Tag Archives: Cinema

Esquerda em Hollywood, part I: Os “300” de Zizek, ou, os dois lados da ideologia… por Murilo Milek.

Tudo bem, eu confesso! Esse texto é um texto fingido. Como ultimamente eu tenho falado muito sobre política, e tenho usado muito o Zizek como referencia, dessa vez eu resolvi mudar; mas é uma mudança aparente. Eu vou fingir que vou falar de cinema, mas vou falar de política, e sim, vou usar o Zizek como referência – mais especificamente o texto “A verdadeira esquerda de Hollywood”, que esta no livro “Em Defesa das Causas Perdidas” (Boitempo) –, pelo menos de início, porém, de maneira mais crítica que o de costume. Outra peculiaridade desse texto é que ele será dividido em 3 partes, isso porque ele ultrapassa o formato aceito pela maioria dos leitores de blog por aí – ao que parece, a preguiça intelectual não se limita aos “telespectadores” de vlogs.

“No século V a.C., uma superpotência global estava decidida a levar a verdade e a ordem a dois estados considerados terroristas. A superpotência era a Pérsia, incomparavelmente rica em ambição, ouro e homens (e por que não, em tecnologia também). Os estados terroristas eram Atenas e Esparta, cidades excêntricas de uma região atrasada, pobre e montanhosa: a Grécia.”* Com essa citação Zizek começa a chamar a atenção ao paralelo claro da história com nossa atualidade – a gerra entre EUA e o Oriente não-alinhado –, ele começa, a partir de então, a mostrar porque considera o filme “300”(2007), de Zack Snyder, como o retrato possível de uma “verdadeira esquerda de Hollywood.” Segundo ele, as principais armas da Grécia pobre e atrasada contra o Império rico e desenvolvido dos persas foram a disciplina e o espírito de sacrifício; citando Badiou, ele concorda que precisamos (nós, a esquerda subdesenvolvida) sim de uma disciplina popular como forma de organização, e que dê capacidade ao povo para agir em conjunto. Preocupado com a ação política na atualidade, o autor aponta que chegou a hora dela (a esquerda) se (re)apropriar desses valores – disciplina e espírito de sacrifício – pois não há nada de inerentemente fascista neles, como a ideologia permissiva hedonista dominante tenta fazer parecer. Voltando ao filme, um ponto que joga água no moinho de Zizek, é o modo como o Rei rejeita a mensagem do oráculo e parte para a guerra: os sacerdotes, a religião no filme, são representados como “restos de um tempo anterior à saída de Esparta da escuridão; restos de uma tradição sem sentido.” Além disso, a luta grega é definida no final do filme como: “contra o reinado da mística e da tirania; rumo ao futuro brilhante”; definido como o domínio da liberdade e da razão; o que soa, segundo Zizek, como o programa básico do iluminismo, “até com um toque comunista!”, e porque não, ateísta. Por fim, o autor chama a atenção, buscando apoio histórico, para outros “radicais igualitários” que admiravam e mantinham vivo, de certa forma, o legado espartano; como Rousseau e os Jacobinos, além de Trotsky e outros.

O problema desse texto de Zizek é um tipo de problema, curiosamente, zizekiano. Concordo com a argumentação de Zizek, pelo menos ele escolhe bem os pontos de defesa de sua tese e são pontos suficientes para se dar crédito à ela. O problema do texto reside no fato de que o autor dispensa muito rapidamente e sem dar a devida atenção, características essenciais da sociedade Espartana: como o “totalitarismo”, a escravidão e a prática assassina de usar as populações mais fracas, que viviam perto de Esparta, para treinar suas tropas – o filósofo nos diz que há um “âmago emancipatório” na disciplina espartana que sobrevive a tudo isso, mas não trata do que seria esse âmago. O problema de se ignorar tudo isso sem o devido exame é que são, justamente, características essenciais de Esparta; assim, a impressão que o autor passa é de querer uma Esparta sem Esparta, ou elogiar uma Esparta nem tão espartana assim; isso é, Zizek acaba caindo no mantra pós-moderno do qual ele mesmo é um dos maiores críticos: a coisa sem a coisa, a des-substancialização promovida pela ideologia dominante. O esforço do autor em se “evitar de jogar o bebê com a água suja do banho” é valido, mas produz essa sensação de distorção ideológica que ele mesmo chama a atenção em outros momentos e critica.

Outro aspecto que se pode criticar do texto é de que os valores defendidos – disciplina e espírito de sacrifício – são valores de guerra, e que portanto, para a conjuntura atual, eles seriam de maior interesse para os países em guerra, ou em eminência de guerra, com o Império Capitalista, mas que porém pouco serviriam à esquerda de países ocidentais (alinhados); para esses, o texto vale mais como um apontamento histórico para a constituição sólida de um passado; uma história dos valores de esquerda; e muito pouco para uma prática de ação política atual. Sem dúvida esses valores e esse programa descritos pelo autor são importantes para a defesa de um ideário igualitário, porém, ao tomar o filme, e Esparta, como exemplos, o autor se esquece de que o que aquela sociedade fez foi defender valores já constituídos daquela forma, e não lutar para implementar esses valores, que é o problema da ação política de esquerda no ocidente. Portanto, se faz necessário, um empreendimento “pré-espartano”, por assim dizer, para o texto de Zizek e para a ação política de esquerda no Ocidente, a fim de se preparar o terreno para que esses valores possam ser retomados.

É possível encontrar no cinema exemplos que deem conta desse empreendimento? Isso é, quais filmes representariam melhor uma “esquerda de Hollywood”? O próximo texto tentará defender que “Clube da Luta”(1999), de David Fincher, é um óbvio exemplo dessa esquerda, e que sim, da conta do tal empreendimento….

*Tom Holland, “O Fogo Persa”, in. Zizek, “Em Defesa das Causas Perdidas/ A verdadeira Esquerda de Hollywood”(Boitempo; 2011); parenteses nossos.

8 comentários

Filed under cultura, opinião

Quase que magicamente… Por Murilo.

“Alô criançada o Opinião chegou!” Trocadilhos bestas à parte, o texto de hoje será exatamente sobre as crianças desse mundão; esses serzinhos infantes, pueris, ingênuos e inofensivos. Será?

Recentemente tive um rápido contato com um texto interessante de um pensador chamado Neil Postman, “O Desaparecimento da Infância.” Postman foi um crítico ferrenho da submissão da cultura à tecnica, e também grande estudioso das relações entre mídia e educação. Segundo ele, a infância é uma criação moderna, que surge junto com o aparecimento da imprensa e com a universalização da educação. Antes desses eventos as crianças eram vistas como “mini-adultos”, assim que tinham condições físicas suficientes já acompanhavam os adultos em seus trabalhos, já tinham contato com conversas adultas, já presenciavam, sem maiores restrições, cenas de violência e de sexo. E agora, na nossa pós-modernidade¹, vencida a era mecânica das telecomunicações e da educação, quando da explosão da era digital e do advento da internet, momento em que tempo e espaço se tornam meros detalhes no acesso à informação, enfim, época em que a ciência e a tecnologia se arrogam a ponta da evolução do entendimento humano; vemos as crianças de novo, como na época pré-moderna, com livre acesso a todo tipo de conteúdo adulto, terror, horror, brutalidade, violência, sexo, enfim, a curiosidade é morta com um clic. Fato que joga muita água no moinho de Postman; um exemplo forte de como a técnica ajuda a universalizar a barbárie.
A coisa fica ainda mais séria quando a gente vê pessoas cheias de boa intenção aumentando o problema com ações “pouco pensadas”, para ser educado. É o caso do movimento – que conta com um título ótimo, diga-se de passagem – “Faça amor, não faça pornô.” Trata-se de um movimento criado por uma mulher que começou a sentir os efeitos dessa universalização da ignorância. Ela constatou, de maneira radicalmente empírica, que seus parceiros sexuais mais jovens obedeciam um padrão de péssimo gosto na hora da transa – truculência, falta de romantismo, de compreensão, etc. A conclusão retirada de sua pesquisa de campo é a de que os homens agem assim porque estão se educando sexualmente do modo mais errado possível, e cada vez mais cedo: por meio da indústria do cinema pornô, aonde, sabidamente, a mulher é reduzida a uma coisa com a qual o homem se masturba – uma boneca inflável de carne e osso – e que com a internet, se tornou cada vez mais acessível. Eis o texo na íntegra – http://revistatpm.uol.com.br/revista/112/reportagens/faca-amor-nao-faca-porno.html – Gostaria de chamar a atenção para um dado interessante do texto: Um terço dos garotos ingleses com 10 anos de idade já tiveram acesso à conteúdo pornográfico. Muitas vezes antes mesmo do primeiro beijo eles já viram uma dupla penetração, e pior, com uma atriz pornô que fingia um prazer absurdo, mesmo com – ou por causa da, muitas vezes – dor. Isso tudo torna, de fato, o movimento muito legítimo, isso é: Jovem², o que você assiste em “Brasileirinhas” não é a realidade, se animal!
Muitas perguntas poderiam ser feitas a partir daqui, desde por que as atrizes pornôs se sujeitam a esse tipo de tratamento e a passar essa imagem, até por que diabos essa tiazona da entrevista insiste em sair com esses moleques imbecis. Mas o problema nessa história toda, e que eu gostaria de chamar a atenção, é a solução apresentada pela publicitária: criar um cinema pornô “mais realista” e que inclua a visão “feminina e feminista”. Quer dizer, se o problema é o aceso à pornografia por crianças cada vez mais novas e a influência que isso acarreta na formação delas, aumentar a quantidade de filmes pornográficos e criar um novo sub-gênero de filmes não vai ajudar a reduzir o problema. Por mais que se trate de um gênero “mais justo” de sacanagem, a boa e velha sacanagem clássica não vai acabar. E vale lembrar que a maioria dos homens procuram filmes pornôs para se masturbar e não para ter aulas sobre romantismo, e assim eles vão continuar a produzir e assistir os filmes clássicos. O máximo que esse novo gênero vai conseguir é aumentar a atração de mulheres por pornografia. Mas o problema persistirá. Mais uma vez vale lembrar aquela velha máxima de Gahndi sobre a violência: “Não dá para combater a escuridão fazendo mais escuridão.”³

Quando é que as pessoas vão entender que a internet é um espaço público, assim como uma praça pública? Quer dizer, se você não permite, racionalmente, que seu filho fique fazendo o que quer, na hora que quer, livremente, sem supervisão, em uma praça pública, por que raios permite então que ele faça o que quer na internet? Um criança não precisa de um computador pessoal de uso exclusivo em seu quarto, não precisa de um laptop, não precisa de um celular com acesso à internet, nada disso, em caráter privado, contribui para a formação dela; e é bobagem pensar que aqueles programas de “controle de conteúdo” podem substituir a supervisão paterna, pois se até um macaco treinado consegue desbloquear aquilo imagine uma criança de 11 anos que vive nessa “era digital” há… 11 anos! E, pior, se o macaco e a criança que, via de regra, não são mal-intencionados e sim curiosos, conseguem desbloquear, imagine um pedófilo, que além de tudo é mal-intencionado. Portanto, acredito que a verdadeira campanha, que além de legítima seria eficiente, é: “Não de a uma criança algo de que ela não precisa e que pode eventualmente lhe prejudicar!”4 Confesso que não acredito no sucesso de uma tal campanha por dois motivos: primeiro pelo título horrível, que traça o exato corte entre eu e a tiazona lá, ela é publicitária e eu pretenso filósofo. E segundo, e mais importante,a campanha prega a restrição ao consumo, e nossa sociedade se mata mas não para de comprar.

Para finalizar gostaria de colocar uma pergunta: de onde é que vem o impulso “anti-edipiano” pós-moderno de acreditar que as crianças estão por aí sem pai nem mãe? E mais, será que além de regredirmos moralmente, transformando as crianças de novo em “mini-adultos” pré-modernos, regrediremos cientificamente a ponto de acreditarmos de novo na geração espontânea? Na idade média existia uma famosa receita para se produzir ratos, era só misturar num lugar pouco movimentado e escuro, panos velhos e restos de comida, que os ratos brotavam desses materiais – acreditava-se que a vida pudesse vir do não-vivo. Qual seria a receita atual para a formação de um a pessoa? Dois seres humanos se unem, transam, e de repente, não mais que de repente, um mini-adulto vem ao mundo e com o passar do tempo ele, do nada, sem a interferência das pessoas que o trouxeram ao mundo, ele se torna uma pessoa, quase que magicamente.

1 – Que de “pós” não tem lá tanto assim, é verdade, está mais para “Hiper-Modernidade”.

2 – Nada é melhor para fazer alguém se sentir muito velho do que dar um conselho, e pior, começar esse conselho com a palavra “Jovem”!

3 – Se não for exatamente isso, é coisa parecida.

4 – Por isso não fiz publicidade e propaganda, sou péssimo com títulos.

10 comentários

Filed under bom gosto, Filosofia de Butéco (Botéco), opinião

Monty Python’s e os monólogos coletivos… por Murilo!

“Aos surdos os que dançam parecem loucos”

Johann Wolfgang von Goethe

De repente surgem dois sujeitos ao longe, no que aparentemente seria o ano de 932 D.C, um cavalgando (sem cavalo) e outro, mais atrás, batendo dois cocos e com isso imitando o som de um cavalgar. O primeiro veste-se de maneira nobre e carrega somente uma espada, o segundo está coberto de panos brutos e repleto de carga nas costas. Essa é a primeira imagem da primeira cena do filme Monty Python’s: Em Busca do Cálice Sagrado (O Santo Graal) de 1975. A primeira impressão do espectador é: “são dois malucos fazendo algo sem sentido”.

Na sequência os dois se deparam com um castelo, do alto um sentinela os autua e pergunta por quem vem, o nobre da um passo a frente e se identifica como “Arthur, rei dos Britânicos, que derrotou os Saxões; soberano de toda Inglaterra” e diz que esta cavalgando pelo reino desde há muito tempo para encontrar bravos cavaleiros que queiram se juntar a sua corte em Camelot. O guarda retorna: “Cavalgando? Vocês estão usando cocos!” Eis a segunda impressão do espectador: “O guarda não é maluco, esta tentando restaurar o sentido ao Rei.” Doce Ilusão. N sequência o sentinela pergunta onde o eles encontraram aqueles cocos. A resposta é vaga: “Encontramos!” E o guarda segue exclamando que encontrar um coco naquela região era absurdo, afinal coqueiros são arvores nativas de climas tropicais e o clima da Inglaterra é temperado. Daí para frente o sentinela e o Rei começam um breve diálogo (dos mais geniais da história do cinema – a seu modo) sobre a possibilidade de uma andorinha carregar um coco durante seus voos migratórios de regiões tropicais. Cansado dessa conversa sem nexo, o Rei tenta reimpor o sentido de sua visita exigindo que o guarda comunique seu Sr. sobre a visita real. O guarda simplesmente ignora o Rei e continua divagando sobre a possibilidade de andorinhas carregarem cocos – agora com a ajuda de um outro guarda que entra em cena. O fato é que os dois núcleos de personagens perdem o contato e findam o diálogo apesar de continuarem a falar uns com os outros, promovem um verdadeiro “monólogo coletivo”¹. Vendo a esterilidade da situação, o Rei abandona a cena e simplesmente deixa os guardas falando sozinhos; nesse momento a câmera se mantem filmando o vazio deixado pelo Rei enquanto os guardas não para com a discussão – é assumido o ponto de vista do Rei. Temos aqui a terceira impressão da cena: “Os guardas são loucos, ignoram o Rei e sua missão e se mantêm numa conversa sem sentido algum!” A cena acaba – um tempo – quarta impressão sobre a cena: “São todos loucos! Nada faz sentido!”

Esta no movimento da cena toda genialidade de Monty Python’s. É promovida uma verdadeira dança entre espectador e sentido, em que os criadores do filme jogam o espectador para lá, depois mudam o sentido para cá, e assim por diante até que o espectador se solta na compreensão da cena, e de repente, se vê dançando sozinho, pois não há mais sentido em parte alguma.

holy_grail

1 – termo chupinhado de: M. M-Ponty – Psicologia e pedagogia da criança – Martins Fontes – São Pulo, SP. 2006!

6 comentários

Filed under cultura, Filosofia de Butéco (Botéco), opinião

Cinema: tecnologia e arte. Parte IV: Imbricação instigante…Finalmente: FIM.

Para finalizar gostaria de chamar a atenção para a situação única que envolve o filme “Matrix”. Artístico, reflexivo e comercial; e a tecnologia funciona como uma amalgama que fez essa mistura dar certo. Toda a produção do filme é soturna, a realidade que começa dinâmica se torna atordoadoramente indiferente, há uma sobriedade impregnante nos cenários e uma estática que passa a idéia de controle total sobre a falsa realidade; nesta as interpretações são quase mecânicas, as emoções só aparecem no rosto dos atores dentro da nave nabucodonosor – a verdadeira realidade. Toda a história do filme se passa em torno de um personagem que é retirado da pseudo-realidade que vivencia, transportado para o assustador mundo real em guerra onde humanos são matriz energética para máquinas – criadas pelos mesmos humanos – e que perseguem os últimos humanos insurgentes, diante da escolha entre o “real” e o verdadeiro, Neo escolhe lutar pela verdade; essa trama parafraseia, até certo ponto, o “Mito da Caverna” de Platão, e é possível partir dela para pensar a relação entre o homem e a tecnologia cada vez mais autônoma que ele cria, ou então fazer uma comparação com a mitologia/história cristã, enfim, muitas reflexões são possíveis e cada um com a sua loucura. Mas um dos pontos interessantes que eu queria salientar aqui é o modo como a tecnologia usada no filme contribui artisticamente para a obra: a técnica de filmagem fazendo as câmeras ‘rodarem’ em torno da cena parada trazem a todo momento a idéia de perspectivismo a tona, criando assim um correspondente intuitivo para o pensamento de que a realidade pode ser vista de várias formas, e que ela e a verdade nem sempre coincidem.

“Matrix” é um daqueles filmes que representam o que existe de mais essencial do cinema: o velho jargão da “Imagem em Movimento”. Mesmo quando a cena congela ela não para. A realidade também é mais ou menos assim, mesmo quando aquilo que se tem por certo sobre ela é estabelecido, algo outro ainda pode sobre ela reclamar a verdade.

4 comentários

Filed under bom gosto, cultura, opinião

Cinema: tecnologia e arte. Parte II: Ensaios de respostas…

De fato as últimas reflexões não respondem às perguntas geradas, apenas e tão somente deram sua razão de ser, e ainda de maneira rápida. A melhor maneira que vejo de ensaiar uma reposta é pensar na necessidade das relações: sem as distribuidoras filmes como “A Fita Branca” não chegariam aqui; nem “O Cheiro do Ralo” sairia daqui; de fato, filmes como “Crepúsculo” também não chegariam aqui, e me parece que o problema com a indústria começa por aí. A indústria investe pesado na produção em massa de filmes bobos, bestas, rasos, feitos para se vender camisetas, pipocas, posteres e livros igualmente bobos, bestas e rasos; são filmes de dar vergonha de assistir para qualquer um que veja no cinema algo a mais do que vê numa cruzadinha, um passa tempo. E só dificilmente a indústria investe em filmes artísticos, e na maioria das vezes que isso acontece são pequenas indústrias e pequenas produtoras. Há os que dizem que isso é proposital, que a grande indústria quer mais é se aproveitar para emburrecer o povo e continuar enfiando goela a baixo essas porcarias. Porém, pensemos a situação de modo diferente: se a grande indústria empenhar-se em produzir e distribuir um filme como “O Cheiro do Ralo” na mesma escala em que ela o faz com um filme como “Avatar”, ela conseguiria formar um público capaz de a sustentar enquanto grande indústria? Acredito que não. Daí decorre o fato de ela se setorizar – em filmes de entretenimento meramente ilustrativos e filmes artísticos, por exemplo – a fim de atender as demandas pré-existentes na sociedade. Sendo assim, a indústria cinematográfica, assim como qualquer ente do capitalismo, joga o jogo de acordo com a situação, se houvesse uma mudança drástica na sociedade a ponto de a demanda de filmes artísticos ser maior que a de filmes bestas, a indústria se adaptaria. O problema então nesse caso é político. Para se ter mais filmes artísticos é preciso se formar um público que demande mais desses filmes; isso começaria em casa com incentivo da família, passaria por uma formação escolar decente em artes e terminaria numa organização desse grupo para dar voz a essa demanda. Se a indústria investisse pesadamente em filmes artísticos hoje, com a formação atual de seu público ela faliria e faria um mal muito maior à arte do que um bem. O Cinema nasceu num seio de uma sociedade industrial e burguesa e tem ligações tão essenciais com essa sociedade que, infelizmente, é difícil pensar um sem o outro. Aqui cabe colocar em questão a pirataria e se ela não seria uma forma de cortar essa ligação essencial, mas isso será tema do próximo texto.

Deixe um comentário

Filed under bom gosto, cultura, opinião

Ameaça… Por Murilo The Kid…

Esse texto é o primeiro de quatro reflexões minhas sobre a relação entre tecnologia e arte no cinema. Dividi o texto original principalmente por dois motivos: 1 – ele ficou muito extenso para o formato do blog; e 2 – É uma tentativa desesperada de ganhar tempo para que o Tosco entre em férias e volte a escrever para cá, ó pá. Caso isso não se cumpra eu postarei a letra e o vídeo de By My Self, interpretada por Celine Dion, sacaram?

 

Cinema: tecnologia e arte. Parte I: Perguntas…

Existem duas coisas que se devem levar em consideração quando se fala em cinema 3D e a suposta revolução que ele causou; uma é a indústria cinematográfica e outra é a arte ou o cinema em si. A primeira é quem investe nos filmes, quem tem os meios de produção e veiculação dos filmes, quem retira a maior parte dos lucros dos filmes, enfim, é para quem o filme é um produto. A segunda é uma realização de uma força criadora, uma obra de arte, são os movimentos artísticos, os estilos, as formas de pensar dos roteiristas, a criatividade na captação das imagens do diretor, a atuação do ator, enfim, tudo que permite à obra existir atuante não mais enquanto ideia.

Os entusiastas de todas as tecnologias novas criadas para o cinema sempre usam o mesmo termo para designar esses adventos: “revolução”. Dizem eles: ‘o 3D é uma revolução’, ‘Matrix foi uma revolução’, ‘o cinema colorido foi uma revolução’, etc… Acredito que tais pessoas não sabem a diferença entre revolução e inovação. Todas essas parafernálias tecnológicas são inovações, e nenhuma delas representam revoluções para o cinema. Revolução, arrisco aqui um conceito sem a devida profundidade reflexiva, significa uma quebra de paradigma, um evento que transforma todo a forma de olhar para o passado e determina todo o futuro dentro de um âmbito. E nenhuma inovação tecnológica representou isso. Continua-se a fazer filmes fantásticos em P&B, pouquíssimos filmes usam as técnicas de Matrix, e a maioria dos que usam, o fazem para parodiar o próprio Matrix; e o 3D chega a ser nocivo, pois só é usado para fins comerciais. Ainda não se teve nenhum ganho artístico com o 3D e pode até ser limitação da minha parte, mas acredito que vai demorar para se conseguirem dar uma significação artística a ele.- Talvez num possível remake de 2001: Uma Odisséia no Espaço, de Stanley Kubrick, a viagem ao infinito em 3D faça algumas pessoas vomitarem na sala, mas até lá… – Enfim, a despeito de toda técnica que tenta cada vez mais reduzir o cinema a um mero entretenimento de massas, tendo como pano de fundo a ideia de que uma obra de arte é apenas uma obra de arte e que deve ser experienciada somente durante o tempo que o filme dura, que começa na primeira cena e termina na última, o cinema de arte ainda sobrevive; ainda temos filmes como “A Fita Branca”, “Um Homem Sério”, “O Cheiro do Ralo”, e muitos outros sendo produzidos.

Feitas essas ressalvas, algumas perguntas surgem: Qual a relação entre a indústria cinematográfica e os filmes não industriais, isso é, até que ponto a existência destes depende daquela? E mais, não se teve nenhum ganho artístico com as inovações tecnológicas, isso é, elas servem meramente à indústria? A primeira pergunta se põe porque os três filmes citados por último, por exemplo, dependem da indústria em algum caso; “A Fita Branca” é um filme alemão visto aqui no Brasil, mérito da distribuidora. “O Cheiro do Ralo” é um filme pouquíssimo popular (no sentido de ser um produto para massa), feito no Brasil, por uma produtora pequena, mas que é muito bem filmado, e bem distribuído – concorrendo a prêmios internacionais – mais um mérito do trabalho industrial; e o “Um Homem Sério”, apesar de contar com uma direção famosa, é um filme de roteiro difícil, sem nenhum ator famoso, e com uma linearidade de sentido nada comercial, mas que é distribuído por uma grande empresa estadunidense. A segunda pergunta cabe se pensarmos pelo seguinte lado; em “Matrix” aquele efeito de câmera fantástico, em que determinadas cenas são congeladas e o “espectador gira” em torno do ator ou do objeto em cena, não cumpre simplesmente o papel de impressionar o telespectador, como uma criança com um truque de mágica, mas ele vem reforçar a tese de perspectivista do filme, ou ainda, a apreensão de cada aspecto da imagem em cena para formar a ideia perfeita situada num ‘mundo das ideias’. Porém, acho difícil que esse efeito se produza dessa mesma maneira em outro filme qualquer que não queira transmitir a mesma ideia – a prova disso são os outros dois “Matrix”, meramente comerciais. No caso do cinema em cores e do P&B; hoje, optar por filmar me P&B é um efeito artístico, o próprio já citado “A Fita Branca” é um exemplo: o P&B remete às origens do cinema, e a história trata das origens do nazismo, portanto o P&B é um reforço na ideia de retorno às origens da questão. O mesmo acontece com filme que usam P&B e uma outra cor escolhida pelo diretor para dar relevo à uma cena ou a um objeto, ou se mescla colorido e P&B com intensão parecida; de Tarantino a Wim Wenders, passando por Robert Rodriguez , esse efeito é usado e bem usado. Nesses casos a tecnologia vem compactuar com a arte, ou melhor, ser incorporada pela arte, participando da ideia de que um bom filme não pode ser só uma mera peça de divertimento mas também e acima de tudo é uma obra de arte, e como toda obra de arte, qualquer elemento que faça parte dela não pode ser meramente ilustrativo, mas compactua com o sentido da obra.

Deixe um comentário

Filed under bom gosto, cultura, opinião

A estética da fome, ao vivo. Por Lord Milek, do Abranches.

“(…) um artista, um filósofo, devem não apenas criar e exprimir uma ideia, mas ainda despertar as experiências que a enraizarão nas outras consciências.”

Maurice Merleau-Ponty, em “A Dúvida de Cézanne”.

Essa semana tive o prazer de ser atingido por um texto do antigo e genial cineasta brasileiro Glauber Rocha chamado “Por uma Estética da Fome”. O texto é apresentado como uma Tese-Manifesto datada de 1965, ele discorre de maneira crítica sobre o cinema brasileiro da época, defendendo o Cinema Novo – portador da tal estética da fome – e criticando o que o autor classificou de cinema “digestivo” – produzido a partir do golpe de 1964 e que mostrava o Rio de Janeiro rico, bonito, chique, estiloso e vazio de significado, tal qual uma novela global de Manuel Carlos. Mas o que mais me interessou no texto foi a relação feita pelo autor, a todo momento, entre cinema e política. Talvez a tese do texto possa ser resumida assim: um filme não se encerra nos limites da arte, mas contamina a sociedade, sobretudo o plano político; isso é deixado bem claro no segundo parágrafo do texto.

Pois bem, a anos temos assistido um aumento significativo na produção de filmes sobre a vida nos morros cariocas, sobretudo seu aspecto marginal ligado ao tráfico de drogas. Os três primeiro que me veem à cabeça de modo instantâneo são : Cidade de Deus, de Fernando Meirelles; Tropa de Elite 1 e 2, de José Padilha. Os três têm seu roteiro escrito por Bráulio Mantovani. Obviamente devem existir mais filmes , porém, com certeza esses são os mais bem sucedidos, mercadologicamente falando, e os que alcançaram maior público e destaque.

Até que ponto esses filmes influenciaram o meio político? Difícil precisar. Porém, vivenciamos, em tempo real, uma batalha das mais importantes da história entre Estado e tráfico de drogas – inclusive, se você ligar a TV neste exato momento, em qualquer canal de notícias, eu garanto, vão estar falando sobre a ‘guerra do Rio’. E nessa batalha podemos observar em diferentes níveis: organização do Estado, aplicação dos policiais e apoio popular à ação da polícia. Três elementos essenciais na luta contra o crime e que são impressionante e vergonhosamente novos no Brasil. Afirmo, e exemplos históricos soviéticos, nazistas e liberais-hollywdianos – que em essência diferem muito pouco – que o cinema, e as artes em geral, contribui pesadamente para a realização dessa mudança. Por que outro motivo um soldado com um salário de fome se aplicaria tanto no combate se não pelo reconhecimento quase que como herói dado ao soldado honesto nos ‘Tropas de Elite’?; por que outro motivo a classe média intelectual (ou seria melhor dizê-lo “classe mérdia intelectualóide”) passaria a apoiar ações duras contra bandidos que ela defendia e sustentava baseada em uma idéia rasa e enlatada de ‘direitos humanos’ não fosse pelo xeque em que são postas essas posições em filmes como os três citados?; Por que outro motivo os governos destinariam tanta verba e atenção a essas comunidades não fosse pelo potencial de votos que o bem estar dessa população lhe gera, tema comumente explorado pelos filmes citados.

Não que eu seja inocente a ponto de acreditar que os filmes sejam as causas motoras dessas ações, nem que se pode resumir aos filmes os interesses que determinam essas ações, e que, consequentemente, as artes podem mudar o mundo. Mas seria inocência, por outro lado, acreditar que o cinema e as artes não são um dos motivos mais fortes nesse despertar – ainda que pontual – de consciência que podemos testemunhar. Uma das ideias mais fortes a serem combatidas sobre o assunto “arte e formação de um povo”, é de que a obra de arte é apenas uma obra de arte. Filmes como esses, ou movimentos artísticos como o ‘Cinema Novo’ de Glauber Rocha e cia, não são nunca apenas isso. São reflexos, reflexões, ensinamentos, laboratórios, experiências, criadas ou imaginadas, que permitem a iluminação – ou o obscurecimento, se má intencionadas – dos problemas e modos de lidar com esses problemas de um povo, cabe se educar para perceber esses aspectos quese sempre sutis.

4 comentários

Filed under cultura, Filosofia de Butéco (Botéco), opinião