Noite em Curitiba. … por Alessandro Correa

I
Madrugada

Já passavam das quatro da manhã, fazia frio em Curitiba, daqueles que deixa a gente de juntas duras e queixo batendo. Nosso amigo, ainda vagava pela noite a procura de um bar para suportar toda a aflição e embriagar toda a angústia no interior da sua alma que o castiga desde que deu seu primeiro passo a liberdade.
Senhor S, que por hora não convém revelar a natureza do seu nome bem como as contingências que o fizeram se rebatizar, mas sim, dizer apenas que trocou a sua identidade no momento que teve o seu primeiro suspiro de verdade. Descobriu que não havia sentido em ser mais um ator como todos os outros. Não havia mais sentido em ser politicamente correto e suportar como bom moço todas as ignorantes pessoas em rodas de conversas. Percebeu que a essência dos fulanos e beltranas é pálida e alienada. Na verdade, o mundo inteiro lhe dava tédio como lhe dava tédio também o seu nome verdadeiro e aquele cara que carregava consigo.
Eram quatro horas, entrou em uma boate que era conhecida por ter gente demente, insana e maluca até o raiar do dia. Não eram elas que lhe interessavam, lhe interessava o bom e velho conhaque que havia ali. Entrou sem chamar atenção. Aliás, se vangloriava consigo mesmo disso. Sentia que tinha uma habilidade sobrenatural de passar despercebido em meio à multidão. Gostava de ser assim, não queria conversar com ninguém, a não ser o barman.
Depois de tomar o primeiro, pediu o segundo e com o copo cheio foi subir ao último andar do local. Seis lances de escada que valeriam a pena, pois além de certamente ter poucas pessoas, (ainda mais nesse horário), a música ambiente era a que menos lhe ofendia os ouvidos e a alma.

II
Lá em cima

Já estava no quarto conhaque, à anestesia fizera efeito, sentia-se mais tranquilo, mais vivo. A angústia desesperada de quem não sabe para onde ir já havia passado. Nada lhe importava, nem as pessoas que ali estavam, nem o mundo que lá fora o espera de volta para continuar a tortura diária. Pegou o último conhaque e ia em direção à mesa quando esbarrou sem querer num casal. O homem de aparência bizarra em meio do esbarrão deixou cair um objeto. Por um mero instinto, Sr. S abaixou, pegou o artefato metálico e entregou ao homem prontamente com um pedido de desculpas. Ainda guardava resquícios de um homem de boa índole e julgou necessário agir assim. Percebeu então melhor que a mulher que estava acompanhada do sujeito além de parecer completamente alcoolizada e dopada, carrega em seu ventre uma criança de aproximadamente cinco, talvez seis meses.
Já seguia seu caminho em direção a uma mesa, quando o homem grita; Você derrubou o meu canivete!
– Sim, mas já lhe devolvi e pedi desculpas. Disse isso e virou as costas novamente.
– O que há de errado com você cara?! Olhe pra mim!
Seguiu seu caminho sem olhar para trás. Não era medo, era apenas aversão em falar com alguém. Não queria em hipótese alguma fazer isso, bem como já tinha para si que ignorar o mundo era o melhor que podia fazer se quisesse ter ainda um pingo de dignidade consigo mesmo.
Sentou-se à mesa, colocou o copo na sua frente e começou a tragar o conhaque como um deus. Enquanto lhe queimava a garganta aliado ao doce sabor do silencio sentiu-se único. A verdade era cada vez mais visível a ele.

III
Voltaram

Estava já quase no fim do conhaque e se preparando para ir embora quando lhe vem mesa o homem que deixara cair o canivete e arrastando consigo a mulher grávida.
– Você tem que prestar a atenção em mim seu idiota! Você tem que prestar atenção em mim! Disse praticamente gritando enquanto a sua boca espumava de raiva. De longe, apenas o barman e algumas outras pessoas observavam se entender ao certo o que se passava.
Sr. S olhou para ele fixamente durante um instante, logo em seguida baixou os olhos em direção ao copo e tomou o ultimo gole que ainda restava da aguardente. O homem, então num surto de demência misturada com ironia, sacou o canivete e começo a cortar os próprios dedos por sobre a mesa. Estava certo que assim conseguiria tirar alguma reação do sujeito que não estava nem aí. Cortou a mão esquerda e os próprios dedos numa velocidade frenética e alucinatória. Deu aproximadamente dez e a quinze cortes, enquanto a mulher grávida gritava de histeria.
Passado esse instante, depois do homem já fadigado e incrédulo com aquilo que tinha feito consigo mesmo num ataque de ira, nesse momento mistura-se com um sorriso psicótico, pois como que ganha um troféu, sente que enfim obtivera o objetivo; chamar a atenção do homem a sua frente que lhe diz olhando nos olhos:
– Perder alguns dedos ou até mesmo uma mão é nada, é pouco meu amigo. A cada dia o mundo lhe mutila com um bisturi cego e você nem percebe. O que lhe tiram dia a pós dia de maneira mais sútil e brutal é muito mais significativo do que a sua mão. É você! Disse isso e foi embora.
O sorriso na cara o homem deu lugar para uma expressão de perplexidade sombria e julgamento interno. Segundos depois ouviu o barulho de uma vidraça se quebrando. Olhou uma última vez nessa noite para trás e não viu mais nem a mulher grávida, nem o homem com a mão cheia de sangue. Quando virou novamente em direção à saída, viu apenas o barman correndo em direção à janela.

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17 comentários

Filed under bom gosto, cultura

17 responses to “Noite em Curitiba. … por Alessandro Correa

  1. Os bares na madrugada de inverno, e seus visitantes aquecidos pelo gole quente e pelas lâminas inspiradas na fúria do submundo são cenários para a solidão soturna de cada alma coadjuvante que não olha para tras.
    E o frio em Curitiba é tenebroso mesmo.
    Besos
    http://divademontalban.blogspot.com/

  2. Eita que cara doido em cortou os próprios dedos da mão tensa essa história

  3. Eu me perguntava todo o texto o que você queria passar com ele. Realmente me impressionei com a última parte da história, muito interessante e real. Às vezes as pessoas perdem-se à medida que sua alma entrega-se à mare imunda que o arrastar dos anos pode se tornar. A demência do homem é tão grandiosa que ele nem dá-se o trabalho de tentar mudar, de pelo menos uma vez ser mutável. As pessoas, muitas vezes, não querem reagir. Aliás, podem até querer, mas têm medo; medo de mudar e evoluir.
    Estou seguindo o blog. Muito massa!
    Se você visitar o meu verá o post do mais novo contratado do meu blog.
    Faloows
    quaddronegro.blogspot.com

    • Alessandro Correa

      sim, de alguma maneira sempre estamos perdidos, mesmo quando achamos o contrário.

      Legal a sua percepção do texto e que bom que gostou do desfecho.

  4. Sou eu de novo.
    Não achei os seguidores .-.

  5. Cat

    muito profissional, bem escrito! voce é um escritor de verdade, parabens!

  6. Mah

    Que sombrio e macabro 0.o
    Mas preciso salientar uma coisa: você escreve muito bem!
    Parabéns!

  7. Eu adoro crônicas e concordo com você todos nós
    estamos perdidos nesse mundo.

    Bjo 😉

  8. belo texto…storia muito legal…

  9. “Eram quatro horas, entrou em uma boate que era conhecida por ter gente demente, insana e maluca até o raiar do dia.” — kkkkkk adoro. não pode existir tipo melhor pra servir de personagem… Mas pior do que o kara sanguinário que retalhou a própria mão é a frieza perturbadora de seu protagonista.

    Gostei da leitura,
    Abraços!!!

    http://cafeeagua.blogspot.com
    http://redutonegativo.blogspot.com
    @rejane_marques

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