O Sequestro de Gaza… por Murilo.

Bandeira da Organização das Nações Unidas

Faz muito pouco tempo tive o prazer de ler um artigo do filósofo estadunidense, linguista, professor do MIT, colunista do The New York Times e intelectual Sem Terra nas horas vagas, Noam Chomsky (1928 – …) sobre o, talvez eterno, conflito entre Israelenses e Palestinos. (“Em Israel, um tsunami.” ; Chomsky, Noam – Revista Filosofia – Editora Escala – Ano V – N°61). O texto a seguir é um resumo/comentário do artigo.

O artigo começa com a declaração de um magnata israelense temeroso que se o Estado Palestino for reconhecido pela ONU, Israel possa sofrer uma “Sul-Africanização”, fazendo menção à época do aparteid e as sanções sofridas pela Africa do Sul por conta da segregação e desumanidade de sua política. No começo deste ano, o Ministro da Defesa de Israel, Ehud Barak, declarou que o efeito de um possível reconhecimento aos palestinos pela ONU seria o mesmo de um ‘Tsunami’, o que justifica o título do artigo. O temor é de que o mundo condene Israel por violações à Leis Internacionais, e por crimes cometidos por um Estado reconhecido pela ONU, o que torna a coisa muito mais grave.

Alguns pontos são interessantes serem ressaltados: primeiro, mais de cem países já reconheceram a Palestina e muitos dos que não reconheceram formalmente, como França e Reino Unido por exemplo, destinam uma série de papéis diplomáticos a delegações palestinas que só são dados a Estados reconhecidos. Segundo, o maior aliado israelense na luta contra o reconhecimento são os EUA, que chegam às reuniões de setembro agora na ONU com uma séria crise econômica e política, o que o pode levar a perder força nas negociações com países que são a favor da criação do Estado Palestino. Outro ponto interessante é o modo como Ehud Barak e o magnata do parágrafo anterior tratam a questão: como se a culpa pelo desastre que aconteceria a Israel, se o Estado Palestino fosse reconhecido, fosse da ONU e não da política desumana desenvolvida pelo país.

O temor israelense de sofrer sanções se justifica porque “Em fevereiro de 2006, os EUA e Israel impuseram um cerco a Gaza depois que o “lado errado” – Hamas – venceu as eleições na Palestina, reconhecidas internacionalmente como livres e justas” Chomsky. Em 2007, os EUA apoiaram uma tentativa de golpe militar na Palestina, que fracassou, e a partir de então o cerco a Gaza endureceu. Nem mesmo ajuda humanitária pode entrar em Gaza, o que levou diversos organismos de ajuda internacional, como por exemplo a cruz vermelha, a condenar formalmente Israel e Estados Unidos. “O cerco criminoso é uma extensão da politica dos EUA e de Israel, imposta desde 1991, para separar Gaza da Cisjordânia, garantindo que o estado palestino fosse, de fato, cercado por potências hostis – a ditadura de Israel e Jordânia.” Chomsky. Cercada e isolada do resto do mundo, Gaza encontra-se sequestrada, o que nos leva a perguntar se não se trata de uma ação terrorista do Estado de Israel, assim como os sequestros de jornalistas e diplomatas feitos por grupos terroristas árabes.

Em 2010, uma “Flotilha da Liberdade”, organizada por ongs Free Gaza, tentou furar o bloqueio e levar ajuda humanitária, mas foi atacada por comandos israelenses ainda em águas internacionais e nove de seus tripulantes foram assassinados; um ato criminoso, severamente condenado pela maioria dos países do mundo, à exceção, é claro, de EUA e Israel: “Em Israel, a maioria das pessoas está convencida de que os comandos foram vítimas inocentes, atacadas pelos passageiros, que é outro sinal da autodestrutiva irracionalidade que permeia a sociedade israelense.” Conta Chomsky. Nos EUA, a Secretária de Estado – e corna mansa nas horas vagas – Hillary Clinton, disse achar legítimo que israelenses se defendam contra quem provoca ações em suas águas, por mais que se trate de águas internacionais e/ou de Gaza, como se Gaza pertencesse a Israel, e como se oferecer ajuda humanitária fosse uma ação como é uma ‘ação terrorista’.

Para terminar, gostaria de apresentar alguns números divulgados pela Agência da ONU para Assistência aos Refugiados da Palestina no Oriente Próximo: 95% da água de Gaza é imprópria para consumo; 40% das doenças em Gaza são transmitidas pela Água; 45% da força de trabalho em Gaza está desempregada; 80% das pessoas dependem de auxílio humanitário. Auxílio esse que não chega – a cerca de 1,5 milhões de pessoas – por conta do bloqueio imposto por EUA e Israel a uma democracia que eles não aceitam – a vontade do povo só deve ser respeitada se for a mesma vontade de quem tem o porrete na mão, ou, como diz Chomsky: “Iniciativas diplomáticas como a estratégia de Estado Palestino, e ações não violentas (como as “Flotilhas”) ameaçam aqueles que tem o monopólio virtual da violência.” Não parece uma estranha, cruel e sanguinária ironia do destino que justamente Israel, o Estado Judeu, esteja promovendo um holocausto humanitário, e esteja negando o direito de um povo de ser reconhecido como tal? O pessoal pró-Palestina esta empolgado na reunião da ONU, resta saber se, caso reconhecido o Estado Palestino, a Organização das Nações Unidas vai realmente fazer o que se espera dela ou vai ser conivente com mais um atropelamento seu, como foi no caso das armas de destruição em massa da guerra do Iraque e no caso Bin Laden.

Bandeira da Organização das Nações Desunidas

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8 comentários

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8 responses to “O Sequestro de Gaza… por Murilo.

  1. É muito curioso, pois o próprio EUA obrigava aos países da europa não democráticos, instituirem a democracia. Coisa mais bizarra não há, obrigar a democracia. Porém, como demonstra a situação da Palestina, sabe-se que tais atos não eram em nome de uma suposta situação perfeita da sociedade (a democracia parlamentar e etc), mas só por interesses políticos e econômicos.

    Me adimira Israel esquecer o passado histórico Judeu, em sua tentativa de afirmação de povo, de identidade, e reprimir a mesma tentativa palestina.

  2. Caramba, encontrei alguem que escreve tanto quanto eu sobre política, talvez mais… esse assunto é muito discutível e pode render horas… a pior coisa daquela região é que nenhum dos lados quer ceder, daí fica difícil neh… =/

    • A atitude Palestina de recorrer a ONU me parece relativamente pacifica, Israel, em combate ao terrorismo, deveria incentivar esse tipo de ação, e não reprimir. Bem como os EUA.
      Mas quem falou que eles querem acabar com o terrorismo e com a intolerância. No fundo os palestinos sabem disso, e esse recorrer a ONU me parece muito uma manobra política para por às claras a falsidade ideológica de Israel e EUA. O que seria ótimo se houvesse uma postura questionante que colocasse o discursso ideológico à prova; o que raramente acontece.

  3. É um absurdo essa guerra entre Isral e Palestina e o que fazem com os menos favorecidos no caso palestinos é pior ainda como vc relatou são várias doenças que eles pegam por contaminação de água e outros inumeros problemas.Tudo isso pq? isso que eu me pergunto
    O que eles queriam era apensar respeito ou seja o minimo.

  4. Adoreei o Blog *-* Beeim informativo!!!

    Blog Atualizadoo!!! Dá uma passadinha lá, vs vai adoraar!!!
    http://echidellanima.blogspot.com/

  5. Está muito bem explicado, Murilo. Eu verdadeiramente não sabia detalhes sobre a situação de Gaza, como o fato de nem ajuda humanitária conseguir entrar. Fico mortalmente triste com os noticiários dessa briga eterna. Os pós e contras de ambos os lados nos enlouquecem. É uma decisão salomônica. Beijos e sucesso ao excelente blog!

  6. Não me lembro quem, como nem onde eu ouvi isso, mas essa frase expressa bem a ideia:
    “Não existe nada mais Nazista do que o Estado de Israel.”

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