Rousseau, D’Holbach, e a corte “Caindo no Ridículo”… por Camila Sant’Ana.

Olá pessoas, eu sou a Camila, a mesma que escreveu aquele texto sobre Sade há pouco tempo atrás, e hoje eu venho aqui no blog para falar de um filme que retrata bem os séculos XVII e XVIII em um aspecto específico, mas essencial: a sociedade de corte, e como a política era influenciada pelas relações pessoais e pelos costumes da época. “Ridicule”, ou “Caindo no Ridículo”, é de 1996 do diretor francês Patrice Leconte.

Com inspiração em uma máxima do Duque de Guines, presente nas memórias da Condessa de Boigne,, o filme expõe com diversidade e clareza seu sentido: “Os vícios não são preocupantes, mas o ridículo, pode matar.” A frase que se refere ao modelo de costumes exigido na corte francesa dos séculos XVII e XVIII não é, como aparenta, exagerada. Nesse ambiente, costumes não são apenas questão de etiqueta. A maneira de agir de um cortesão pode levá-lo até o contato próximo ao rei se bem manejados, ou à maior das desgraças.

Então, acompanhamos um engenheiro hidrográfico Grégoire Ponceludon de Malavoy preocupado com a saúde de seus camponeses chegando à corte, com a esperança de ter seu projeto aprovado pelo Rei Luis XVI. Mas, pouco importa a qualidade ou precisão do projeto, o que importa é que a conduta de nosso protagonista se sobressaia a dos demais.

Já que os vícios não têm relevância, e ser ridicularizado é o grande mal a ser evitado, e se é necessário subjugar o próximo para se sobressair, qual é o espaço para a virtude nesse cenário? Como o homem pode deixar transparecer seus sentimentos se sua forma de agir a todo o momento é medida e pesada, e caso fuja dos padrões, é descartada? Se suas conquistas em áreas profissionais dependem de sua conduta pessoal, qual é o espaço para a individualidade do sujeito?

Estas perguntas foram temas valorizados por vários autores e não se fixam apenas ao ambiente da corte. Autores da época tratam desta temática. D’Holbach, em sua obra satírica “Essai sur l’arte de ramper” (Ensaio sobre a arte de rastejar) refere-se ao cortesão como “um animal anfíbio no qual todos os contrastes se encontram comumente reunidos”. A difícil arte de rastejar seria desenvolvida pelo cortesão ao longo da vida, e consiste em saber dobrar-se às vontades de seu mentor, a ponto de anular as vontades naturais do homem, seu orgulho e amor próprio. O bom cortesão, perde seu orgulho em preferência a seus interesses, e mascara tal fato a ponto de poder fingir qualquer sentimento verdadeiro. O monarca seria então manipulado por estes cortesãos, a ponto de , em troca de falsos sorrisos e companhias, aumentar os impostos e financiar o luxo dos cortesãos.

Em Ridicule, o Abade de Vilecourt é um bom retrato do que descreve D’ Holbach. “É uma cobra, diz Bellegarde. Quando se cala, hipnotiza. Quando fala, já é tarde demais.” Forjando inclusive suas crenças, coloca a vontade do Rei acima de tudo, ao mesmo tempo em que recebe regalias por este “serviço” prestado ao monarca. Até que passa dos limites, deixando cair a máscara de sentimentos verdadeiros, e por isso é rechaçado.

Parece não haver espaço na corte nem para a espontaneidade e muito menos para a virtude.

Não importam as boas intenções de Ponceludon, nosso protagonista, o que importa é seu porte. Caso ele passe por cima dos desejos de alguém superior a ele na corte, ele sofrerá as consequências. É o caso da Condessa de Blayac, que ao ver que perdeu seu amante, não pode deixá-lo sair ileso, e vinga-se dele com a arma mortal que é o ridículo. Vemos também, que o sentimento verdadeiro não sobrevive por muito tempo nos cortesãos. A Condessa, que parece amar verdadeiramente Ponceludon não conhece outra linguagem além da cortesania para expressar seus sentimentos, ou seja, o jogo, o ridicularizar, o não se expor. O pretenso amor passa então ao interesse, que quando frustrado, precisa vingar-se.

Com isso, vemos a aproximação do enredo do filme ao que Rousseau coloca em seu primeiro discurso: Os bons modos quase sempre sempre coincidem com os viciosos. Estas “boas maneiras” encobrem as verdade nos corações dos homens. Parece então, que o aumento do polimento dos costumes é proporcional à distância que os homens tomam de si próprios.

O afeminamento dos homens põe todos numa mesma chapa, moldando-os, e destruindo a individualidade. Tornam-se então escravos dos costumes e se afastam da verdade.

“De modo algum se ultrajará grosseiramente o inimigo, mas jeitosamente o caluniaremos.” O que é retratado no filme, na forma como se faz o outro cair no ridículo.

Para Rousseau, em meio aos jogos da corte não há espaço também para a virtude. O próprio Ponceludon se corrompe ao tentar progredir, e sua amada Mathilde de Bellegarde, longe se ser viciosa ou corrupta, iria se casar com um velho rico detestável só para que ele financiasse suas pesquisas científicas.

Além disso, a promessa mortífera que o ridículo pode trazer se mostra literalmente com Baron de Guéret, e Le Chevalier de Milletail , que perdem suas vidas pela vergonha de serem ridicularizados. Ao se depararem com a morte, retomariam o orgulho perdido pelo ridículo. Mas, como D’ Holbach poderia dizer, o orgulho já havia sido subjugado apenas por participarem deste tipo de relação cortesã. A vida teria menos valor que este falso orgulho, o homem se entrega por completo a esse sistema, e a morte não retomará nem a individualidade, tampouco a virtude.

Assim, o pó de arroz não disfarça apenas as irregularidades da pele. Disfarça ainda mais as intenções dos homens, trazendo desconfiança e competição, o que pode realmente, até matar.

Watteau; "Les Plaisirs du Bal"

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