A tolerância como dispositivo… Por Murilo.

A morte de Bin Laden é convenientemente próxima ao que a imprensa ocidental apressadamente intitulou de “A Primavera Árabe” – a série de revoltas ocorridas em países árabes iniciadas depois da queda do ditador egípcio no começo desse ano. E como era de se esperar gerou uma série de reações pelo mundo (inclusive aqui no blog). Uma dessas reações foi o artigo do jornalista Joe Nocera do “The New York Times”, jornal de alguma relevância nos EUA e no mundo. Resumindo o artigo a idéia principal era: só porque Bin Laden morreu não significa que o terrorismo morreu, e além disso, a desconfiança em relação aos EUA continua grande entre os Árabes. No texto o jornalista aponta com pesar, como exemplo da tal desconfiança, o fato de que os jornais turcos estão unidos contra as ações da OTAN na Líbia de Kadafi; cito; “Mesmo apesar de essas ações almejarem impedir que um ditador cruel massacre seu próprio povo. A imagem de ocidentais bombardeando seus irmãos muçulmanos é muito pesada para ser aceita por eles (…) Esperamos que esse não seja o legado de Bin Laden, mas isso é algo que só nós poderemos reverter.”¹ Isso é, trocando em miúdos, mesmo com os ocidentais bonzinhos – com seu complexo de herói – se oferecendo para ir lá salvar a pele dos ‘irmãos’ insurgentes líbios, o restante dos árabes ainda não aceitam o ocidente, ainda desconfiam dos EUA, ainda não nos toleram. Tomara que essa intolerância não seja o legado de Bin Laden. (Reparemos, só de passagem, que a ‘desconfiança com relação aos EUA’ e a ‘intolerância’ quase podem ser sinônimos, no caso. Lembrando muito o que acontecia na guerra fria em que ‘simpatizante do socialismo’ era igual a ‘inimigo da liberdade’ – vamos ver quanto tempo vai levar para serem, de fato, sinonimizados!)

O que significa dizer que isso é algo que “só nós podemos reverter”?² Várias respostas são possíveis, mas levando em conta a história recente e meu profundo pessimismo com relação ao destino da humanidade que só aumenta, só uma expressão me vem à cabeça: “Big Stick!”, isso é, a boa e velha política estadunidense de baixar o cacete impondo soluções que eles acham as melhores. Porém esse não é o ponto do texto. Um dos interesses aqui é tentar se aproveitar do momento histórico para, quem sabe, mostrar como funciona a preparação dos indivíduos para o futuro próximo.

Se lermos com olhos apaixonados o artigo do pequeno Joe veremos nele um elogio à tolerância, um dos mais nobre valores do ocidente esclarecido. E também uma condenação da prática intolerante do terrorismo e da imprudência da imprensa turca; ao mesmo tempo, um elogio a OTAN que está trabalhando para evitar um massacre cruel e sanguinário do povo líbio promovido por um ditador bobo, feio e intolerante. É interessante observar várias coisas: por exemplo, como a divisão de lados é mantida – de um lado o ocidente rico, chique e esclarecido; e do outro os Árabes, fundamentalistas, intolerantes, e atrasados. E ainda, como a idéia de tolerância é usada para massificar – ou se preferirem, representar – todo o ocidente³. Qualquer um que pense um pouco não encontra dificuldades muito sérias para chegar à conclusão “antropológica New Age” que, na verdade, o confronto existe por causa do choque de culturas: a dos teocratas, fundamentalistas, atrasados de um lado; e dos democratas, multiculturalistas, esclarecidos de outro. Seria esse choque de culturas a base do conflito. É errado pensar assim? Por um lado não; no sentido de que não há nenhuma inverdade no julgamento; por outro lado sim, porque essa não é a base real do conflito.

O problema que a história nos mostra é que o confronto cultural é só uma máscara para o confronto real – para usar um termo amaldiçoado, mas certeiro – material, político e econômico. Não faz muito tempo os EUA financiavam pelo mundo ditaduras de todo tipo; vide Brasil, Argentina, Chile, e mais uma dúzia de republiquetas da ‘América latrina’. Um dos maiores aliados dos EUA no próprio ‘Oriente mérdio’ é a Arábia Saudita, uma monarquia teocrática. Na década de 1980, do governo Regam e afins, os EUA despejaram bilhões e bilhões de dólares em espécie, mas também em treinamento e armamento, no Iraque – na ocasião da guerra contra o Irã – e no Afeganistão – para barrar a invasão soviética; investimentos que não muito tempo depois acabaram nos regimes do Taliban e de Saddam Hussein, além, é claro, do próprio Bin Laden. Enfim, a história nos mostra que democracia, tolerância, assim como liberdade e multiculturalismo é papo furado para conselho de segurança da ONU ver.

A questão é, tanto a imprensa turca quanto o “New York Times” sabem disso, conhecem a história, provavelmente melhor que todos nós, e ambos estão tratando de cuidar de seus interesses, ambos estão oferecendo a visão de mundo de seus patrocinadores, ambos estão tentando legitimar o discurso de quem assina o cheque. Mas a peleja aqui é caseira. Sendo assim, por mais que Nocera saiba que para o ocidente se trata de uma luta por poder sobre fontes de matérias-primas, mão-de-obra barata e mercados consumidores, mesmo assim, ele ritualmente encena o teatrinho da democracia tolerante multiculturalista, dos direitos humanos, etc… a fim de “capturar, orientar, determinar, interceptar, modelar, controlar e assegurar gestos, condutas, opiniões e discursos dos seres vivos”4 que leem seu jornal – o que é bastante gente. A impressão que ficamos é que a idéia de tolerância é algo absurdamente evidente e que permeia toda nossa existência enquanto ocidentais desde que nascemos; com a família, com os amigos, na escola, no trabalho, na praia, na zona, na internet, ela sempre esteve lá, ainda que manifestadamente diferente em cada parte. Enfim, a impressão é que ela é e sempre foi um valor ocidental nobre, e molda nossa consciência de maneira quase que constante. Porém, apesar de tudo, o aspecto mais interessante aqui para o texto, é caráter de dispositivo da moça. Isso é, a tolerância como ela é usada, e não como ela é: ela é acionada, se lança mão dela, sempre que se precisa conseguir um determinado efeito em regime de urgência. No caso, a união do Ocidente na manutenção do conflito com os Árabes, independentemente da morte de Bin Laden, Saddam Hussein, ou seja lá quem for, é importante manter a diferença essencial entre os lados, e, consequentemente, o conflito.

Como mostra Zizek: a política atual “concentra-se em guerras culturais e lutas por reconhecimento: seu princípio básico é a tolerância sexual, étnica e religiosa, ela prega o evangelho multicultural. (…) A intolerância sexual e cultural serve de chave para as tensões econômicas.”5 e porque não, políticas também; ao contrário do que acontecia antes da Era Americana. O que o filósofo esloveno chama de “chave para” eu chamo de “dispositivo”, no sentido que Agamben da ao termo (como citado acima). Tudo se passa como se a idéia de tolerância fosse usada para unir (entenda-se, dissolver os indivíduos) contra a cultura do Outro, e o conflito cultural como uma distorção (ideológica) que legitima o conflito real, material, político e econômico.

Não se trata aqui de rejeitar o valor belo e sublime da tolerância – por mais que ela esconda uma dimensão sombria que não vai ser tratada agora – trata-se de abrir os olhos para a história do conceito e principalmente para o uso que se faz dele, cuidando para que ele não vire justamente o seu contrário, um tipo de tolerância que conclama para a guerra.

 

 

 

1 – Ficarei devendo a fonte de maneira decente, mas o artigo foi reproduzido pela Gazeta do Povo, na época da morte do Bin Laden, se alguém estiver com paciência de procurar, eu agradeço, porque eu não tenho a menor…

2 – Não é difícil imaginar essa frase dita por alguém trajando uma capa e com a cueca por cima da calça.

3 – Somos todos tolerantes, democratas e multiculturalistas; e ponto final!

4 – Giorgio Agamben – “O Que é um Dispositivo?”

5 – Slavoj Zizek – “Um empreendimento pré-marxista”. São Paulo: Folha de São Paulo, 24 de setembro de 2000.

 

 

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16 comentários

Filed under Filosofia de Butéco (Botéco), opinião

16 responses to “A tolerância como dispositivo… Por Murilo.

  1. Tosco o comentador!!!!!!!

    muito bom!!!!!!!!! as vezes acho q as únicas pessoas sensatas na face da terra ultimamente somos eu, o Murilo e o Zizek!!!!!!!!!!!!

  2. bom, eu tenho lá minhas dúvidas com relação ao nobre Zizek, mas nós dois com toda a certeza… haushaushaushaushaushuashuhua!

  3. 😉 curti seu blog, estarei por aqui frequentimente.
    beijos

  4. Na maioria dos casos citados (especialmente no do Bin Laden), são na verdade como Frankesteins, monstros que foram criados pelos EUA na sede árdua pelo poder mundial. Mas os monstros sempre são monstros e mais cedo ou mais tarde acabam se tornando inconvenientes…

    http://estacaoprimeiradosamba.blogspot.com/

  5. Ah… Gostei! Escreve beem vc’

  6. Murilo. Tolerância como dispositivo sim. Mas na verdade uma peça dele. Eu diria que é um mecanismo (e nem lá muito elaborado) bem funcional, mas com linhas que puxam outras coisas no processo. E sim, cada parte cuidando dos seus interesses conscientes de tudo. Mas não é pra se espantar, lamentar apenas. Abs!

    • opiniaodesegunda

      Eu preferia que se espantassem; a indiferênça e ou a resignação não ajudam em nada. Os dispositivos, via de regra, sempre são redes de saber mesmo, a questão é se a idéia é parte do dispositivo material, ou se as condições materias são parte do dispositivo ideal.

  7. Gosto de textos assim, bem fundamentados, onde não se poupam palavras para transmitir um pensamento ou opinião. Concordo com a análise e com o fato de que esse excesso de tolerância pode ser muito prejudicial, desencadeando problemas dos mais diversos, talvez essa tolerância exacerbada esteja escodendo um medo em se expor, em dizer o que pensa.

    Abraço.

  8. Kramba, que texto viu.
    Maravilhoso e realista.
    é preciso ter frieza para avaliar fatos, não adiante relevar emoções, isso mancha a crítica.
    Você resumiu a situação mto bem.

    Vou nessa,
    Abraços!!!

    http://cafeeagua.blogspot.com
    http://redutonegativo.blogspot.com
    @rejane_marques

  9. interessante a postagem muito bem escrito…opinião propria…

  10. ótimo texto cara 🙂

    http://esguelando.wordpress.com/ .
    Galera o blog e mtu massa de vdd vale a pena acessar 🙂

    vale a pena !

  11. Escreve muito bem, continue assim voltarei aqui mais vezes^^

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