Category Archives: bom gosto

Será mesmo o fim do amor Xico Sá?… Por Camila Sant’Ana

O que me impulsionou a escrever esse texto foi uma crônica de Xico Sá: “Como se escreve o fim do amor?”
Nela, Xico Sá coloca como só a mulher é capaz de colocar um “ponto final” no amor. O homem, por sua vez, adia, disfarça,vai comprar cigarro na esquina e deixa lá reticências no fim do amor. Além disso, não é assim que o amor deve terminar. A mulher, que põe exclamações no fim do amor, está coberta de razão. “O amor, se é amor, não se acaba de forma civilizada”. Segundo ele, o amor deve acabar com um bom barraco, com ofensas de ambos os lados e muito sofrimento depois. Sofrimento que exige um período de luto, em que a pessoa não consegue se entregar a nenhuma outra. É assim que o amor deve acabar, abruptamente, e com um rastro de dor. Se o amor acaba civilizadamente, com um comprimento calmo e tranqüilo, ele não estava mais lá, se foi na verdade algum tempo, ou muito tempo antes disso.
Deixarei de lado a questão de “quem” põe ponto final no amor, pois isso me pareceu um tanto arbitrário e pouco demonstrável; no texto, Xico delega à mulher tal função. Já sobre o “como” deve acabar o amor, o que me intrigou na crônica, é o certo desmerecimento dos relacionamentos que “acabam bem”, já que ali não tem amor, enquanto o outro relacionamento, que acaba em barraco, esse sim é prova de amor. Não discordo em nada no ponto em que quando o relacionamento acaba bem, o amor não estava mais lá. Ele pode ter acabado de pouco em pouco dia-a-dia, e o relacionamento ficou… por comodismo, ou respeito, etc. Nesse ponto sim, um fim de relacionamento civilizado, já não tem amor.
Mas e quando o relacionamento termina em briga, prato quebrado, arranhão e todas essas delicadezas, o ponto final foi no amor? A raiva que é manifestada na briga só pode ser símbolo de consideração, de amor! O sofrimento, o choro, a resignação que vem depois disso, no que Sá chamou de “período de luto”, também é sinal de que ainda tem algum amor ali.
O meu ponto é: o barraco não caracteriza o fim do amor, mas da possibilidade de convivência, devido à raiva, e ao sofrimento que o ser amado agora causa. O luto então, se refere ao relacionamento, ao contato, mas não ao amor. O amor, por mais que se negue, voltou junto na bagagem, com os livros e os discos, e ficou ali, quieto às vezes, e às vezes nem tanto assim. Talvez ele vá acabando de pouco em pouco, dia-a-dia da mesma forma como aconteceu no relacionamento que acabou bem. E o período de luto do relacionamento vai acabar quando, aí sim, o amor acabar completamente, e a possibilidade de civilidade – que seria o não precisar de enfrentamento, rancor ou sofrimento entre os envolvidos – for restaurada.
A trajetória de um casal que terminou em barraco, comparada a de um que terminou em calmaria, não teve mais amor, ou intensidade. O que acontece, é que em ambos os casos, o fim do amor não acontece ao mesmo tempo em que o fim da relação.
O amor mesmo, aquilo que a gente sente pelo outro estando perto ou longe, se alegrando ou sofrendo, não pode acabar assim, com um tapa na cara. Ele se espanta; se ressente; e se recolhe, até diminuir de mansinho, de maneira que, acredito eu, seja até mais civilizada da parte dele, do que nos deixar como quem saiu correndo, com um vazio ferrenho e sem a possibilidade de lembrar do ser amado com algum respeito.  Até por que, amor, se é amor, deixa alguma marca boa na gente.

A crônica pode ser lida aqui:  Folha , no post: “Educação sentimental: como o amor acaba(I)”

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A Mensagem básica… Por Murilo!

É só não ligar a tv

 

A Rede Globo de Comunicações nunca foi uma entidade a ser respeitada por qualquer pessoa com o mínimo de senso crítico saudável, porém, ultimamente tem se esforçado muito em baixar o seu próprio nível; o que pensávamos ser impossível. Desde a cobertura esportiva e jornalística que nos brinda todos os dias com o mais clássico dos paradoxos da ideologia: o ser claro e indireto – as tendencias políticas e regionais estão lá para todo mundo ver¹, mas que são negadas em um discurso direto – até a produção de peças de “entretenimento”, que conseguiram até ter alguma qualidade a ser reconhecida em minisséries do passado; tudo tem se tornado, ou pelo menos se revelado, o mais alto dos desserviços à cultura nacional.
Dadas as exigências do formato de um blog, vou me concentrar somente em algumas das mensagens básicas das últimas produções globais. Primeiro, o caso do pseudo-estupro do BBB (Big Bosta do Bial). Primeiro se anunciou que um dos participantes infringiu uma regra do programa, a regra era “Não farás sexo!”, como se expulsou só um participante, subentende-se que a outra envolvida na história não consentiu, e portanto, foi estuprada; o que foi desmentido pela participante em depoimento; tudo muito estranho, e várias questões surgem: “Foi um golpe de marketing do Bial?”, “um golpe estratégico do moçoila para expulsar o concorrente?”, “uma tentativa de conseguir um patrocínio da Jontex?”, “Por que a moça, que assumiu o consentimento da gratinada, não foi expulsa também?” Mas minha questão aqui é a seguinte: confina-se uma série de casais, todas pessoas atraentes, faz-se uma série de festas na casa regadas à champanhe, lap dance e pouca roupa, e ainda, colocam entre os participantes uma produtora de filmes eróticos e um homossexual, que por seu trato com a sexualidade são reprimidos pela sociedade, e que por conta desse caráter polêmico, geram assunto; há toda uma insinuação e um incentivo ao sexo, e um esforço por trazer à tona tensões sexuais, porém, não se pode fazer sexo, isso é, vende-se o espetáculo da intimidade alheia mas veda-se o verdadeiramente íntimo; a mensagem básica aqui é mais um verso do mantra pós-moderno da coisa sem a coisa: é a realidade editada, a intimidade não íntima, a cerveja sem álcool, o sorvete sem gordura, o café descafeinado, o protesto sem violência, a revolução sem terror, enfim, a substância dessubstanciada que permite a tudo que é sólido se desmanchar no ar, como alguém já disse…
Outro caso claro de manipulação ideológica sem vergonha é a série “Dercy de Verdade”; o título já entrega o jogo. “Esqueça tudo que você ouviu falar sobre Dercy Gonçalves. Todos conheceram a “obra” de Dercy, mas nós da Globo à conhecemos além disso e vamos mostrar agora, ela mesma, de verdade!” Qualquer brasileiro com mais de 20 anos de idade sabe algo sobre Dercy Gonçalves, nem que seja só que ela era “A veia louca que falava palavrão no Faustão”; mas ela foi sim uma das mais “punks” e “porra-louca” atrizes desse país. Falava o que queria, quando queria, cagava para uma série de convenções sociais e, claro, soube usar isso em favor de seu bolso, o que se não é nobre, pelo menos lhe garante algum espaço para trabalho e alcance da sua mensagem, e além do mais, essa “falta de nobreza” revela mais sobre nossa sociedade do que sobre o caráter dela.  Porém, a imagem deixada por ela – “imagem” talvez seja o que de melhor um ator pode deixar à posteridade – era de uma mulher subversiva e autêntica, aliás, foi o que fez a Globo contratá-la e deixá-la na “geladeira” por quase toda sua vida. E a imagem era tão perturbadora que só o congelamento da véia e sua morte não foi suficiente para amaciar o travesseiro dos defensores da moral e dos bons costumes; era preciso dessubstanciar a imagem mesma! A mensagem básica aqui é: ela passou a vida inteira construindo e se apoiando numa imagem de porra louca subversiva, mas no fundo (isso é, na nova imagem que a globo montou), ela era uma mulher batalhadora apegada, ainda que a seu modo, aos valores da família e era um belo ser humano, eis a verdade sobre Dercy Gonçalves. Portanto, esqueçam sua velha imagem, e acomodem-se de volta em sua vidinha normal e “verdadeira”. Ou ainda, de forma mais atômica: “Esqueçam essa de subversão e voltem a pastar!”
Já no caso de “O Brado Retumbante” e da novela das nove a coisa é um pouquinho diferente. Trata-se do elemento sorte. A situação econômica do pobre só melhora por sorte e a situação política do país só pode melhorar na cagada.² Novelas nunca foram boas, mas sem dúvida “Fina Escrota” é a pior das que minha sogra, veladamente, me obrigava a ver. Ela toda é um pavor estético feito da colagem de esteriótipos patéticos. A mensagem básica é: melhorar de vida é ganhar dinheiro. Griselda já era moralmente bem formada, mas só se torna feliz quando ganha na loteria e foge da comunidade pobre para o condomínio de luxo. A novela é feita claramente para atingir a classe C emergente no país, e tudo se passa como se esta fosse composta desses esteriótipos ridículos e como se ela fosse emergente por pura sorte, e não por conta de seu trabalho e outras situações políticas e sociais que a Globo tenta a todo custo fingir que não existe.
O Brado Retumbante vai mais ou menos na mesma linha. O personagem central – uma mistura raríssima da ingenuidade da esquerda universitária, com a manipulabilidade de um Severino Cavalcanti, o discreto charme direitista ligth de um Aécio Neves e a pseudo-malandragem de um populista – vira presidente da república por sorte. Pode-se usar como desculpa para a caracterização bizarra do personagem uma possível imparcialidade mas a história revela o contrário. A mensagem básica aqui pode ser bastante variada: desde um lamento carpideiro do tipo “Ah se fosse um Aécio no lugar do Severino, a gente tinha dado um jeito no Lula.”, ou então uma dica “Ponham um Aécio lá que a gente da um jeito de acidentar a  Dilma e o Temer .” Minha mensagem eleita para o texto é a seguinte: o país pode melhorar (para Globo, é claro) mas não com o executivo que está aí! Aliás, como o nobre Zizek assombra todo esse texto, vale a pena citá-lo: “Na Fenomenologia do Espírito, Hegel menciona a “silente tecedura do espírito”: o trabalho secreto de mudança das coordenadas ideológicas, predominantemente invisíveis aos olhos do povo, que de repente explodem e pegam todos de surpresa.” E engordando essa  “silente tecedura do espírito” temos ainda a famigerada foto, que foi sucesso absoluto entre os conservadores e os mais babacas dos leitores do Estadão, da presidente Dilma sendo “atravessada” por uma espada militar em frente ao Palácio do Planalto; foto que revela o desejo oculto e o crescente ódio à democracia nos quadros conservadores do país, “não basta só derrubar o eleito, temos de matá-lo” pensa a elite. Mudança das coordenadas ideológicas ou mera coincidência? Bom, eu já passei da fase de acreditar em coincidências nesse nível…
Dia 25 de Janeiro foi eleito nas redes sociais como o dia sem Globo, pois bem, o que proponho é simples e direto, que todo dia seja um dia sem Globo, ou então, o que também é direto mas nada simples, que façamos o mínimo de esforço interpretativo e crítico daquilo que vemos, e paremos de nos comportar como vegetais perante a TV. Porém, mais que propor um movimento qualquer, a mensagem básica do texto é: preste a atenção às mensagens básicas e deixe de ser ingênuo, o que realmente importa para a vida não vai passar na TV.

1 – Ou não ver, como no caso “Privataria Tucana”. Se bem que nesse caso, o tiro acaba por sair pela culatra, pois o silêncio da grande mídia fala mais que qualquer discurso sobre ela.
2 – Para usar a gíria da malandragem dos anos 90.

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Rousseau, D’Holbach, e a corte “Caindo no Ridículo”… por Camila Sant’Ana.

Olá pessoas, eu sou a Camila, a mesma que escreveu aquele texto sobre Sade há pouco tempo atrás, e hoje eu venho aqui no blog para falar de um filme que retrata bem os séculos XVII e XVIII em um aspecto específico, mas essencial: a sociedade de corte, e como a política era influenciada pelas relações pessoais e pelos costumes da época. “Ridicule”, ou “Caindo no Ridículo”, é de 1996 do diretor francês Patrice Leconte.

Com inspiração em uma máxima do Duque de Guines, presente nas memórias da Condessa de Boigne,, o filme expõe com diversidade e clareza seu sentido: “Os vícios não são preocupantes, mas o ridículo, pode matar.” A frase que se refere ao modelo de costumes exigido na corte francesa dos séculos XVII e XVIII não é, como aparenta, exagerada. Nesse ambiente, costumes não são apenas questão de etiqueta. A maneira de agir de um cortesão pode levá-lo até o contato próximo ao rei se bem manejados, ou à maior das desgraças.

Então, acompanhamos um engenheiro hidrográfico Grégoire Ponceludon de Malavoy preocupado com a saúde de seus camponeses chegando à corte, com a esperança de ter seu projeto aprovado pelo Rei Luis XVI. Mas, pouco importa a qualidade ou precisão do projeto, o que importa é que a conduta de nosso protagonista se sobressaia a dos demais.

Já que os vícios não têm relevância, e ser ridicularizado é o grande mal a ser evitado, e se é necessário subjugar o próximo para se sobressair, qual é o espaço para a virtude nesse cenário? Como o homem pode deixar transparecer seus sentimentos se sua forma de agir a todo o momento é medida e pesada, e caso fuja dos padrões, é descartada? Se suas conquistas em áreas profissionais dependem de sua conduta pessoal, qual é o espaço para a individualidade do sujeito?

Estas perguntas foram temas valorizados por vários autores e não se fixam apenas ao ambiente da corte. Autores da época tratam desta temática. D’Holbach, em sua obra satírica “Essai sur l’arte de ramper” (Ensaio sobre a arte de rastejar) refere-se ao cortesão como “um animal anfíbio no qual todos os contrastes se encontram comumente reunidos”. A difícil arte de rastejar seria desenvolvida pelo cortesão ao longo da vida, e consiste em saber dobrar-se às vontades de seu mentor, a ponto de anular as vontades naturais do homem, seu orgulho e amor próprio. O bom cortesão, perde seu orgulho em preferência a seus interesses, e mascara tal fato a ponto de poder fingir qualquer sentimento verdadeiro. O monarca seria então manipulado por estes cortesãos, a ponto de , em troca de falsos sorrisos e companhias, aumentar os impostos e financiar o luxo dos cortesãos.

Em Ridicule, o Abade de Vilecourt é um bom retrato do que descreve D’ Holbach. “É uma cobra, diz Bellegarde. Quando se cala, hipnotiza. Quando fala, já é tarde demais.” Forjando inclusive suas crenças, coloca a vontade do Rei acima de tudo, ao mesmo tempo em que recebe regalias por este “serviço” prestado ao monarca. Até que passa dos limites, deixando cair a máscara de sentimentos verdadeiros, e por isso é rechaçado.

Parece não haver espaço na corte nem para a espontaneidade e muito menos para a virtude.

Não importam as boas intenções de Ponceludon, nosso protagonista, o que importa é seu porte. Caso ele passe por cima dos desejos de alguém superior a ele na corte, ele sofrerá as consequências. É o caso da Condessa de Blayac, que ao ver que perdeu seu amante, não pode deixá-lo sair ileso, e vinga-se dele com a arma mortal que é o ridículo. Vemos também, que o sentimento verdadeiro não sobrevive por muito tempo nos cortesãos. A Condessa, que parece amar verdadeiramente Ponceludon não conhece outra linguagem além da cortesania para expressar seus sentimentos, ou seja, o jogo, o ridicularizar, o não se expor. O pretenso amor passa então ao interesse, que quando frustrado, precisa vingar-se.

Com isso, vemos a aproximação do enredo do filme ao que Rousseau coloca em seu primeiro discurso: Os bons modos quase sempre sempre coincidem com os viciosos. Estas “boas maneiras” encobrem as verdade nos corações dos homens. Parece então, que o aumento do polimento dos costumes é proporcional à distância que os homens tomam de si próprios.

O afeminamento dos homens põe todos numa mesma chapa, moldando-os, e destruindo a individualidade. Tornam-se então escravos dos costumes e se afastam da verdade.

“De modo algum se ultrajará grosseiramente o inimigo, mas jeitosamente o caluniaremos.” O que é retratado no filme, na forma como se faz o outro cair no ridículo.

Para Rousseau, em meio aos jogos da corte não há espaço também para a virtude. O próprio Ponceludon se corrompe ao tentar progredir, e sua amada Mathilde de Bellegarde, longe se ser viciosa ou corrupta, iria se casar com um velho rico detestável só para que ele financiasse suas pesquisas científicas.

Além disso, a promessa mortífera que o ridículo pode trazer se mostra literalmente com Baron de Guéret, e Le Chevalier de Milletail , que perdem suas vidas pela vergonha de serem ridicularizados. Ao se depararem com a morte, retomariam o orgulho perdido pelo ridículo. Mas, como D’ Holbach poderia dizer, o orgulho já havia sido subjugado apenas por participarem deste tipo de relação cortesã. A vida teria menos valor que este falso orgulho, o homem se entrega por completo a esse sistema, e a morte não retomará nem a individualidade, tampouco a virtude.

Assim, o pó de arroz não disfarça apenas as irregularidades da pele. Disfarça ainda mais as intenções dos homens, trazendo desconfiança e competição, o que pode realmente, até matar.

Watteau; "Les Plaisirs du Bal"

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Quase que magicamente… Por Murilo.

“Alô criançada o Opinião chegou!” Trocadilhos bestas à parte, o texto de hoje será exatamente sobre as crianças desse mundão; esses serzinhos infantes, pueris, ingênuos e inofensivos. Será?

Recentemente tive um rápido contato com um texto interessante de um pensador chamado Neil Postman, “O Desaparecimento da Infância.” Postman foi um crítico ferrenho da submissão da cultura à tecnica, e também grande estudioso das relações entre mídia e educação. Segundo ele, a infância é uma criação moderna, que surge junto com o aparecimento da imprensa e com a universalização da educação. Antes desses eventos as crianças eram vistas como “mini-adultos”, assim que tinham condições físicas suficientes já acompanhavam os adultos em seus trabalhos, já tinham contato com conversas adultas, já presenciavam, sem maiores restrições, cenas de violência e de sexo. E agora, na nossa pós-modernidade¹, vencida a era mecânica das telecomunicações e da educação, quando da explosão da era digital e do advento da internet, momento em que tempo e espaço se tornam meros detalhes no acesso à informação, enfim, época em que a ciência e a tecnologia se arrogam a ponta da evolução do entendimento humano; vemos as crianças de novo, como na época pré-moderna, com livre acesso a todo tipo de conteúdo adulto, terror, horror, brutalidade, violência, sexo, enfim, a curiosidade é morta com um clic. Fato que joga muita água no moinho de Postman; um exemplo forte de como a técnica ajuda a universalizar a barbárie.
A coisa fica ainda mais séria quando a gente vê pessoas cheias de boa intenção aumentando o problema com ações “pouco pensadas”, para ser educado. É o caso do movimento – que conta com um título ótimo, diga-se de passagem – “Faça amor, não faça pornô.” Trata-se de um movimento criado por uma mulher que começou a sentir os efeitos dessa universalização da ignorância. Ela constatou, de maneira radicalmente empírica, que seus parceiros sexuais mais jovens obedeciam um padrão de péssimo gosto na hora da transa – truculência, falta de romantismo, de compreensão, etc. A conclusão retirada de sua pesquisa de campo é a de que os homens agem assim porque estão se educando sexualmente do modo mais errado possível, e cada vez mais cedo: por meio da indústria do cinema pornô, aonde, sabidamente, a mulher é reduzida a uma coisa com a qual o homem se masturba – uma boneca inflável de carne e osso – e que com a internet, se tornou cada vez mais acessível. Eis o texo na íntegra – http://revistatpm.uol.com.br/revista/112/reportagens/faca-amor-nao-faca-porno.html – Gostaria de chamar a atenção para um dado interessante do texto: Um terço dos garotos ingleses com 10 anos de idade já tiveram acesso à conteúdo pornográfico. Muitas vezes antes mesmo do primeiro beijo eles já viram uma dupla penetração, e pior, com uma atriz pornô que fingia um prazer absurdo, mesmo com – ou por causa da, muitas vezes – dor. Isso tudo torna, de fato, o movimento muito legítimo, isso é: Jovem², o que você assiste em “Brasileirinhas” não é a realidade, se animal!
Muitas perguntas poderiam ser feitas a partir daqui, desde por que as atrizes pornôs se sujeitam a esse tipo de tratamento e a passar essa imagem, até por que diabos essa tiazona da entrevista insiste em sair com esses moleques imbecis. Mas o problema nessa história toda, e que eu gostaria de chamar a atenção, é a solução apresentada pela publicitária: criar um cinema pornô “mais realista” e que inclua a visão “feminina e feminista”. Quer dizer, se o problema é o aceso à pornografia por crianças cada vez mais novas e a influência que isso acarreta na formação delas, aumentar a quantidade de filmes pornográficos e criar um novo sub-gênero de filmes não vai ajudar a reduzir o problema. Por mais que se trate de um gênero “mais justo” de sacanagem, a boa e velha sacanagem clássica não vai acabar. E vale lembrar que a maioria dos homens procuram filmes pornôs para se masturbar e não para ter aulas sobre romantismo, e assim eles vão continuar a produzir e assistir os filmes clássicos. O máximo que esse novo gênero vai conseguir é aumentar a atração de mulheres por pornografia. Mas o problema persistirá. Mais uma vez vale lembrar aquela velha máxima de Gahndi sobre a violência: “Não dá para combater a escuridão fazendo mais escuridão.”³

Quando é que as pessoas vão entender que a internet é um espaço público, assim como uma praça pública? Quer dizer, se você não permite, racionalmente, que seu filho fique fazendo o que quer, na hora que quer, livremente, sem supervisão, em uma praça pública, por que raios permite então que ele faça o que quer na internet? Um criança não precisa de um computador pessoal de uso exclusivo em seu quarto, não precisa de um laptop, não precisa de um celular com acesso à internet, nada disso, em caráter privado, contribui para a formação dela; e é bobagem pensar que aqueles programas de “controle de conteúdo” podem substituir a supervisão paterna, pois se até um macaco treinado consegue desbloquear aquilo imagine uma criança de 11 anos que vive nessa “era digital” há… 11 anos! E, pior, se o macaco e a criança que, via de regra, não são mal-intencionados e sim curiosos, conseguem desbloquear, imagine um pedófilo, que além de tudo é mal-intencionado. Portanto, acredito que a verdadeira campanha, que além de legítima seria eficiente, é: “Não de a uma criança algo de que ela não precisa e que pode eventualmente lhe prejudicar!”4 Confesso que não acredito no sucesso de uma tal campanha por dois motivos: primeiro pelo título horrível, que traça o exato corte entre eu e a tiazona lá, ela é publicitária e eu pretenso filósofo. E segundo, e mais importante,a campanha prega a restrição ao consumo, e nossa sociedade se mata mas não para de comprar.

Para finalizar gostaria de colocar uma pergunta: de onde é que vem o impulso “anti-edipiano” pós-moderno de acreditar que as crianças estão por aí sem pai nem mãe? E mais, será que além de regredirmos moralmente, transformando as crianças de novo em “mini-adultos” pré-modernos, regrediremos cientificamente a ponto de acreditarmos de novo na geração espontânea? Na idade média existia uma famosa receita para se produzir ratos, era só misturar num lugar pouco movimentado e escuro, panos velhos e restos de comida, que os ratos brotavam desses materiais – acreditava-se que a vida pudesse vir do não-vivo. Qual seria a receita atual para a formação de um a pessoa? Dois seres humanos se unem, transam, e de repente, não mais que de repente, um mini-adulto vem ao mundo e com o passar do tempo ele, do nada, sem a interferência das pessoas que o trouxeram ao mundo, ele se torna uma pessoa, quase que magicamente.

1 – Que de “pós” não tem lá tanto assim, é verdade, está mais para “Hiper-Modernidade”.

2 – Nada é melhor para fazer alguém se sentir muito velho do que dar um conselho, e pior, começar esse conselho com a palavra “Jovem”!

3 – Se não for exatamente isso, é coisa parecida.

4 – Por isso não fiz publicidade e propaganda, sou péssimo com títulos.

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A tinta vermelha… discurso de Zizek no Occupy Wall Street.

Essa semana um dos caras mais sensatos da atualidade discursou num dos movimentos mais sensatos da atualidade. Falo de Slavoj Zizek e do Occupy Wall Street. Zizek é velho conhecido aqui do blog, não é difícil encontrar comentários e citações dele por aqui. O Occupy  Wall Street é um movimento semi-organizado de protesto contra o sistema financeiro tubarãozistico e selvagem em que estamos afundados, e que conta com milhares de protestantes que estão acampados na Wall Street, e em vários outros centros financeiros pelo mundo. Sem querer querendo, literalmente, esse pessoal está conseguindo dar animo à esquerda mundial e livrando-a de velhos paradigmas ultrapassados.

Sem mais delongas, vamos ao discurso, acreditem, é lindo!

“Não se apaixonem por si mesmos, nem pelo momento agradável que estamos tendo aqui. Carnavais custam muito pouco – o verdadeiro teste de seu valor é o que permanece no dia seguinte, ou a maneira como nossa vida normal e cotidiana será modificada. Apaixone-se pelo trabalho duro e paciente – somos o início, não o fim. Nossa mensagem básica é: o tabu já foi rompido, não vivemos no melhor mundo possível, temos a permissão e a obrigação de pensar em alternativas. Há um longo caminho pela frente, e em pouco tempo teremos de enfrentar questões realmente difíceis – questões não sobre aquilo que não queremos, mas sobre aquilo que QUEREMOS. Qual organização social pode substituir o capitalismo vigente? De quais tipos de líderes nós precisamos? As alternativas do século XX obviamente não servem.

Então não culpe o povo e suas atitudes: o problema não é a corrupção ou a ganância, mas o sistema que nos incita a sermos corruptos. A solução não é o lema “Main Street, not Wall Street”, mas sim mudar o sistema em que a Main Street não funciona sem o Wall Street. Tenham cuidado não só com os inimigos, mas também com falsos amigos que fingem nos apoiar e já fazem de tudo para diluir nosso protesto. Da mesma maneira que compramos café sem cafeína, cerveja sem álcool e sorvete sem gordura, eles tentarão transformar isto aqui em um protesto moral inofensivo. Mas a razão de estarmos reunidos é o fato de já termos tido o bastante de um mundo onde reciclar latas de Coca-Cola, dar alguns dólares para a caridade ou comprar um cappuccino da Starbucks que tem 1% da renda revertida para problemas do Terceiro Mundo é o suficiente para nos fazer sentir bem. Depois de terceirizar o trabalho, depois de terceirizar a tortura, depois que as agências matrimoniais começaram a terceirizar até nossos encontros, é que percebemos que, há muito tempo, também permitimos que nossos engajamentos políticos sejam terceirizados – mas agora nós os queremos de volta.

Dirão que somos “não americanos”. Mas quando fundamentalistas conservadores nos disserem que os Estados Unidos são uma nação cristã, lembrem-se do que é o Cristianismo: o Espírito Santo, a comunidade livre e igualitária de fiéis unidos pelo amor. Nós, aqui, somos o Espírito Santo, enquanto em Wall Street eles são pagãos que adoram falsos ídolos.

Dirão que somos violentos, que nossa linguagem é violenta, referindo-se à ocupação e assim por diante. Sim, somos violentos, mas somente no mesmo sentido em que Mahatma Gandhi foi violento. Somos violentos porque queremos dar um basta no modo como as coisas andam – mas o que significa essa violência puramente simbólica quando comparada à violência necessária para sustentar o funcionamento constante do sistema capitalista global?

Seremos chamados de perdedores – mas os verdadeiros perdedores não estariam lá em Wall Street, os que se safaram com a ajuda de centenas de bilhões do nosso dinheiro? Vocês são chamados de socialistas, mas nos Estados Unidos já existe o socialismo para os ricos. Eles dirão que vocês não respeitam a propriedade privada, mas as especulações de Wall Street que levaram à queda de 2008 foram mais responsáveis pela extinção de propriedades privadas obtidas a duras penas do que se estivéssemos destruindo-as agora, dia e noite – pense nas centenas de casas hipotecadas…

Nós não somos comunistas, se o comunismo significa o sistema que merecidamente entrou em colapso em 1990 – e lembrem-se de que os comunistas que ainda detêm o poder atualmente governam o mais implacável dos capitalismos (na China). O sucesso do capitalismo chinês liderado pelo comunismo é um sinal abominável de que o casamento entre o capitalismo e a democracia está próximo do divórcio. Nós somos comunistas em um sentido apenas: nós nos importamos com os bens comuns – os da natureza, do conhecimento – que estão ameaçados pelo sistema.

Eles dirão que vocês estão sonhando, mas os verdadeiros sonhadores são os que pensam que as coisas podem continuar sendo o que são por um tempo indefinido, assim como ocorre com as mudanças cosméticas. Nós não estamos sonhando; nós acordamos de um sonho que está se transformando em pesadelo. Não estamos destruindo nada; somos apenas testemunhas de como o sistema está gradualmente destruindo a si próprio. Todos nós conhecemos a cena clássica dos desenhos animados: o gato chega à beira do precipício e continua caminhando, ignorando o fato de que não há chão sob suas patas; ele só começa a cair quando olha para baixo e vê o abismo. O que estamos fazendo é simplesmente levar os que estão no poder a olhar para baixo…

Então, a mudança é realmente possível? Hoje, o possível e o impossível são dispostos de maneira estranha. Nos domínios da liberdade pessoal e da tecnologia científica, o impossível está se tornando cada vez mais possível (ou pelo menos é o que nos dizem): “nada é impossível”, podemos ter sexo em suas mais perversas variações; arquivos inteiros de músicas, filmes e seriados de TV estão disponíveis para download; a viagem espacial está à venda para quem tiver dinheiro; podemos melhorar nossas habilidades físicas e psíquicas por meio de intervenções no genoma, e até mesmo realizar o sonho tecnognóstico de atingir a imortalidade transformando nossa identidade em um programa de computador. Por outro lado, no domínio das relações econômicas e sociais, somos bombardeados o tempo todo por um discurso do “você não pode” se envolver em atos políticos coletivos (que necessariamente terminam no terror totalitário), ou aderir ao antigo Estado de bem-estar social (ele nos transforma em não competitivos e leva à crise econômica), ou se isolar do mercado global etc. Quando medidas de austeridade são impostas, dizem-nos repetidas vezes que se trata apenas do que tem de ser feito. Quem sabe não chegou a hora de inverter as coordenadas do que é possível e impossível? Quem sabe não podemos ter mais solidariedade e assistência médica, já que não somos imortais?

Em meados de abril de 2011, a mídia revelou que o governo chinês havia proibido a exibição, em cinemas e na TV, de filmes que falassem de viagens no tempo e histórias paralelas, argumentando que elas trazem frivolidade para questões históricas sérias – até mesmo a fuga fictícia para uma realidade alternativa é considerada perigosa demais. Nós, do mundo Ocidental liberal, não precisamos de uma proibição tão explícita: a ideologia exerce poder material suficiente para evitar que narrativas históricas alternativas sejam interpretadas com o mínimo de seriedade. Para nós é fácil imaginar o fim do mundo – vide os inúmeros filmes apocalípticos –, mas não o fim do capitalismo.

Em uma velha piada da antiga República Democrática Alemã, um trabalhador alemão consegue um emprego na Sibéria; sabendo que todas as suas correspondências serão lidas pelos censores, ele diz para os amigos: “Vamos combinar um código: se vocês receberem uma carta minha escrita com tinta azul, ela é verdadeira; se a tinta for vermelha, é falsa”. Depois de um mês, os amigos receberam a primeira carta, escrita em azul: “Tudo é uma maravilha por aqui: os estoques estão cheios, a comida é abundante, os apartamentos são amplos e aquecidos, os cinemas exibem filmes ocidentais, há mulheres lindas prontas para um romance – a única coisa que não temos é tinta vermelha.” E essa situação, não é a mesma que vivemos até hoje? Temos toda a liberdade que desejamos – a única coisa que falta é a “tinta vermelha”: nós nos “sentimos livres” porque somos desprovidos da linguagem para articular nossa falta de liberdade. O que a falta de tinta vermelha significa é que, hoje, todos os principais termos que usamos para designar o conflito atual – “guerra ao terror”, “democracia e liberdade”, “direitos humanos” etc. etc. – são termos FALSOS que mistificam nossa percepção da situação em vez de permitir que pensemos nela. Você, que está aqui presente, está dando a todos nós tinta vermelha.”

 

Blog da Biotempo, originalmente publicado!

 

http://boitempoeditorial.wordpress.com/2011/10/11/a-tinta-vermelha-discurso-de-slavoj-zizek-aos-manifestantes-do-movimento-occupy-wall-street/

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Os infortúnios da má fama de Sade. Por Camila Sant’Ana Vieira Ferraz…

Quando se fala em Marquês de Sade, pensamos primeiramente na apropriação da psicologia deste ícone: o sadismo, que surgiu muito após a morte do Marquês. O sujeito sádico é depravado, mortífero e sente prazer em provocar a dor. Mas esta apropriação faz com que esqueçamos que o “divino” Marquês foi sim um romancista (quiçá um filósofo), e a maior parte de sua libertinagem se encontra nos livros ao invés de em sua vida prática. É do romancista e filósofo de quem vou falar, e não do doente mental.

Longe de ser um bom moço, é claro, Sade passou cerca de metade de sua vida preso. Mesmo que ele tivesse uma grande propensão à obscuridade, havia um térreo já preparado para o que Sade colocara. Entre suas leituras estão os filósofos materialistas e sensualistas do Séc XVIII, que põe em dúvida os valores tão defendidos da virtude. Um de seus temas principais, junto com um sistema de experimentação de prazeres dos libertinos é a relação entre virtude (tradicionalmente aqui considerada) e felicidade. Andam juntas a prosperidade e a boa conduta? Nos romances de Sade, tudo indica que não.

Em “Os infortúnios da Virtude” duas irmãs são separadas quando jovens: Justine segue ao máximo o caminho da virtude, enquanto Juliette, sem receio, escolhe o caminho vicioso. Acompanhamos então a vida de Justine e todos os infortúnios que talvez a própria conduta virtuosa tenha lhe trazido. Encontrando vários libertinos em seu caminho, Justine não encontra virtude ou misericórdia seja entre famílias, comerciantes, cientistas e muito menos na igreja. A virtuosa não encontra felicidade, o que o título já denuncia. Assim, não há como o leitor não sentir-se incomodado e curioso ao mesmo tempo.

A descrição, que usa menos palavras torpes do que podemos imaginar, envolve-nos na história da protagonista, mas ela não chega a nos cativar. Mesmo que seja Justine quem conta a história, podemos perceber o próprio Marquês ao fundo apontando o dedo para a virtude.

A libertinagem regada de violência nos assusta por ser repulsiva, mas talvez abale mais por denunciar algo desconhecido por traz da cortina da moralidade.

Sade nunca se entrega por completo. Escolhe a versão do vencido da história e não a do vencedor; faz filosofia na literatura; e ainda associa o prazer sexual ao prazer da crueldade de forma indissociável!

Sade acaba com barreiras entre vícios e virtudes, prazer e crueldade, e ultrapassa a literatura e a filosofia, colocando-se em um lugar onde o raciocínio filosófico se encontra com a liberdade imaginativa do romance. Segundo Eliane Robert Moraes, isso permitirá que nosso autor construa uma “fera pensante”, que diz tudo que ninguém mais quis dizer. É essa fera pensante sem nenhum freio moral, sem vergonha e sem medo de mostrar a que veio que nos deixa abalados, mas mesmo assim intrigados /instigados a ver mais.

 

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Infindáveis idiotas e a caixinha de infindáveis porcarias. Por Murilo…

Blogs e videoblos (Vlogs) tem muitos aspectos em comum. Nenhum deles me interessa. Tentarei me concentrar na diferença entre eles. Há quem diga que os vlogs são uma evolução dos blogs – Por que? Provavelmente essa idéia bizarra de evolução seja fruto de uma ilusão temporal: pelo fato de que vlogs surgiram depois dos blogs – a falácia se revela no fato de que a mesma premissa vale para a involução. Talvez, então, essa idéia advenha do fato de que é relativamente mais difícil fazer um vlog do que um blog, é um tipo de argumento “biológico”, seriam organismos menos complexos evoluindo para organismos mais complexos. Quantitativamente isso talvez até faça algum sentido, mas, qualitativamente essa evolução é válida? Algo mais complexo é sempre melhor do que algo menos complexo? Quando se trata de atividades humanas não, com certeza não.

Porém como explicar o sucesso dos vlogs? Por dois aspectos: preguiça e marketing. Por um lado, os vlogs são consequência da lei “antropológica” do menor esforço: se um ser humano pode fazer algo se esforçando menos ele vai fazer algo se esforçando menos. Ninguém está livre dela. Ela está para a atividade humana tal qual a causalidade está para a natureza. É a lei que rege aquele tipo de pensamento: “Por que eu vou ler um texto, interpretar e me esforçar para compreender, se eu posso ver um vídeo que faz tudo isso para mim?” A preguiça fica por parte do espectador. Já pelo lado do “vlogueiro” vem o marketing. Ele geralmente não tem lá muito conteúdo e senso crítico mas é fotogênico, se sai bem diante da câmera, ou então é simpático, ou carismático, quase sempre anda na moda e tudo mais. Enfim, é uma pura peça de marketing, onde o conteúdo verdadeiro não importa realmente e sim a forma como o produto é apresentado.

Tudo que os vlogueiros tentam fazer é mascarar a falta de conteúdo com truques de edição. Os que fazem mais sucesso são os que fazem isso melhor. Não é de se espantar, portanto, que vlogueiros de sucesso na internet sigam carreira na TV brasileira – a caixinha de infindáveis porcarias. Esses tempos atrás, zapeando, tive a infelicidade de parar na MTV, lá debatiam uma série de “vlogers” de sucesso, depois de uns dois minutos, duas perguntas vieram em minha mente: “Quem dá ouvidos a esses idiotas?” e “Como eu levei dois minutos para perceber que eles são idiotas? ‘Tô ficando devagar!’” Pelo que concluímos mais acima, a resposta da primeira pergunta é: os preguiçosos. Se Nelson Rodrigues estivesse vivo com certeza apareceria em uma de suas crônicas a figura do “idiota que se filma sendo idiota”.

Nós aqui do opinião seguiremos sendo um simples blog, seguiremos indignados com as modinhas e com as idiotices por aí, seguiremos exercitando a milenar arte da escrita e a não menos milenar e gentil arte de fazer inimigos.

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