Os infortúnios da má fama de Sade. Por Camila Sant’Ana Vieira Ferraz…

Quando se fala em Marquês de Sade, pensamos primeiramente na apropriação da psicologia deste ícone: o sadismo, que surgiu muito após a morte do Marquês. O sujeito sádico é depravado, mortífero e sente prazer em provocar a dor. Mas esta apropriação faz com que esqueçamos que o “divino” Marquês foi sim um romancista (quiçá um filósofo), e a maior parte de sua libertinagem se encontra nos livros ao invés de em sua vida prática. É do romancista e filósofo de quem vou falar, e não do doente mental.

Longe de ser um bom moço, é claro, Sade passou cerca de metade de sua vida preso. Mesmo que ele tivesse uma grande propensão à obscuridade, havia um térreo já preparado para o que Sade colocara. Entre suas leituras estão os filósofos materialistas e sensualistas do Séc XVIII, que põe em dúvida os valores tão defendidos da virtude. Um de seus temas principais, junto com um sistema de experimentação de prazeres dos libertinos é a relação entre virtude (tradicionalmente aqui considerada) e felicidade. Andam juntas a prosperidade e a boa conduta? Nos romances de Sade, tudo indica que não.

Em “Os infortúnios da Virtude” duas irmãs são separadas quando jovens: Justine segue ao máximo o caminho da virtude, enquanto Juliette, sem receio, escolhe o caminho vicioso. Acompanhamos então a vida de Justine e todos os infortúnios que talvez a própria conduta virtuosa tenha lhe trazido. Encontrando vários libertinos em seu caminho, Justine não encontra virtude ou misericórdia seja entre famílias, comerciantes, cientistas e muito menos na igreja. A virtuosa não encontra felicidade, o que o título já denuncia. Assim, não há como o leitor não sentir-se incomodado e curioso ao mesmo tempo.

A descrição, que usa menos palavras torpes do que podemos imaginar, envolve-nos na história da protagonista, mas ela não chega a nos cativar. Mesmo que seja Justine quem conta a história, podemos perceber o próprio Marquês ao fundo apontando o dedo para a virtude.

A libertinagem regada de violência nos assusta por ser repulsiva, mas talvez abale mais por denunciar algo desconhecido por traz da cortina da moralidade.

Sade nunca se entrega por completo. Escolhe a versão do vencido da história e não a do vencedor; faz filosofia na literatura; e ainda associa o prazer sexual ao prazer da crueldade de forma indissociável!

Sade acaba com barreiras entre vícios e virtudes, prazer e crueldade, e ultrapassa a literatura e a filosofia, colocando-se em um lugar onde o raciocínio filosófico se encontra com a liberdade imaginativa do romance. Segundo Eliane Robert Moraes, isso permitirá que nosso autor construa uma “fera pensante”, que diz tudo que ninguém mais quis dizer. É essa fera pensante sem nenhum freio moral, sem vergonha e sem medo de mostrar a que veio que nos deixa abalados, mas mesmo assim intrigados /instigados a ver mais.

 

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25 comentários

Filed under bom gosto, cultura

25 responses to “Os infortúnios da má fama de Sade. Por Camila Sant’Ana Vieira Ferraz…

  1. Luna Mello

    Camila…. muito bacana seu post !!! Parabéns aê !!!

  2. Camila (a outra Camila)

    Marquês de Sade é o cara!!!!!!!

  3. A história dele me fez lembrar do filme “O Libertino”… muito bom por sinal.

  4. conheço um pouco da história dele, muito bom esse post!

  5. nossa, que legal! Adorei, mt bem escrito! Bjs

  6. A má fase seria então seu melhor lado ?

    • Camila (a mesma)

      Na verdade eu não tenho conhecimento de fases diferentes em Sade…além de antes do cárcere ou em cárcere…mas acredito que a libertinagem dos romances não foi alterada…
      EU estava falando sobre a Má fama..o preconceito que foi deixado pelo termo da psicologia.

    • opiniaodesegunda

      Viva a leitura dinâmica!! hehehe…

  7. Ví um filme sobre ele com Jeffrey Rush , mas não é muito bom ,acho que deveriam fazer um mais historicamente fiel …

    • Camila (a mesma)

      Confesso que vi o filme faz muito tempo,e não lembro com precisão… Mas realmete não é historicamente fiel…acho que é um bom filme, mas desconexo de Sade, vejo nele coisas a mais do que o filme mostra…

  8. Camila (a outra Camila)

    Apesar do filme ser “muito leve” se tratando do Marquês, e não historicamente fiel, acho ele muito bom.

    • Camila (a mesma)

      Pois é, eu não lembro bem, eu achei um filme bom por si só, se você não ver Sade como apenas o que aparece lá….mas você pode falar sobre muito melhor do que eu né mana!

  9. o filme é fantastico, mas ainda prefiro a biografia de Genevieve cantou de Sade que é espetacular !

  10. obrigado pela visita ao blog…seguindo

  11. Camila (a mesma)

    Agradeço os comentários!
    E para quem se interessa por cinema e Sade, indico um texto da Josiane Orvatich, sobre Sade e Woody Allen:

    http://www.julietterevistadecinema.com.br/Blog/Blogger/2011/08/29/51a6e7be-8098-4f87-a05e-52dab8020687.aspx

  12. ri

    Adorei o post Camila… não conhecia a história… é sempre bom poder conhecer coisas novas… blog mto bommmm!!!!

    🙂

  13. Sade foi iconoclasta numa situação histórica em que isso era uma reafirmação de liberdade de pensamento (ao menos acreditavam os viventes da época). Não podemos considerá-lo nu desse contexto quando formos lê-lo. É improvável que hoje tivéssemos outro Sade; praticamente não há (nas boas democracias) alguém aprisionando pensamentos a ponto de mover uma reação tão visceral. A brutalidade de Sade, em todos os sentidos, é um desespero de vômito, uma urgência de voz. Creio que seria anacrônico em nossos dias, ao menos em grande parte deste mundinho. Beijos!

    • Camila (a mesma)

      Concordo. Foi um iconoclasta, mas há por trás dele uma vasta bibliografia de materialistas e sensualistas que desconectam o homem de uma virtude idealizada e põe o prazer como ponto principal. Hoje uma literatura digna de Sade seria escrita de outra forma, com outros anseios, resgatando o que perdemos e escancarando o que está a um passo de nós, mas não podemos conceber.. Brutalidade e abuso sexual já estão aí nos jornais hoje em dia. Mas, sua leitura ainda é válida por ser boa literatura, e por explorar o não explorado no indivíduo. Quando vemos o tema hoje, vemos como problema social de massas. Os livros de Sade nos dão uma visão próxima dos participantes da ação, que não podemos conceber. Além disso, serve de alegoria para que repensemos vícios e virtudes. Até que ponto Justine é virtuosa ou Juliette viciosa? Nesse sentido, podemos destacá-lo momentaneamente de seu contexto.
      Adorei o comentário!Beijo!

  14. “o texto tá lindo! Eu t adoro!” AUHaUaHua.

    Era isso, né Gnoma?

    Mas falando sério, gostei de seu escrito. Não sei se te convidei, mas ficaria deveras feliz se escrevesse algo pra eu postar no Relativa Média. 😀

    Bjo

  15. opiniaodesegunda

    Que isso??? Correio elegante??? rsrs

  16. opiniaodesegunda

    Que mané autora rapaiz?!?!?!?! A autora é a Camila!!! Aqui quem fala é a entidade envolta em brumas ‘Opinião de Segunda’… Aproveitando a deixa para dizer que não serviremos mais de correio elegante pra ninguém!!!

    • Camila (a mesma)

      Pô Tato, que raio de comentário é esse?! rsrsrs
      Haha, Murilo: ele quis dizer que eu o intimidei para comentar aqui! O que é bem exagerado, eu disse pra ele comentar, SE tivesse algo sobre o escrito a dizer!!
      Agora, vamos parar com essa folia no post, tá certo?!?! hehehe

      • opiniaodesegunda

        Ahhhhhhh… Entendi!!!
        De qualquer forma, em breve, abriremos uma sessão para correios elegantes e propostas de trabalho; aguardem! hehe…

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