Category Archives: Filosofia de Butéco (Botéco)

“Para que serve a comunicação?”¹ de José Saramago²

Em épocas de ataques à liberdade na internet, e também, por que não, da sua supervalorização, vale a pena ler a seguinte reflexão. Um ótimo texto desse gênio da lingua portuguesa.
“As novas tecnologias da comunicação multiplicam de modo excepcional a quantidade de informações disponíveis. Isso é ao mesmo tempo fascinante e inquietante. Fascinante porque se nota que transformações muito positivas, em matéria de educação e formação, estão ao alcance da mão. Inquietante porque tudo isso mostra um mundo sobre o qual pairam as ameaças de desumanização e de manipulação.
Um grande filósofo espanhol do século XIX, Francisco Goya, mais conhecido como pintor, escreveu um dia: “O sonho da razão engendra monstros”.
No momento em que explodem as tecnologias da comunicação, nós podemos perguntar se elas não estão a caminho de engendrar monstros de um novo tipo. Certo, essas novas tecnologias são elas mesmas o fruto da reflexão, da razão. Mas se trata de uma razão desperta, no verdadeiro sentido da palavra, isto é, atenta, vigilante, crítica, obstinadamente crítica?
Ou se trata de uma razão sonolenta, adormecida, que no momento de inventar, criar, imaginar e criar, imagina efetivamente monstros?
Ao final do século XIX, quando a ferrovia se impôs como um avanço em matéria de comunicação, alguns espíritos atrasados afirmavam que essa máquina era aterrorizadora e que, nos túneis, as pessoas morreriam asfixiadas.
Eles sustentavam que a uma velocidade superior a 50km/h o sangue sairia pelo nariz e pelas orelhas e que os viajantes morreriam em meio a terríveis convulsões.
Esses são os apocalípticos, os pessimistas profissionais. Duvidam sempre do progresso da razão, a qual, segundo os obscurantistas, não pode produzir nada de bom. Mesmo que eles estejam profundamente equivocados, devemos admitir que quase sempre os progressos são bons e maus ao mesmo tempo.
A Internet é uma tecnologia que não é nem boa nem má em si. Só o uso que se fará dela é que nos conduzirá a um julgamento. É por isso que a razão hoje, mais do que nunca, não pode adormecer.
Se uma pessoa recebesse em sua casa, por dia, 500 jornais do mundo inteiro, provavelmente seria considerada louca; e seria verdade, pois quem senão um louco pode se propor a ler 500 jornais por dia?
Alguns esquecem essa evidência quando se satisfazem anunciando que no futuro, graças à revolução numérica, nós poderemos receber 500 canais de televisão.
O feliz assinante dos 500 canais será inevitavelmente tomado de uma impaciência febril que nenhuma imagem poderá saciar. Ele vai se perder num labirinto vertiginoso de zapping permanente. Consumirá as imagens, mas não se informará.
Diz-se às vezes que uma imagem vale mais do que mil palavras. É falso. As imagens têm quase sempre a necessidade de um texto explicativo. Foi dito que graças às novas tecnologias nós chegaríamos no futuro à beira da comunicação total. A expressão é enganosa, ela deixa crer que atualmente a totalidade dos seres humanos do planeta possa comunicar-se.
Lamentavelmente isso não ocorre. Apenas 3% da população da Terra têm acesso a um computador: e os que utilizam a Internet são ainda menos numerosos. A imensa maioria de nossos irmãos humanos ignora até hoje a existência dessas novas tecnologias.
Neste momento eles não dispõem das conquistas elementares da velha revolução industrial: água potável, eletricidade, escola, hospital, estradas, trens, refrigeradores, automóveis etc. Se nada for feito, a atual revolução da informação passará igualmente ao largo dessas pessoas.
 A informação só nos torna mais sábios se ela nos aproxima das pessoas. Assim, com a possibilidade de ter acesso, à distância, a todos os documentos dos quais necessitamos, o risco de desumanização e de ignorância aumenta.
No futuro, a chave da cultura não está na experiência e no saber, mas na atitude de buscar a informação nos múltiplos canais que oferece a Internet. Pode-se ignorar o mundo, não saber em que universo social, econômico e político se vive, e dispor de toda a informação possível.
A comunicação deixa, assim, de ser uma forma de comunhão. Como não lamentar o fim daquela comunicação real, direta, pessoa a pessoa?
Com obsessão, vê-se concretizar o cenário do pesadelo anunciado pela ficção científica: cada qual fechado em seu apartamento, isolado de tudo e de todos, na solidão mais terrível, mas ligado na Internet e em comunicação com todo o planeta. O fim do mundo material, da experiência, do contato concreto, carnal…a dissolução dos corpos.
Pouco a pouco nos sentimos tomados pela realidade virtual. Esta, apesar do que se pretende, é velha como o mundo, velha como nossos sonhos. E nossos sonhos nos conduziram a universos virtuais extraordinários, fascinantes, a continentes novos, desconhecidos, onde vivemos experiências excepcionais, de aventuras, de amores, de perigos. E às vezes a pesadelos. Contra o que nos advertiu Goya.
Sem que isso signifique entretanto o fim da imaginação, da criação e da invenção, pois por isso se paga muito bem.
É acima de tudo uma questão de ética. Qual é a ética daqueles que, como o sr. Bill Gates e Microsoft querem a todo custo ganhar a guerra das novas tecnologias para obter o maior benefício pessoal?
Qual é a ética dos raiders e dos golden boys que especulam na bolsa servindo-se dos avanços da tecnologia da comunicação para arruinar os Estados ou levar à falência centenas de empresas pelo mundo afora?
Qual é a ética dos generais do Pentágono que, aproveitando-se dos privilégios do progresso, das imagens sintéticas, programam mais eficazmente seus mísseis tomahawk para semear a morte?
Impressionada, intimidada pelo discurso modernista e tecnicista, a maioria dos cidadãos capitula. Eles aceitam adaptar-se ao novo mundo que se anuncia como inevitável. Já não fazem nada para opor-se. São passivos, inertes, cúmplices. Dão a impressão de haver renunciado. Renunciado a seus direitos e a seus deveres. Em particular, ao dever de protestar, de levantar-se, de sublevar-se.
Como se a exploração tivesse desaparecido, e a manipulação dos espíritos tivesse sido extinta.
Como se o mundo estivesse sendo governado por inocentes, e como se a comunicação tivesse se tornado subitamente um assunto de anjos.”

 

¹ Este artigo foi originalmente publicado na revista Manière de Voir, do grupo editorial do Le Monde, edição de julho e agosto de 1999.

² José Saramago (1922 – 2010), escritor português, Prêmio Nobel de Literatura em 1998, e queridinho da Igreja Católica.

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Quase que magicamente… Por Murilo.

“Alô criançada o Opinião chegou!” Trocadilhos bestas à parte, o texto de hoje será exatamente sobre as crianças desse mundão; esses serzinhos infantes, pueris, ingênuos e inofensivos. Será?

Recentemente tive um rápido contato com um texto interessante de um pensador chamado Neil Postman, “O Desaparecimento da Infância.” Postman foi um crítico ferrenho da submissão da cultura à tecnica, e também grande estudioso das relações entre mídia e educação. Segundo ele, a infância é uma criação moderna, que surge junto com o aparecimento da imprensa e com a universalização da educação. Antes desses eventos as crianças eram vistas como “mini-adultos”, assim que tinham condições físicas suficientes já acompanhavam os adultos em seus trabalhos, já tinham contato com conversas adultas, já presenciavam, sem maiores restrições, cenas de violência e de sexo. E agora, na nossa pós-modernidade¹, vencida a era mecânica das telecomunicações e da educação, quando da explosão da era digital e do advento da internet, momento em que tempo e espaço se tornam meros detalhes no acesso à informação, enfim, época em que a ciência e a tecnologia se arrogam a ponta da evolução do entendimento humano; vemos as crianças de novo, como na época pré-moderna, com livre acesso a todo tipo de conteúdo adulto, terror, horror, brutalidade, violência, sexo, enfim, a curiosidade é morta com um clic. Fato que joga muita água no moinho de Postman; um exemplo forte de como a técnica ajuda a universalizar a barbárie.
A coisa fica ainda mais séria quando a gente vê pessoas cheias de boa intenção aumentando o problema com ações “pouco pensadas”, para ser educado. É o caso do movimento – que conta com um título ótimo, diga-se de passagem – “Faça amor, não faça pornô.” Trata-se de um movimento criado por uma mulher que começou a sentir os efeitos dessa universalização da ignorância. Ela constatou, de maneira radicalmente empírica, que seus parceiros sexuais mais jovens obedeciam um padrão de péssimo gosto na hora da transa – truculência, falta de romantismo, de compreensão, etc. A conclusão retirada de sua pesquisa de campo é a de que os homens agem assim porque estão se educando sexualmente do modo mais errado possível, e cada vez mais cedo: por meio da indústria do cinema pornô, aonde, sabidamente, a mulher é reduzida a uma coisa com a qual o homem se masturba – uma boneca inflável de carne e osso – e que com a internet, se tornou cada vez mais acessível. Eis o texo na íntegra – http://revistatpm.uol.com.br/revista/112/reportagens/faca-amor-nao-faca-porno.html – Gostaria de chamar a atenção para um dado interessante do texto: Um terço dos garotos ingleses com 10 anos de idade já tiveram acesso à conteúdo pornográfico. Muitas vezes antes mesmo do primeiro beijo eles já viram uma dupla penetração, e pior, com uma atriz pornô que fingia um prazer absurdo, mesmo com – ou por causa da, muitas vezes – dor. Isso tudo torna, de fato, o movimento muito legítimo, isso é: Jovem², o que você assiste em “Brasileirinhas” não é a realidade, se animal!
Muitas perguntas poderiam ser feitas a partir daqui, desde por que as atrizes pornôs se sujeitam a esse tipo de tratamento e a passar essa imagem, até por que diabos essa tiazona da entrevista insiste em sair com esses moleques imbecis. Mas o problema nessa história toda, e que eu gostaria de chamar a atenção, é a solução apresentada pela publicitária: criar um cinema pornô “mais realista” e que inclua a visão “feminina e feminista”. Quer dizer, se o problema é o aceso à pornografia por crianças cada vez mais novas e a influência que isso acarreta na formação delas, aumentar a quantidade de filmes pornográficos e criar um novo sub-gênero de filmes não vai ajudar a reduzir o problema. Por mais que se trate de um gênero “mais justo” de sacanagem, a boa e velha sacanagem clássica não vai acabar. E vale lembrar que a maioria dos homens procuram filmes pornôs para se masturbar e não para ter aulas sobre romantismo, e assim eles vão continuar a produzir e assistir os filmes clássicos. O máximo que esse novo gênero vai conseguir é aumentar a atração de mulheres por pornografia. Mas o problema persistirá. Mais uma vez vale lembrar aquela velha máxima de Gahndi sobre a violência: “Não dá para combater a escuridão fazendo mais escuridão.”³

Quando é que as pessoas vão entender que a internet é um espaço público, assim como uma praça pública? Quer dizer, se você não permite, racionalmente, que seu filho fique fazendo o que quer, na hora que quer, livremente, sem supervisão, em uma praça pública, por que raios permite então que ele faça o que quer na internet? Um criança não precisa de um computador pessoal de uso exclusivo em seu quarto, não precisa de um laptop, não precisa de um celular com acesso à internet, nada disso, em caráter privado, contribui para a formação dela; e é bobagem pensar que aqueles programas de “controle de conteúdo” podem substituir a supervisão paterna, pois se até um macaco treinado consegue desbloquear aquilo imagine uma criança de 11 anos que vive nessa “era digital” há… 11 anos! E, pior, se o macaco e a criança que, via de regra, não são mal-intencionados e sim curiosos, conseguem desbloquear, imagine um pedófilo, que além de tudo é mal-intencionado. Portanto, acredito que a verdadeira campanha, que além de legítima seria eficiente, é: “Não de a uma criança algo de que ela não precisa e que pode eventualmente lhe prejudicar!”4 Confesso que não acredito no sucesso de uma tal campanha por dois motivos: primeiro pelo título horrível, que traça o exato corte entre eu e a tiazona lá, ela é publicitária e eu pretenso filósofo. E segundo, e mais importante,a campanha prega a restrição ao consumo, e nossa sociedade se mata mas não para de comprar.

Para finalizar gostaria de colocar uma pergunta: de onde é que vem o impulso “anti-edipiano” pós-moderno de acreditar que as crianças estão por aí sem pai nem mãe? E mais, será que além de regredirmos moralmente, transformando as crianças de novo em “mini-adultos” pré-modernos, regrediremos cientificamente a ponto de acreditarmos de novo na geração espontânea? Na idade média existia uma famosa receita para se produzir ratos, era só misturar num lugar pouco movimentado e escuro, panos velhos e restos de comida, que os ratos brotavam desses materiais – acreditava-se que a vida pudesse vir do não-vivo. Qual seria a receita atual para a formação de um a pessoa? Dois seres humanos se unem, transam, e de repente, não mais que de repente, um mini-adulto vem ao mundo e com o passar do tempo ele, do nada, sem a interferência das pessoas que o trouxeram ao mundo, ele se torna uma pessoa, quase que magicamente.

1 – Que de “pós” não tem lá tanto assim, é verdade, está mais para “Hiper-Modernidade”.

2 – Nada é melhor para fazer alguém se sentir muito velho do que dar um conselho, e pior, começar esse conselho com a palavra “Jovem”!

3 – Se não for exatamente isso, é coisa parecida.

4 – Por isso não fiz publicidade e propaganda, sou péssimo com títulos.

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Porque se trata de uma obra de arte supraliminar!!! Por Murilo…

Esse é mais um texto para aquela sessão que não existe de tão especial que é: “Faz tempo que eu estou afim de escrever algo sobre isso aqui para o blog!” E ainda por cima me arrisco por mares nunca dantes navegados, pelo menos por mim, por aqui. Resolvi falar música. Historicamente esse papel tem se destinado ao Tosco dada sua reconhecida autoridade no assunto, mas ainda assim me arrisco; obviamente que sem o conhecimento técnico e o apurado faro de meu nobre comparsa para versar sobre o assunto só me resta apelar à boa e velha filosofia de boteco. É um tanto óbvio para quem me conhece que se eu vou falar de música é quase certo que eu fale de Metal, mas vamos flertar com outras vertentes antes de chegar, se chegar no tal do Metal. Mas os bangers não tem do que reclamar conosco, até porque o Metal se dá de forma privilegiada por aqui.

Independentemente das classificações existente e exigidas pela nossa mal fadada “Indústria Cultural”, a banda tema da bagaça de hoje é famosamente classificada com Nu–Metal*, seja lá o que diabos isso signifique. O interessante é que todas as bandas desse dito nu-metal se parecem entre si, e o System of a Down não se parece com nenhuma delas; com certeza vão existir aqueles que vão dizer que “é tudo metafisicamente igual”, mas recolher-me-ei à minha insignificância ôntica. Além do mais, ficarei devendo uma banda parecida para fazer uma comparação, portanto, joguemos fora o tal do rótulo.

Talvez a gente possa encaixar o SOAD naquela prateleira de “bandas/artistas de protesto”, que de tão boa que é não existe. Mas mesmo essa classificação soaria muito pobre. Mas ainda assim é inevitável pensar nas companhias de prateleira da banda; nomes gigantes como Johnny Cash, Bob Dylan, Bob Marley, The Who, The Clash, John Lennon, The Jam, U2, Rage Against the Machine, e mais um monte de gente boa, excelente, fantástica e muito foda. Na minha modesta opinião o System está no mesmo patamar desse pessoal aí. Exagero? Talvez sim. “Loucura? Isso é Esparta!” Mas vamos por os pés nos ‘is’ e os pingos no chão e pensar, se for o caso, em graus de protestabilidade na história do Rock. O primeiro grau que proponho é o subliminar: é aquela contestação que, apesar de simples e popular, é poética e sofisticada, esse nível é preocupado com a beleza e com a forma como a mensagem subversiva é passada, esse seria o caso de Johnny Cash, Bob Dylan, Bob Marley e John Lennon por exemplo. O segundo nível seria o liminar: trata-se de contestar de forma mais direta as problemáticas sociais com menos rebuscamento poético mas com linguagem mais direta e concisa, de uma forma que garanta o entendimento de qualquer um que escute; aqui se poderia ter como exemplo bandas como o The Clash, o U2, o Pearl Jam. O terceiro seria o nível supraliminar: são bandas revoltadas, revolucionárias, inconformadas, causadoras de problemas natas, que usam e abusam da forma mais pesada de rock’n roll, para gritar, cuspir, vomitar ódio; um das principais características dessas bandas é usar seus discos como verdadeiras metralhadoras de raiva contra as injustiças sistemáticas; esse seria o caso, por exemplo, do Rage Against the Machine e do próprio System, além de muita gente bacana. Isso demonstra que o SOAD anda para lá de bem acompanhado, ainda que longe do dito ‘nu-metal’.

Mas por que raios dizemos que o que esses caras fazem é arte? “Van Gogh é arte! Isso ta mais para gritaria e bateção de cabeça! Não para a arte!” Por outro lado, é um tipo de música popular – tem ritmo, melodia, letra e apelo. Mas qual o caráter artístico desse populacho barulhento? Pois bem, sem passar perto nem relando sobre as infindáveis discussões filosóficas acadêmicas sobre o que diabos é uma obra de arte, vale assumir a definição mínima de que ela é um constructo necessário, de propriedades contingentes. Explico, tento, pelo menos: Cor, via de regra, é uma característica contingente das coisas, por exemplo, se você trocar a cor da parede do seu quarto ela vai continuar a ser a parede do seu quarto; porém, para uma obra de arte essa regra não se aplica, se você troca as cores agonizantes do quadro “O Grito” de Edvard Munch por azul bebe e rosa choque ele vira “O ‘Uuuuuiiiiiiii!’”, isso é, ele simplesmente deixa de ser o quadro de Munch e vira uma bizarrice qualquer. A parede do seu quarto tem uma identidade abstrata que não depende de qualidades contingentes com a cor por exemplo, já uma obra de arte é composta por qualidades ditas contingentes em outro contexto mas que são necessárias para ela. Não seria esse o caso dos artistas citados ainda acima? Para mim, sim. Trata-se de um pessoal que faz um som com características únicas e inconfundíveis.

Uma última poeira interessante que eu gostaria de levantar aqui antes de sacudir e dar a volta por cima trata do aspecto viral desses artistas, isso é, são artistas populares, que se encaixam na forma que defende o sistema, porém usam dessa forma para lutar contra ele; obviamente que o sistema não é burro e nunca demora a se defender de maneira eficiente, mas todo ataque é sempre bem vindo, vai que um dia funciona; vale sempre lembrar daquela sentença enigmática de Adorno que dizia algo mais ou menos assim: “O antídoto para a Indústria Cultural está na própria Indústria Cultural.”¹ Quem sabe essa abertura que ela permite para verdadeiras obras de arte dentro de seu formato não seja parte de tal antídoto. Ou então, quem sabe, a dialética já era e estamos no meio do admirável mundo novo. Não sei. Mas, por enquanto, fico como o Diabo – segundo Raul Seixas – dando o toque!

*Talvez seja o tipo de heavy metal tocado pelos Cavaleiros que dizem “Nu!” Os parentes franceses dos Cavaleiros que dizem “Ni!”

¹Se não era bem assim a frase era algo parecido. Se não foi o Adorno que disse foi alguém parecido. E se não era nem um nem outro então eu preciso parar de beber!

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Idiotas e mais idiotas… por Maximillian Drugba

Vou lhes descrever aqui uma situação que ocorreu comigo há algum tempo: sentado em frente ao computador, revoltado, como sempre acontece toda vez que ligo a TV em algum telejornal, eu queria escrever sobre a picaretagem que reina triunfante em nosso país, ou ainda, na sociedade, no mundo todo, enfim. Pois bem, incapaz de expressar tudo o que eu pensava em poucas palavras e sem querer parecer aquele tipo de revoltado chato, repetitivo e metido a nobre intelectualóide desisti de escrever sobre o assunto. Mais tarde, preparando uma aula de filosofia para minhas turmas de ensino médio (sim, para quem não sabe, eu sou professor), me deparei com um fragmento de texto do dramaturgo, jornalista e escritor Nelson Rodrigues. Achei de onde vinha aquele fragmento e, interessado, li o texto completo. Fiquei chocado. Era aquilo que eu queria dizer sobre o império de idiotas chamado Brasil que eu vejo todo dia nas ruas, na Tv, etc.

Na mesma hora, pensei: “bom, se mesmo querendo, não tive capacidade de escrever um texto como esse, por que não colocar ele no blog?” Então o que você leitor lerá a seguir (se tiver um pouco de paciência, afinal o texto é um pouco grande!!!) é uma crônica de Nelson Rodrigues intitulada “Os Idiotas Confessos”, presente em uma coletânea de crônicas chamada “A Cabra Vadia – Novas Confissões”. Sem mais, é isso, reflita um pouco sobre o que é a sociedade brasileira em toda a sua hipocrisia e controvérsia. Boa leitura.

“Antigamente, o idiota era o idiota. Nenhum ser tão sem mistério e repito: — tão cristalino. O sujeito o identificava, a olho nu, no meio de milhões. E mais: — o primeiro a identificar-se como tal era o próprio idiota. Não sei se me entendem. No passado, o marido era o último a saber. Sabiam os vizinhos, os credores, os familiares, os conhecidos e os desconhecidos. Só ele, marido, era obtusamente cego para o óbvio ululante.

Sim, o traído ia para as esquinas, botecos e retretas gabar a infiel: — “Uma santa! Uma santa!”. Mas o tempo passou. Hoje, dá-se o inverso. O primeiro a saber é o marido. Pode fingir-se de cego. Mas sabe, eis a verdade, sabe. Lembro-me de um que sabia endereço, hora, dia etc. etc.

Pois o idiota era o primeiro a saber-se idiota. Não tinha nenhuma ilusão. E uma das cenas mais fortes que vi, em toda a minha infância, foi a de uma autoflagelação. Um vizinho berrava, atirando rútilas patadas: — “Eu sou um quadrúpede!”. Nenhuma objeção. E, então, insistia, heróico: — “Sou um quadrúpede de 28 patas!”. Não precisara beber para essa extroversão triunfal. Era um límpido, translúcido idiota.

E o imbecil como tal se comportava. Nascia numa família também de imbecis. Nem os avós, nem os pais, nem os tios, eram piores ou melhores. E, como todos eram idiotas, ninguém pensava. Tinha-se como certo que só uma pequena e seletíssima elite podia pensar. A vida política estava reservada aos “melhores”. Só os “melhores”, repito, só os “melhores” ousavam o gesto político, o ato político, o pensamento político, a decisão política, o crime político.

Por saber-se idiota, o sujeito babava na gravata de humildade. Na rua, deslizava, rente à parede, envergonhado da própria inépcia e da própria burrice. Não passava do quarto ano primário. E quando cruzava com um dos “melhores”, só faltava lamber-lhe as botas como uma cadelinha amestrada. Nunca, nunca o idiota ousaria ler, aprender, estudar, além de limites ferozes. No romance, ia até ao Maria, a desgraçada.

Vejam bem: — o imbecil não se envergonhava de o ser. Havia plena acomodação entre ele e sua insignificância. E admitia que só os “melhores” podem pensar, agir, decidir. Pois bem. O mundo foi assim, até outro dia. Há coisa de três ou quatro anos, uma telefonista aposentada me dizia: — “Eu não tenho o intelectual muito desenvolvido”. Não era queixa, era uma constatação. Santa senhora! Foi talvez a última idiota confessa do nosso tempo.

De repente, os idiotas descobriram que são em maior número. Sempre foram em maior número e não percebiam o óbvio ululante. E mais descobriram: — a vergonhosa inferioridade numérica dos “melhores”. Para um “gênio”, 800 mil, 1 milhão, 2 milhões, 3 milhões de cretinos. E, certo dia, um idiota resolveu testar o poder numérico: — trepou num caixote e fez um discurso. Logo se improvisou uma multidão. O orador teve a solidariedade fulminante dos outros idiotas. A multidão crescia como num pesadelo. Em quinze minutos, mugia, ali, uma massa de meio milhão.

Se o orador fosse Cristo, ou Buda, ou Maomé, não teria a audiência de um vira-lata, de um gato vadio. Teríamos de ser cada um de nós um pequeno Cristo, um pequeno Buda, um pequeno Maomé. Outrora, os imbecis faziam platéia para os “superiores”. Hoje, não. Hoje, só há platéia para o idiota. É preciso ser idiota indubitável para se ter emprego, salários, atuação, influência, amantes, carros, jóias etc. etc.

Quanto aos “melhores”, ou mudam, e imitam os cretinos, ou não sobrevivem. O inglês Wells, que tinha, em todos os seus escritos, uma pose profética, só não previu a “invasão dos idiotas”. E, de fato, eles explodem por toda parte: — são professores, sociólogos, poetas, magistrados, cineastas, industriais. O dinheiro, a fé, a ciência, as artes, a tecnologia, a moral, tudo, tudo está nas mãos dos patetas.

E, então, os valores da vida começaram a apodrecer. Sim, estão apodrecendo nas nossas barbas espantadíssimas. As hierarquias vão ruindo como cúpulas de pauzinhos de fósforos. E nem precisamos ampliar muito a nossa visão. Vamos fixar apenas o problema religioso. A Igreja tem uma hierarquia de 2 mil anos. Tal hierarquia precisa ser preservada ou a própria Igreja não dura mais quinze minutos. No dia em que um coroinha começar a questionar o papa, ou Jesus, ou Virgem Maria, será exatamente o fim.

É o que está acontecendo. Nem se pense que a “invasão dos idiotas” só ocorreu no Brasil. Se fosse uma crise apenas brasileira, cada um de nós podia resmungar: — “Subdesenvolvimento” — e estaria encerrada a questão. Mas é uma realidade mundial. Em que pese a dessemelhança de idioma e paisagem, nada mais parecido com um idiota do que outro idiota. Todos são gêmeos, estejam uns aqui, outros em Cingapura.

Mas eu falava de que mesmo? Ah, da Igreja. Um dia, ao voltar de Roma, o dr. Alceu falou aos jornalistas. E atira, pela janela, 2 mil anos de fé. É pensador, um alto espírito e, pior, uma grande voz católica. Segundo ele, durante os vinte séculos, a Igreja não foi senão uma lacaia das classes dominantes, uma lacaia dos privilégios mais hediondos. Portanto, a Igreja é o próprio Cinismo, a própria Iniqüidade, a própria Abjeção, a própria Bandalheira (e vai tudo com a inicial maiúscula).

Mas quem diz isso? É o Diabo, em versão do teatro de revista? Não. É uma inteligência, uma cultura, um homem de bem e de fé. De mais a mais, o dr. Alceu tinha acabado de beijar a mão de Sua Santidade. Vinha de Roma, a eterna. E reduz a Igreja a uma vil e gigantesca impostura. Mas se ele o diz, e tem razão, vamos, já, já, fechar a Igreja e confiscar-lhe as pratas.

Cabe então a pergunta: — “O dr. Alceu pensa assim?”. Não. Em outra época, foi um dos “melhores”. Mas agora é preciso adular os idiotas, conquistar-lhes o apoio numérico. Hoje, até o gênio se finge imbecil. Nada de ser gênio, santo, herói ou simplesmente homem de bem. Os idiotas não os toleram. E as freiras põem short, maiô e posam para Manchete como se fossem do teatro rebolado. Por outro lado, d. Hélder quer missa com reco-reco, tamborim, pandeiro e cuíca. É a missa cômica e Jesus fazendo passista de Carlos Machado. Tem mais: — o papa visitará a América Latina. Segundo os jornais, teme-se que o papa seja agredido, assassinado, ultrajado etc. etc. A imprensa dá a notícia com a maior naturalidade, sem acrescentar ao fato um ponto de exclamação. São os idiotas, os idiotas, os idiotas.

[19/8/1968]”

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A tolerância como dispositivo… Por Murilo.

A morte de Bin Laden é convenientemente próxima ao que a imprensa ocidental apressadamente intitulou de “A Primavera Árabe” – a série de revoltas ocorridas em países árabes iniciadas depois da queda do ditador egípcio no começo desse ano. E como era de se esperar gerou uma série de reações pelo mundo (inclusive aqui no blog). Uma dessas reações foi o artigo do jornalista Joe Nocera do “The New York Times”, jornal de alguma relevância nos EUA e no mundo. Resumindo o artigo a idéia principal era: só porque Bin Laden morreu não significa que o terrorismo morreu, e além disso, a desconfiança em relação aos EUA continua grande entre os Árabes. No texto o jornalista aponta com pesar, como exemplo da tal desconfiança, o fato de que os jornais turcos estão unidos contra as ações da OTAN na Líbia de Kadafi; cito; “Mesmo apesar de essas ações almejarem impedir que um ditador cruel massacre seu próprio povo. A imagem de ocidentais bombardeando seus irmãos muçulmanos é muito pesada para ser aceita por eles (…) Esperamos que esse não seja o legado de Bin Laden, mas isso é algo que só nós poderemos reverter.”¹ Isso é, trocando em miúdos, mesmo com os ocidentais bonzinhos – com seu complexo de herói – se oferecendo para ir lá salvar a pele dos ‘irmãos’ insurgentes líbios, o restante dos árabes ainda não aceitam o ocidente, ainda desconfiam dos EUA, ainda não nos toleram. Tomara que essa intolerância não seja o legado de Bin Laden. (Reparemos, só de passagem, que a ‘desconfiança com relação aos EUA’ e a ‘intolerância’ quase podem ser sinônimos, no caso. Lembrando muito o que acontecia na guerra fria em que ‘simpatizante do socialismo’ era igual a ‘inimigo da liberdade’ – vamos ver quanto tempo vai levar para serem, de fato, sinonimizados!)

O que significa dizer que isso é algo que “só nós podemos reverter”?² Várias respostas são possíveis, mas levando em conta a história recente e meu profundo pessimismo com relação ao destino da humanidade que só aumenta, só uma expressão me vem à cabeça: “Big Stick!”, isso é, a boa e velha política estadunidense de baixar o cacete impondo soluções que eles acham as melhores. Porém esse não é o ponto do texto. Um dos interesses aqui é tentar se aproveitar do momento histórico para, quem sabe, mostrar como funciona a preparação dos indivíduos para o futuro próximo.

Se lermos com olhos apaixonados o artigo do pequeno Joe veremos nele um elogio à tolerância, um dos mais nobre valores do ocidente esclarecido. E também uma condenação da prática intolerante do terrorismo e da imprudência da imprensa turca; ao mesmo tempo, um elogio a OTAN que está trabalhando para evitar um massacre cruel e sanguinário do povo líbio promovido por um ditador bobo, feio e intolerante. É interessante observar várias coisas: por exemplo, como a divisão de lados é mantida – de um lado o ocidente rico, chique e esclarecido; e do outro os Árabes, fundamentalistas, intolerantes, e atrasados. E ainda, como a idéia de tolerância é usada para massificar – ou se preferirem, representar – todo o ocidente³. Qualquer um que pense um pouco não encontra dificuldades muito sérias para chegar à conclusão “antropológica New Age” que, na verdade, o confronto existe por causa do choque de culturas: a dos teocratas, fundamentalistas, atrasados de um lado; e dos democratas, multiculturalistas, esclarecidos de outro. Seria esse choque de culturas a base do conflito. É errado pensar assim? Por um lado não; no sentido de que não há nenhuma inverdade no julgamento; por outro lado sim, porque essa não é a base real do conflito.

O problema que a história nos mostra é que o confronto cultural é só uma máscara para o confronto real – para usar um termo amaldiçoado, mas certeiro – material, político e econômico. Não faz muito tempo os EUA financiavam pelo mundo ditaduras de todo tipo; vide Brasil, Argentina, Chile, e mais uma dúzia de republiquetas da ‘América latrina’. Um dos maiores aliados dos EUA no próprio ‘Oriente mérdio’ é a Arábia Saudita, uma monarquia teocrática. Na década de 1980, do governo Regam e afins, os EUA despejaram bilhões e bilhões de dólares em espécie, mas também em treinamento e armamento, no Iraque – na ocasião da guerra contra o Irã – e no Afeganistão – para barrar a invasão soviética; investimentos que não muito tempo depois acabaram nos regimes do Taliban e de Saddam Hussein, além, é claro, do próprio Bin Laden. Enfim, a história nos mostra que democracia, tolerância, assim como liberdade e multiculturalismo é papo furado para conselho de segurança da ONU ver.

A questão é, tanto a imprensa turca quanto o “New York Times” sabem disso, conhecem a história, provavelmente melhor que todos nós, e ambos estão tratando de cuidar de seus interesses, ambos estão oferecendo a visão de mundo de seus patrocinadores, ambos estão tentando legitimar o discurso de quem assina o cheque. Mas a peleja aqui é caseira. Sendo assim, por mais que Nocera saiba que para o ocidente se trata de uma luta por poder sobre fontes de matérias-primas, mão-de-obra barata e mercados consumidores, mesmo assim, ele ritualmente encena o teatrinho da democracia tolerante multiculturalista, dos direitos humanos, etc… a fim de “capturar, orientar, determinar, interceptar, modelar, controlar e assegurar gestos, condutas, opiniões e discursos dos seres vivos”4 que leem seu jornal – o que é bastante gente. A impressão que ficamos é que a idéia de tolerância é algo absurdamente evidente e que permeia toda nossa existência enquanto ocidentais desde que nascemos; com a família, com os amigos, na escola, no trabalho, na praia, na zona, na internet, ela sempre esteve lá, ainda que manifestadamente diferente em cada parte. Enfim, a impressão é que ela é e sempre foi um valor ocidental nobre, e molda nossa consciência de maneira quase que constante. Porém, apesar de tudo, o aspecto mais interessante aqui para o texto, é caráter de dispositivo da moça. Isso é, a tolerância como ela é usada, e não como ela é: ela é acionada, se lança mão dela, sempre que se precisa conseguir um determinado efeito em regime de urgência. No caso, a união do Ocidente na manutenção do conflito com os Árabes, independentemente da morte de Bin Laden, Saddam Hussein, ou seja lá quem for, é importante manter a diferença essencial entre os lados, e, consequentemente, o conflito.

Como mostra Zizek: a política atual “concentra-se em guerras culturais e lutas por reconhecimento: seu princípio básico é a tolerância sexual, étnica e religiosa, ela prega o evangelho multicultural. (…) A intolerância sexual e cultural serve de chave para as tensões econômicas.”5 e porque não, políticas também; ao contrário do que acontecia antes da Era Americana. O que o filósofo esloveno chama de “chave para” eu chamo de “dispositivo”, no sentido que Agamben da ao termo (como citado acima). Tudo se passa como se a idéia de tolerância fosse usada para unir (entenda-se, dissolver os indivíduos) contra a cultura do Outro, e o conflito cultural como uma distorção (ideológica) que legitima o conflito real, material, político e econômico.

Não se trata aqui de rejeitar o valor belo e sublime da tolerância – por mais que ela esconda uma dimensão sombria que não vai ser tratada agora – trata-se de abrir os olhos para a história do conceito e principalmente para o uso que se faz dele, cuidando para que ele não vire justamente o seu contrário, um tipo de tolerância que conclama para a guerra.

 

 

 

1 – Ficarei devendo a fonte de maneira decente, mas o artigo foi reproduzido pela Gazeta do Povo, na época da morte do Bin Laden, se alguém estiver com paciência de procurar, eu agradeço, porque eu não tenho a menor…

2 – Não é difícil imaginar essa frase dita por alguém trajando uma capa e com a cueca por cima da calça.

3 – Somos todos tolerantes, democratas e multiculturalistas; e ponto final!

4 – Giorgio Agamben – “O Que é um Dispositivo?”

5 – Slavoj Zizek – “Um empreendimento pré-marxista”. São Paulo: Folha de São Paulo, 24 de setembro de 2000.

 

 

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O mundo está mais seguro? … Por Murilo, o Profeta!

De dentro do ônibus, passando em frente a uma revistaria, avisto o que seria a capa da revista Isto é! desta semana; se não me engano nela continha uma foto de São Bin Laden e a seguinte pergunta “O mundo está mais seguro?” – ou era uma afirmação, dizendo que de fato o mundo esta mais seguro. Não lembro direito, passei muito rápido por lá! Mas o fato é que eu me coloquei a pergunta e passei os últimos 20 min de viagem até o Abranches pensando numa resposta, a qual posto aqui e agora no melhor estilo Gil Gomes de jornalismo interpretativo-teatral.

Pois bem, a resposta é: Não! Você deve estar pensando: “Esse idiota levou 20 min pensando para dizer ‘não!’?” então eu continuo… Não só o mundo não esta mais seguro como esta consideravelmente menos seguro e mais instável. “Mas como, se mataram o líder da maior e mais ‘pauzuda’ organização terrorista do mundo?” Explico. Como diria o saudoso Jack, vamos por partes: primeiro a operação deixou mais dúvidas do que certezas, o que acabou por, paradoxalmente, desenterrar Bin Laden. Cadê – de verdade – as provas da morte? O governo supostamente aliado do Paquistão acobertava Bin Laden? Como os texanos descobriram onde estava o barbudo? Quantos Seals são necessários para trocar uma lámpada? Pois bem, deixando a metafísica de lado, todos nós conhecemos bem o complexo de heroísmo dos texanos, e todos sabemos muito bem também que todo heroi precisa de um vilão; “morto” o ‘Binba’ Laden, quem será o próximo vilão? Talvez seja só uma incrível coincidência mas, muito recentemente, o mesmo instituto que viu armas de destruição em massa no Iraque gerando um relatório que serviu de justificativa para a invasão do País, agora acaba de lançar um relatório dizendo que viu uma relação estrita quase carnal entre o governo venezuelano do ditador eleito pelo povo Hugo Chávez e as F.A.R.C (forças armadas revolucionárias da Colômbia), grupo classificado como terrorista pelo governo texano. ( Aliás, fiquei sabendo por fontes confiáveis que tenho em comum com Julian Assange, que o próximo relatório desse instituto pretende provar que viu Papai Noel traficando armas para Nárnia, e arrisco dizer que esse reino deverá ser invadido nas próximas décadas.) E em terceiro e último lugar, há o perigo de nem se cogitar uma punição ao governo texano pela ação, isso é, um país entra no território de um aliado, desfere uma ação militar que culmina com a morte de várias pessoas, sai com o corpo de uma delas, o joga no mar, e não dá nenhuma satisfação para o governo local e nem para ninguém. Eu não entendo nada de direito internacional mas acredito que deva ter algo de muito errado nisso tudo; e se não gerar uma reação da comunidade internacional, e possivelmente uma punição aos EUA, isso poderá servir de jusrisprudência/desculpa para quem quiser fazer o mesmo se sentir a vontade. Imaginemos, por exemplo, se no caso Cesare Battisti, se a Itália decide enviar um comando ao território brasileiro para sequestrar Battisti e levá-lo para ser punido na Itália, como esta ação seria vista por nós brasileiros? Talvez como um ato de guerra. E aí vem a reação empática de Noam Chomsky: “Poderíamos perguntar a nós mesmos como reagiríamos se um comando iraquiano pousasse de surpresa na mansão de George W. Bush, o assassinasse e, em seguida, atirasse seu corpo no Oceano Atlântico.” E veja bem, teríamos de ser bem mais compreensivos com os iraquianos, afinal de contas os Bush mataram muito mais gente do que o Bin Laden, e de formas muito mais cruéis.

Acredito que a questão se a morte do chefe da mais perigosa organização terrorista do planeta deixa o mundo mais seguro, só poderá ser respondida, por uma exigência lógica, após a morte do mesmo, o presidente dos Estado Unidos da América. Enquanto esperamos ansiosos, deixo vocês com a prova de que Bin Laden não morreu.

Obs.: Hiperlink – com o saco cheio para fazer várias notas de rodapé explicativas resolvi fazer hiperlinks, é só clicar sobre as palavrinhas de cor diferente e um mundo novo se abrirá diante de seus olhos!

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Mídia, Osama Bin Laden and God Save the Queen por Maximilian Drugba

Uma coisa é fato, quanto mais eu acho que o mundo é contraditório e absurdo, mais ele tenta se parecer contraditório e absurdo. É, eu sei, eu mesmo estou parecendo contraditório e absurdo. Mas fazer o quê? O mundo é assim mesmo. Frente aos recentes acontecimentos mundiais, mais especificamente o casamento real britânico, a crise no Oriente Médio e a suposta morte do maior vilão da última decada, Osama Bin Laden, elocubrei algumas considerações e gostaria de compartilhar isso com os caros leitores, a começar pelo enlace matrimonial mais comentado do século.

Para aqueles que não sabem, na semana passada o príncipe herdeiro do trono britânico, Willian, filho do também príncipe herdeiro Charles e da falecida princesa Diana, casou-se com uma plebéia em uma cerimonia cheia de pompa, circunstância, exageros e contradições. O casal, agora príncipe e princesa, duque e duquesa, conde e condessa, barão e baronesa, atraiu a atenção de toda a mídia internacional. Em meio a um verdadeiro desfile de notícias inúteis e sem a menor relevância, fomos obrigados a suportar toda a sorte de patifarias e canalhices, a começar pelos inúmeros consultores de moda, de cerimônia, “especialistas” em monarquia britãnica, além dos consagrados calhordas e pulhas que nos presenteiam todos os dias com seus comentários pretenciosos e distorcidos. Na minha opinião, o ápice destas intermináveis horas de transmissão, algumas até mesmo ao vivo, foi a apresentadora da RedeTv Daniela Albuquerque que disse: “A Rainha Elizabeth II é uma Hebe da realeza”!!! Mesmo assim, foram registrados altíssimos índices de audiência durante toda a cerimônia. Não sei quanto a você, leitor, mas para mim tudo isso é muito preocupante. Até quando deixaremos nossos canais de comunicação nas mãos de pessoas como a citada apresentadora? Até quando uma Ana Maria Braga da vida será responsável por formar a opinião dos cidadãos brasileiros?

Pois é, mas o pior e mais irônico de tudo vem agora. Altos índices de audiência foram igualmente registrados nos noticiários quando o assunto foi a crise no Oriente Médio. Começou com o “ditador” egipcío Hosni Mubarak, deposto no começo deste ano. Isto provocou por lá uma verdadeira revolução. Vários ditadores tiveram que enfrentar inssureições populares em seu países, e alguns ainda enfrentam, como é o caso do ex-atual chefe de estado líbio Muamar Khadafi. Aqui no Brasil, como sempre, engrossamos o coro da mídia internacional e crucificamos unanimemente os “malvados” ditadores da terra de Ali Babá, sem nem ao menos perguntarmos o que realmente está acontecendo lá, ou ainda, o que o ocidente tem a ver com isso. No caso da Líbia de Khadafi, a OTAN, liderada por forças militares francesas, já está intervindo militarmente com o intuito de remover o ditador do governo e possibilitar ás forças rebeldes a tomada do poder. Mas por quanto tempo este ocidente, sempre dotado de extrema bondade e disposto a resolver as injustiças do mundo, foi omisso e deixou que várias ditaduras militares/religiosas dominassem o Oriente Médio? Com quantas delas mantivemos, e ainda mantemos, relações comerciais, políticas e diplomáticas? Um número absurdo de perguntas pode ser feito aqui, muito embora, eu acabei escolhendo algumas em especial: Se vivemos em um mundo onde a melhor forma de governo é a democracia, o governo do povo, porque paramos na semana passada para prestar reverência a uma monarquia? Não é no mínimo estranho presenciar uma verdadeira locomotiva de elogios a uma monarquia, que é uma conhecidíssima forma de governo acostumada a oprimir e destituir a população de seus direitos, e ao mesmo tempo, criticar ditadores de outros países? Será que ninguém percebeu a infinita lista de semelhanças entre uma monarquia, como a britânica, e uma ditadura, como a da Líbia? E por último, não é estanho para você o fato de que uma das principais forças econômicas e políticas deste ocidente, democrático, libertador e preocupado com as mazelas do mundo atual, seja uma monarquia?

Há ainda o caso Obama (opa, quer dizer, Osama) Bin Laden. Quando vi o presidente norte-americano OBama declarar que OSama Bin Laden estava morto, confesso que me diverti, afinal isto era óbvio demais. OSama já está morto há muito tempo. Morto na imprensa, na opinião pública e na cabeça de muitas pessoas. Mais uma vez,  sem deixar de notar a ironia de tudo isso, devo dizer que é ao menos engraçado o fato de que, até a declaração da morte do “terrorista” islãmico, OBama também estava morto. Morto politicamente. E é exatamente por isso que o império norte-americano resolveu, mais uma vez, construir uma mentira mal explicada, superficial e facilmente refutável para enterrar de uma vez por todas a figura nefasta que atormentou e tirou o sono de todo o ocidente por mais de uma década. Com OSama morto, a democracia americana vingada e as almas das pobres criaturas mortas pelo maior ataque de falsa bandeira da história da humanidade finalmente encontrando paz, OBama agora tem novamente popularidade suficiente para almejar uma reeleição. E mais do que isso, pode renovar seu discurso e procurar novos vilões, como Khadafi por exemplo. A nós, cabe fazer apenas mais duas perguntas: Podemos afirmar que vivemos em uma democracia, uma forma de governo ideal, onde as informações a respeito do que acontece no mundo, por exemplo, são claras? Um governo que se utiliza de estratagemas sórdidos, anacrônicas mentiras cinematográficas e de omissão de informações pode se dizer realmente democrático? Pensemos a respeito.

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