Porque se trata de uma obra de arte supraliminar!!! Por Murilo…

Esse é mais um texto para aquela sessão que não existe de tão especial que é: “Faz tempo que eu estou afim de escrever algo sobre isso aqui para o blog!” E ainda por cima me arrisco por mares nunca dantes navegados, pelo menos por mim, por aqui. Resolvi falar música. Historicamente esse papel tem se destinado ao Tosco dada sua reconhecida autoridade no assunto, mas ainda assim me arrisco; obviamente que sem o conhecimento técnico e o apurado faro de meu nobre comparsa para versar sobre o assunto só me resta apelar à boa e velha filosofia de boteco. É um tanto óbvio para quem me conhece que se eu vou falar de música é quase certo que eu fale de Metal, mas vamos flertar com outras vertentes antes de chegar, se chegar no tal do Metal. Mas os bangers não tem do que reclamar conosco, até porque o Metal se dá de forma privilegiada por aqui.

Independentemente das classificações existente e exigidas pela nossa mal fadada “Indústria Cultural”, a banda tema da bagaça de hoje é famosamente classificada com Nu–Metal*, seja lá o que diabos isso signifique. O interessante é que todas as bandas desse dito nu-metal se parecem entre si, e o System of a Down não se parece com nenhuma delas; com certeza vão existir aqueles que vão dizer que “é tudo metafisicamente igual”, mas recolher-me-ei à minha insignificância ôntica. Além do mais, ficarei devendo uma banda parecida para fazer uma comparação, portanto, joguemos fora o tal do rótulo.

Talvez a gente possa encaixar o SOAD naquela prateleira de “bandas/artistas de protesto”, que de tão boa que é não existe. Mas mesmo essa classificação soaria muito pobre. Mas ainda assim é inevitável pensar nas companhias de prateleira da banda; nomes gigantes como Johnny Cash, Bob Dylan, Bob Marley, The Who, The Clash, John Lennon, The Jam, U2, Rage Against the Machine, e mais um monte de gente boa, excelente, fantástica e muito foda. Na minha modesta opinião o System está no mesmo patamar desse pessoal aí. Exagero? Talvez sim. “Loucura? Isso é Esparta!” Mas vamos por os pés nos ‘is’ e os pingos no chão e pensar, se for o caso, em graus de protestabilidade na história do Rock. O primeiro grau que proponho é o subliminar: é aquela contestação que, apesar de simples e popular, é poética e sofisticada, esse nível é preocupado com a beleza e com a forma como a mensagem subversiva é passada, esse seria o caso de Johnny Cash, Bob Dylan, Bob Marley e John Lennon por exemplo. O segundo nível seria o liminar: trata-se de contestar de forma mais direta as problemáticas sociais com menos rebuscamento poético mas com linguagem mais direta e concisa, de uma forma que garanta o entendimento de qualquer um que escute; aqui se poderia ter como exemplo bandas como o The Clash, o U2, o Pearl Jam. O terceiro seria o nível supraliminar: são bandas revoltadas, revolucionárias, inconformadas, causadoras de problemas natas, que usam e abusam da forma mais pesada de rock’n roll, para gritar, cuspir, vomitar ódio; um das principais características dessas bandas é usar seus discos como verdadeiras metralhadoras de raiva contra as injustiças sistemáticas; esse seria o caso, por exemplo, do Rage Against the Machine e do próprio System, além de muita gente bacana. Isso demonstra que o SOAD anda para lá de bem acompanhado, ainda que longe do dito ‘nu-metal’.

Mas por que raios dizemos que o que esses caras fazem é arte? “Van Gogh é arte! Isso ta mais para gritaria e bateção de cabeça! Não para a arte!” Por outro lado, é um tipo de música popular – tem ritmo, melodia, letra e apelo. Mas qual o caráter artístico desse populacho barulhento? Pois bem, sem passar perto nem relando sobre as infindáveis discussões filosóficas acadêmicas sobre o que diabos é uma obra de arte, vale assumir a definição mínima de que ela é um constructo necessário, de propriedades contingentes. Explico, tento, pelo menos: Cor, via de regra, é uma característica contingente das coisas, por exemplo, se você trocar a cor da parede do seu quarto ela vai continuar a ser a parede do seu quarto; porém, para uma obra de arte essa regra não se aplica, se você troca as cores agonizantes do quadro “O Grito” de Edvard Munch por azul bebe e rosa choque ele vira “O ‘Uuuuuiiiiiiii!’”, isso é, ele simplesmente deixa de ser o quadro de Munch e vira uma bizarrice qualquer. A parede do seu quarto tem uma identidade abstrata que não depende de qualidades contingentes com a cor por exemplo, já uma obra de arte é composta por qualidades ditas contingentes em outro contexto mas que são necessárias para ela. Não seria esse o caso dos artistas citados ainda acima? Para mim, sim. Trata-se de um pessoal que faz um som com características únicas e inconfundíveis.

Uma última poeira interessante que eu gostaria de levantar aqui antes de sacudir e dar a volta por cima trata do aspecto viral desses artistas, isso é, são artistas populares, que se encaixam na forma que defende o sistema, porém usam dessa forma para lutar contra ele; obviamente que o sistema não é burro e nunca demora a se defender de maneira eficiente, mas todo ataque é sempre bem vindo, vai que um dia funciona; vale sempre lembrar daquela sentença enigmática de Adorno que dizia algo mais ou menos assim: “O antídoto para a Indústria Cultural está na própria Indústria Cultural.”¹ Quem sabe essa abertura que ela permite para verdadeiras obras de arte dentro de seu formato não seja parte de tal antídoto. Ou então, quem sabe, a dialética já era e estamos no meio do admirável mundo novo. Não sei. Mas, por enquanto, fico como o Diabo – segundo Raul Seixas – dando o toque!

*Talvez seja o tipo de heavy metal tocado pelos Cavaleiros que dizem “Nu!” Os parentes franceses dos Cavaleiros que dizem “Ni!”

¹Se não era bem assim a frase era algo parecido. Se não foi o Adorno que disse foi alguém parecido. E se não era nem um nem outro então eu preciso parar de beber!

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8 comentários

Filed under bom gosto, cultura, Filosofia de Butéco (Botéco), opinião

8 responses to “Porque se trata de uma obra de arte supraliminar!!! Por Murilo…

  1. Ravi Barros

    A arte tem sempre um poder inovador e embora o seu blog tenha outra temática, é sempre bom diversificar.
    Interessante essa forma de separação em níveis, nunca tinha pensado assim.

  2. Gostei da forma como resolveu separar e analisar.. acho que deu o crédito necessário e de forma criativa.

    Arte musical merece um maior espaço.. confesso que gosto de ouvir, vez que outra, System of a Down… principalmente pela voz do Serj.

    ;D

  3. Olá

    Eu não gosto de dizer que sou fãs de só um tipo de musica.existe musicas boas e ruins em todos os generos.pra falar a verdade,eu gosto de musicas que fazem eu lembrar de boas situações que eu vivi

    System of down ate que ttá indo na contra mão de tudo.eles são agressivos e não são underground,pelo contrario,eles fazem um certo sucesso.

  4. Gostei do texto, mas nao gostei do som. Nao sou fa de System.
    Bjs

  5. Thales

    Obra de arte eh meu time no cartola essa rodada…
    Maninho querido, gostaria de seguir-te no twiter… nas não te acho, vc fugiu de casa?
    Falowwwwwwwwww gato 1,90m tipo dinamarques!

  6. Olha aí meu Tuitche! è só clicar na foto!

  7. Não sou fã do System porque não conheço boa parte das músicas, mas as que conheço são muito boas, só pra não dizer muito fodas.

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