiden, e uma música que nem ao menos é deles. Trata-se de “Doctor, doctor” da banda britânica UFO. Ela é o sinal, a canção que toca antes da banda entrar. É interessante observar que quando ela toca os fãs fazem festa, vibram como se a música fosse da própria banda. Muito legal. Eu mesmo vibrei quando percebi que era ela. Depois disso, todas as luzes se apagam. Começa o show. A dobradinha “Satellite 15…The Final Frontier” vem a todo vapor, caracteristica já habitual em shows do Iron Maiden. O vídeo de introdução que é exibido nos telões é de tirar o folego. Os telões são de tirar o folego. Impressionantes. Curioso é notar também a estranha força dos riffs de guitarra de “The Final Frontier” Cadenciados, sem velocidade, mas muito bacanas. O refrão, tipicamente Iron Maiden, dá vontade de cantar junto. A música seguinte, “El Dorado” é fraca. A mais fraca do disco novo. Mas enfim, estamos em um show do Iron Maiden, então tudo bem. Quando ecoam os primeiros acordes da clássica “2 Minutes to Midnight” eu lembro de ter pensado no texto do colunista e crítico musical do Yahoo, Regis Tadeu*, onde ele critíca o fato de bandas como o Iron Maiden tocarem sempre alguns clássicos da banda sem mudar, turnê após turnê, tornando os shows repetitivos. Eu concordo que esta postura é prejudicial e cansativa, mas acho também que algumas músicas merecem o seu lugar, principalmente se agradam a maioria do público, e essa agradou. Muito.

Discussões a parte, vamos para as próximas músicas. “The Talisman” e “Coming Home”, duas músicas novas, e que ao ouvir a gravação do disco parecem razoáveis, ao vivo parecem ter ganho vida nova. A fidelidade com a qual a banda toca canções novas e velhas pode ser a explicação para o fato de músicas como essas soarem tão bem no show. Isso, e o extremo bom gosto demonstrado pela banda na escolha das próximas músicas do setlist tornaram o show ainda melhor daqui para frente. “Dance of Death”, empolgante, “The Trooper”, revigorante, “The Wicker Man”, inesperadamente bem vinda, “Blood Brothers”, muito bem posicionada, e aí mais uma canção nova, “When the Wild Wind Blows”. Quando ouvi o disco novo a primeira vez fiquei contente. Satisfeito. Até ouvir a última faixa. Era sensacional, muito boa, tensa e ao mesmo tempo leve, sem refrão, incomum e mais uma infinidade de adjetivos. Foi um prazer poder ver a Donzela de Ferro executá-la, ainda mais se levarmos em conta a fidelidade e a “aura mágica” já citadas. Gostei muito. Só ela já valeu o ingresso. Finalmente, o que se seguiu a isto foi um verdadeiro desfile de clássicos da banda, onde, para retomar a parte crítica deste humilde texto, gostaria de citar novamente a problemática das músicas que nunca saem do setlist invocando o que eu considero o exemplo mais latente, “Running Free”. Com vários discos gravados e uma lista assustadora de músicas “cult”, será que eles não poderiam revisar esta questão e encerrar o show de maneira diferente? Fica a dúvida.

Já para o domingo, o Motorhead preparou uma apresentação que ao meu ver pode ser descrita como fora do comum. Claro, fora do comum para os meus padrões. Fora do comum para os padrões mortais. Para eles, aquele é o padrão. Aqui reside minha principal dúvida: como uma banda consegue fazer aquilo? fazer um show ser tão intenso, forte, extremamente bem tocado e ao mesmo tempo divertido? Muita coisa ficou na minha cabeça depois desta apresentação. Então, a medida que eu for descrevendo o show, vou colocando novas questões. Na duas primeiras músicas, uma certeza: não importa o que o Motorhead toque, ao vivo é muito mais rápido, pesado e alto. “Iron Fist” e a roqueira “Stay Clean” abrem o espetáculo como um caminhão desgovernado, atropelando todo mundo. O povo vai ao delírio. Eu fui ao delírio. Acho pouco provável que alguem dentro daquele lugar não tenha ido. Eu estava no piso superior e só tinha olhos para o tiozinho atrás da bateria, um verdadeiro heroí do rock para mim, Mikkey Dee. Descrito pelo próprio Lemmy em um albúm ao vivo da banda como “the best fucking rock n’ roll drummer of the world” (algo como “o melhor baterista de rock do mundo”), o cara parece não cansar jamais, impondo uma velocidade e uma intensidade anormal para o resto da banda. Além disso, sua técnica é muito bem calibrada e sua performance, incrível. Parece que estou descrevendo um carro, não é? Bom, pensando bem, é oportuno, afinal, o homem é uma máquina de tocar bateria. e com uma máquina desta por trás das músicas, o ritmo não podia diminuir. E não diminuiu. Nas próximas músicas, mais violência,”Get Back in Line”, “Metropolis”, “Over the Top” e a excelente “One Night Stand” cairam como bombas em nossas cabeças.

A sintonia entre público e banda era tão grande que podia ser sentida quase que fisicamente. Era isso ou o deslocamento de ar produzido pelo monstruoso conjunto de amplificadores da banda? Não sei, só sei que era quase palpável, e o melhor ainda estava por vir. Com o hit “Rock Out” a casa quase veio a baixo. No momento que escrevo este texto, meu pescoço ainda dói por causa do show, e esta música foi uma das responsáveis pela minha dor (hellyeah). Acho muito bacana ver como uma música nova ganha o seu lugar em um disputadíssimo setlist como o do Motorhead, e “Rock Out” veio para ficar. Depois de tanta pancadaria, um raro momento de calma. O curto e carismático solo de guitarra de Phill Campbell que é finalizado com os primeiros acordes da ótima “The Thousand Names of God”, seguida pela clássica “I Got Mine”, a novinha em folha ” I Know How to Die” e a mais clássica ainda “The Chase is Better than the Catch”. Agora, para falar da próxima música, vou até começar um parágrafo novo.

A música é estruturada da seguinte maneira: uma introdução violentíssima, com Mikkey Dee abusando do bumbo duplo, seguida de um riff ao mesmo tempo rápido e matreiro que compõe as estrofes da música. No refrão, bumbo duplo novamente, sem um milisegundo de descanso. Antes do solo, uma paradinha, e a música repete o esquema mais uma vez (estrofe, refrão, refrão de novo). Estou falando da mega fodástica “In the Name of Tragedy”, que no show ganhou um up, o solo de bateria do monstro Dee. Aqui o meu pescoço foi pro brejo. Se o que eu estava sentindo antes era quase palpável, imagine você, caro leitor, o que aconteceu nos minutos de duração deste petardo. Uma força da natureza em ação. Só consegui arranjar estas palavras para descrever “In the Name of Tragedy”.

Continuando, o show já estava se encaminhando para o final, e a locomotiva do divino Lemmy Killmister não parou, disparando “Just ‘Cos you got the Power” e a animada e essencial “Going to Brazil” que, com sua letra dedicada a nós brasileiros, incendiou novamente o lugar. Para fechar vieram “Killed by Death” e “Ace of Spades”, ambas provocando sérios danos aos já debilitados pescoços e gargantas dos presentes. A banda sai do palco, e a multidão pede aos berros sua volta. E a volta acabou com chave de ouro esta gloriosa noite. “Overkill” dispensa apresentações. Não é uma música, mas sim um tratado sobre violência. Enfim, depois destas duas apresentações, o que dá pra dizer é que: sim, tenho orgulho de ser banger (se não sabe o que é isso, vá procurar!!!), e sim, o rock está mais vivo do que nunca.

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12 comentários

Filed under bom gosto, cultura, opinião

12 responses to “Veni, Vidi, Vici em dois atos por Maximilian Drugba

  1. 'Minino' Murilo...

    Excelente texto…
    Assino em baixo tudo o que foi dito sobre o Motorhead! A apresentação fodástica, assim como alguns hematomas, não sairão de mim tão cedo!
    Voltamos a ter 14 anos!!!rsrsrs…

  2. Um amante do bom rock \o/
    Conhecia algumas letras citadas acima, outras nem mesmo ouvi falar. Mas vou procurar no youtube 😀
    Bela postagem 😀

  3. Deve ter sido shows fodásticos mesmo.

  4. Antonio Afonso

    The Trooper é uma música muito interessante, gosto bastante de Motorhead também

  5. Que essas bandas são históricas é fato. E que serão lembradas sempre também.
    O que acho mais legal nesse post, e é algo que venho observando, é o fato de o Brasil “importar” bandas boas além do eixo Rio-SP, o que é muito bom.

    abç
    Pobre Esponja

  6. bem legal o seu blog e otimo post

  7. Muito boa matéria. Das bandas citadas, gosto do Motorhead. Parabéns pelo blog, muito bom mesmo.

  8. gostei muito do texto…adorei seu blog
    beijosss

  9. Luna

    2 Minutes to Midnight, the trooper e fear of the dark são músicas que se não forem tocadas nos shows da banda, não se pode dizer que assistiu ao show do Iron…
    Além disso são as favoritas de todo mundo, eu acho.
    Puta merda eu não ter ido ver.. INVEJA DE VC !!! hehehhee
    Bom texto.. mas discordo… o Iron apavora mesmo sendo mais do mesmo.

  10. Das duas bandas citadas conheço um pouco mais sobre a primeira, mas pela empolgação sua no texto dá pra ver o quanto esses shows valeram a pena, ainda mais por se tratar de bandas que estão ai há tanto tempo na estrada e fazem um som de qualidade. Legal.
    abcs

  11. Shiniti

    Ótimo texto! Mas o que me chateia é o fato de Bruce ter passado o dia em um barzinho de São José dos Pinhais e eu nem ter podido dizer um oi rsrsrs

  12. Michele

    amei seu blog
    suas palavras são bem escritas
    gostei muito mesmo

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