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Esquerda em Hollywood, part I: Os “300” de Zizek, ou, os dois lados da ideologia… por Murilo Milek.

Tudo bem, eu confesso! Esse texto é um texto fingido. Como ultimamente eu tenho falado muito sobre política, e tenho usado muito o Zizek como referencia, dessa vez eu resolvi mudar; mas é uma mudança aparente. Eu vou fingir que vou falar de cinema, mas vou falar de política, e sim, vou usar o Zizek como referência – mais especificamente o texto “A verdadeira esquerda de Hollywood”, que esta no livro “Em Defesa das Causas Perdidas” (Boitempo) –, pelo menos de início, porém, de maneira mais crítica que o de costume. Outra peculiaridade desse texto é que ele será dividido em 3 partes, isso porque ele ultrapassa o formato aceito pela maioria dos leitores de blog por aí – ao que parece, a preguiça intelectual não se limita aos “telespectadores” de vlogs.

“No século V a.C., uma superpotência global estava decidida a levar a verdade e a ordem a dois estados considerados terroristas. A superpotência era a Pérsia, incomparavelmente rica em ambição, ouro e homens (e por que não, em tecnologia também). Os estados terroristas eram Atenas e Esparta, cidades excêntricas de uma região atrasada, pobre e montanhosa: a Grécia.”* Com essa citação Zizek começa a chamar a atenção ao paralelo claro da história com nossa atualidade – a gerra entre EUA e o Oriente não-alinhado –, ele começa, a partir de então, a mostrar porque considera o filme “300”(2007), de Zack Snyder, como o retrato possível de uma “verdadeira esquerda de Hollywood.” Segundo ele, as principais armas da Grécia pobre e atrasada contra o Império rico e desenvolvido dos persas foram a disciplina e o espírito de sacrifício; citando Badiou, ele concorda que precisamos (nós, a esquerda subdesenvolvida) sim de uma disciplina popular como forma de organização, e que dê capacidade ao povo para agir em conjunto. Preocupado com a ação política na atualidade, o autor aponta que chegou a hora dela (a esquerda) se (re)apropriar desses valores – disciplina e espírito de sacrifício – pois não há nada de inerentemente fascista neles, como a ideologia permissiva hedonista dominante tenta fazer parecer. Voltando ao filme, um ponto que joga água no moinho de Zizek, é o modo como o Rei rejeita a mensagem do oráculo e parte para a guerra: os sacerdotes, a religião no filme, são representados como “restos de um tempo anterior à saída de Esparta da escuridão; restos de uma tradição sem sentido.” Além disso, a luta grega é definida no final do filme como: “contra o reinado da mística e da tirania; rumo ao futuro brilhante”; definido como o domínio da liberdade e da razão; o que soa, segundo Zizek, como o programa básico do iluminismo, “até com um toque comunista!”, e porque não, ateísta. Por fim, o autor chama a atenção, buscando apoio histórico, para outros “radicais igualitários” que admiravam e mantinham vivo, de certa forma, o legado espartano; como Rousseau e os Jacobinos, além de Trotsky e outros.

O problema desse texto de Zizek é um tipo de problema, curiosamente, zizekiano. Concordo com a argumentação de Zizek, pelo menos ele escolhe bem os pontos de defesa de sua tese e são pontos suficientes para se dar crédito à ela. O problema do texto reside no fato de que o autor dispensa muito rapidamente e sem dar a devida atenção, características essenciais da sociedade Espartana: como o “totalitarismo”, a escravidão e a prática assassina de usar as populações mais fracas, que viviam perto de Esparta, para treinar suas tropas – o filósofo nos diz que há um “âmago emancipatório” na disciplina espartana que sobrevive a tudo isso, mas não trata do que seria esse âmago. O problema de se ignorar tudo isso sem o devido exame é que são, justamente, características essenciais de Esparta; assim, a impressão que o autor passa é de querer uma Esparta sem Esparta, ou elogiar uma Esparta nem tão espartana assim; isso é, Zizek acaba caindo no mantra pós-moderno do qual ele mesmo é um dos maiores críticos: a coisa sem a coisa, a des-substancialização promovida pela ideologia dominante. O esforço do autor em se “evitar de jogar o bebê com a água suja do banho” é valido, mas produz essa sensação de distorção ideológica que ele mesmo chama a atenção em outros momentos e critica.

Outro aspecto que se pode criticar do texto é de que os valores defendidos – disciplina e espírito de sacrifício – são valores de guerra, e que portanto, para a conjuntura atual, eles seriam de maior interesse para os países em guerra, ou em eminência de guerra, com o Império Capitalista, mas que porém pouco serviriam à esquerda de países ocidentais (alinhados); para esses, o texto vale mais como um apontamento histórico para a constituição sólida de um passado; uma história dos valores de esquerda; e muito pouco para uma prática de ação política atual. Sem dúvida esses valores e esse programa descritos pelo autor são importantes para a defesa de um ideário igualitário, porém, ao tomar o filme, e Esparta, como exemplos, o autor se esquece de que o que aquela sociedade fez foi defender valores já constituídos daquela forma, e não lutar para implementar esses valores, que é o problema da ação política de esquerda no ocidente. Portanto, se faz necessário, um empreendimento “pré-espartano”, por assim dizer, para o texto de Zizek e para a ação política de esquerda no Ocidente, a fim de se preparar o terreno para que esses valores possam ser retomados.

É possível encontrar no cinema exemplos que deem conta desse empreendimento? Isso é, quais filmes representariam melhor uma “esquerda de Hollywood”? O próximo texto tentará defender que “Clube da Luta”(1999), de David Fincher, é um óbvio exemplo dessa esquerda, e que sim, da conta do tal empreendimento….

*Tom Holland, “O Fogo Persa”, in. Zizek, “Em Defesa das Causas Perdidas/ A verdadeira Esquerda de Hollywood”(Boitempo; 2011); parenteses nossos.

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A Mensagem básica… Por Murilo!

É só não ligar a tv

 

A Rede Globo de Comunicações nunca foi uma entidade a ser respeitada por qualquer pessoa com o mínimo de senso crítico saudável, porém, ultimamente tem se esforçado muito em baixar o seu próprio nível; o que pensávamos ser impossível. Desde a cobertura esportiva e jornalística que nos brinda todos os dias com o mais clássico dos paradoxos da ideologia: o ser claro e indireto – as tendencias políticas e regionais estão lá para todo mundo ver¹, mas que são negadas em um discurso direto – até a produção de peças de “entretenimento”, que conseguiram até ter alguma qualidade a ser reconhecida em minisséries do passado; tudo tem se tornado, ou pelo menos se revelado, o mais alto dos desserviços à cultura nacional.
Dadas as exigências do formato de um blog, vou me concentrar somente em algumas das mensagens básicas das últimas produções globais. Primeiro, o caso do pseudo-estupro do BBB (Big Bosta do Bial). Primeiro se anunciou que um dos participantes infringiu uma regra do programa, a regra era “Não farás sexo!”, como se expulsou só um participante, subentende-se que a outra envolvida na história não consentiu, e portanto, foi estuprada; o que foi desmentido pela participante em depoimento; tudo muito estranho, e várias questões surgem: “Foi um golpe de marketing do Bial?”, “um golpe estratégico do moçoila para expulsar o concorrente?”, “uma tentativa de conseguir um patrocínio da Jontex?”, “Por que a moça, que assumiu o consentimento da gratinada, não foi expulsa também?” Mas minha questão aqui é a seguinte: confina-se uma série de casais, todas pessoas atraentes, faz-se uma série de festas na casa regadas à champanhe, lap dance e pouca roupa, e ainda, colocam entre os participantes uma produtora de filmes eróticos e um homossexual, que por seu trato com a sexualidade são reprimidos pela sociedade, e que por conta desse caráter polêmico, geram assunto; há toda uma insinuação e um incentivo ao sexo, e um esforço por trazer à tona tensões sexuais, porém, não se pode fazer sexo, isso é, vende-se o espetáculo da intimidade alheia mas veda-se o verdadeiramente íntimo; a mensagem básica aqui é mais um verso do mantra pós-moderno da coisa sem a coisa: é a realidade editada, a intimidade não íntima, a cerveja sem álcool, o sorvete sem gordura, o café descafeinado, o protesto sem violência, a revolução sem terror, enfim, a substância dessubstanciada que permite a tudo que é sólido se desmanchar no ar, como alguém já disse…
Outro caso claro de manipulação ideológica sem vergonha é a série “Dercy de Verdade”; o título já entrega o jogo. “Esqueça tudo que você ouviu falar sobre Dercy Gonçalves. Todos conheceram a “obra” de Dercy, mas nós da Globo à conhecemos além disso e vamos mostrar agora, ela mesma, de verdade!” Qualquer brasileiro com mais de 20 anos de idade sabe algo sobre Dercy Gonçalves, nem que seja só que ela era “A veia louca que falava palavrão no Faustão”; mas ela foi sim uma das mais “punks” e “porra-louca” atrizes desse país. Falava o que queria, quando queria, cagava para uma série de convenções sociais e, claro, soube usar isso em favor de seu bolso, o que se não é nobre, pelo menos lhe garante algum espaço para trabalho e alcance da sua mensagem, e além do mais, essa “falta de nobreza” revela mais sobre nossa sociedade do que sobre o caráter dela.  Porém, a imagem deixada por ela – “imagem” talvez seja o que de melhor um ator pode deixar à posteridade – era de uma mulher subversiva e autêntica, aliás, foi o que fez a Globo contratá-la e deixá-la na “geladeira” por quase toda sua vida. E a imagem era tão perturbadora que só o congelamento da véia e sua morte não foi suficiente para amaciar o travesseiro dos defensores da moral e dos bons costumes; era preciso dessubstanciar a imagem mesma! A mensagem básica aqui é: ela passou a vida inteira construindo e se apoiando numa imagem de porra louca subversiva, mas no fundo (isso é, na nova imagem que a globo montou), ela era uma mulher batalhadora apegada, ainda que a seu modo, aos valores da família e era um belo ser humano, eis a verdade sobre Dercy Gonçalves. Portanto, esqueçam sua velha imagem, e acomodem-se de volta em sua vidinha normal e “verdadeira”. Ou ainda, de forma mais atômica: “Esqueçam essa de subversão e voltem a pastar!”
Já no caso de “O Brado Retumbante” e da novela das nove a coisa é um pouquinho diferente. Trata-se do elemento sorte. A situação econômica do pobre só melhora por sorte e a situação política do país só pode melhorar na cagada.² Novelas nunca foram boas, mas sem dúvida “Fina Escrota” é a pior das que minha sogra, veladamente, me obrigava a ver. Ela toda é um pavor estético feito da colagem de esteriótipos patéticos. A mensagem básica é: melhorar de vida é ganhar dinheiro. Griselda já era moralmente bem formada, mas só se torna feliz quando ganha na loteria e foge da comunidade pobre para o condomínio de luxo. A novela é feita claramente para atingir a classe C emergente no país, e tudo se passa como se esta fosse composta desses esteriótipos ridículos e como se ela fosse emergente por pura sorte, e não por conta de seu trabalho e outras situações políticas e sociais que a Globo tenta a todo custo fingir que não existe.
O Brado Retumbante vai mais ou menos na mesma linha. O personagem central – uma mistura raríssima da ingenuidade da esquerda universitária, com a manipulabilidade de um Severino Cavalcanti, o discreto charme direitista ligth de um Aécio Neves e a pseudo-malandragem de um populista – vira presidente da república por sorte. Pode-se usar como desculpa para a caracterização bizarra do personagem uma possível imparcialidade mas a história revela o contrário. A mensagem básica aqui pode ser bastante variada: desde um lamento carpideiro do tipo “Ah se fosse um Aécio no lugar do Severino, a gente tinha dado um jeito no Lula.”, ou então uma dica “Ponham um Aécio lá que a gente da um jeito de acidentar a  Dilma e o Temer .” Minha mensagem eleita para o texto é a seguinte: o país pode melhorar (para Globo, é claro) mas não com o executivo que está aí! Aliás, como o nobre Zizek assombra todo esse texto, vale a pena citá-lo: “Na Fenomenologia do Espírito, Hegel menciona a “silente tecedura do espírito”: o trabalho secreto de mudança das coordenadas ideológicas, predominantemente invisíveis aos olhos do povo, que de repente explodem e pegam todos de surpresa.” E engordando essa  “silente tecedura do espírito” temos ainda a famigerada foto, que foi sucesso absoluto entre os conservadores e os mais babacas dos leitores do Estadão, da presidente Dilma sendo “atravessada” por uma espada militar em frente ao Palácio do Planalto; foto que revela o desejo oculto e o crescente ódio à democracia nos quadros conservadores do país, “não basta só derrubar o eleito, temos de matá-lo” pensa a elite. Mudança das coordenadas ideológicas ou mera coincidência? Bom, eu já passei da fase de acreditar em coincidências nesse nível…
Dia 25 de Janeiro foi eleito nas redes sociais como o dia sem Globo, pois bem, o que proponho é simples e direto, que todo dia seja um dia sem Globo, ou então, o que também é direto mas nada simples, que façamos o mínimo de esforço interpretativo e crítico daquilo que vemos, e paremos de nos comportar como vegetais perante a TV. Porém, mais que propor um movimento qualquer, a mensagem básica do texto é: preste a atenção às mensagens básicas e deixe de ser ingênuo, o que realmente importa para a vida não vai passar na TV.

1 – Ou não ver, como no caso “Privataria Tucana”. Se bem que nesse caso, o tiro acaba por sair pela culatra, pois o silêncio da grande mídia fala mais que qualquer discurso sobre ela.
2 – Para usar a gíria da malandragem dos anos 90.

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Rousseau, D’Holbach, e a corte “Caindo no Ridículo”… por Camila Sant’Ana.

Olá pessoas, eu sou a Camila, a mesma que escreveu aquele texto sobre Sade há pouco tempo atrás, e hoje eu venho aqui no blog para falar de um filme que retrata bem os séculos XVII e XVIII em um aspecto específico, mas essencial: a sociedade de corte, e como a política era influenciada pelas relações pessoais e pelos costumes da época. “Ridicule”, ou “Caindo no Ridículo”, é de 1996 do diretor francês Patrice Leconte.

Com inspiração em uma máxima do Duque de Guines, presente nas memórias da Condessa de Boigne,, o filme expõe com diversidade e clareza seu sentido: “Os vícios não são preocupantes, mas o ridículo, pode matar.” A frase que se refere ao modelo de costumes exigido na corte francesa dos séculos XVII e XVIII não é, como aparenta, exagerada. Nesse ambiente, costumes não são apenas questão de etiqueta. A maneira de agir de um cortesão pode levá-lo até o contato próximo ao rei se bem manejados, ou à maior das desgraças.

Então, acompanhamos um engenheiro hidrográfico Grégoire Ponceludon de Malavoy preocupado com a saúde de seus camponeses chegando à corte, com a esperança de ter seu projeto aprovado pelo Rei Luis XVI. Mas, pouco importa a qualidade ou precisão do projeto, o que importa é que a conduta de nosso protagonista se sobressaia a dos demais.

Já que os vícios não têm relevância, e ser ridicularizado é o grande mal a ser evitado, e se é necessário subjugar o próximo para se sobressair, qual é o espaço para a virtude nesse cenário? Como o homem pode deixar transparecer seus sentimentos se sua forma de agir a todo o momento é medida e pesada, e caso fuja dos padrões, é descartada? Se suas conquistas em áreas profissionais dependem de sua conduta pessoal, qual é o espaço para a individualidade do sujeito?

Estas perguntas foram temas valorizados por vários autores e não se fixam apenas ao ambiente da corte. Autores da época tratam desta temática. D’Holbach, em sua obra satírica “Essai sur l’arte de ramper” (Ensaio sobre a arte de rastejar) refere-se ao cortesão como “um animal anfíbio no qual todos os contrastes se encontram comumente reunidos”. A difícil arte de rastejar seria desenvolvida pelo cortesão ao longo da vida, e consiste em saber dobrar-se às vontades de seu mentor, a ponto de anular as vontades naturais do homem, seu orgulho e amor próprio. O bom cortesão, perde seu orgulho em preferência a seus interesses, e mascara tal fato a ponto de poder fingir qualquer sentimento verdadeiro. O monarca seria então manipulado por estes cortesãos, a ponto de , em troca de falsos sorrisos e companhias, aumentar os impostos e financiar o luxo dos cortesãos.

Em Ridicule, o Abade de Vilecourt é um bom retrato do que descreve D’ Holbach. “É uma cobra, diz Bellegarde. Quando se cala, hipnotiza. Quando fala, já é tarde demais.” Forjando inclusive suas crenças, coloca a vontade do Rei acima de tudo, ao mesmo tempo em que recebe regalias por este “serviço” prestado ao monarca. Até que passa dos limites, deixando cair a máscara de sentimentos verdadeiros, e por isso é rechaçado.

Parece não haver espaço na corte nem para a espontaneidade e muito menos para a virtude.

Não importam as boas intenções de Ponceludon, nosso protagonista, o que importa é seu porte. Caso ele passe por cima dos desejos de alguém superior a ele na corte, ele sofrerá as consequências. É o caso da Condessa de Blayac, que ao ver que perdeu seu amante, não pode deixá-lo sair ileso, e vinga-se dele com a arma mortal que é o ridículo. Vemos também, que o sentimento verdadeiro não sobrevive por muito tempo nos cortesãos. A Condessa, que parece amar verdadeiramente Ponceludon não conhece outra linguagem além da cortesania para expressar seus sentimentos, ou seja, o jogo, o ridicularizar, o não se expor. O pretenso amor passa então ao interesse, que quando frustrado, precisa vingar-se.

Com isso, vemos a aproximação do enredo do filme ao que Rousseau coloca em seu primeiro discurso: Os bons modos quase sempre sempre coincidem com os viciosos. Estas “boas maneiras” encobrem as verdade nos corações dos homens. Parece então, que o aumento do polimento dos costumes é proporcional à distância que os homens tomam de si próprios.

O afeminamento dos homens põe todos numa mesma chapa, moldando-os, e destruindo a individualidade. Tornam-se então escravos dos costumes e se afastam da verdade.

“De modo algum se ultrajará grosseiramente o inimigo, mas jeitosamente o caluniaremos.” O que é retratado no filme, na forma como se faz o outro cair no ridículo.

Para Rousseau, em meio aos jogos da corte não há espaço também para a virtude. O próprio Ponceludon se corrompe ao tentar progredir, e sua amada Mathilde de Bellegarde, longe se ser viciosa ou corrupta, iria se casar com um velho rico detestável só para que ele financiasse suas pesquisas científicas.

Além disso, a promessa mortífera que o ridículo pode trazer se mostra literalmente com Baron de Guéret, e Le Chevalier de Milletail , que perdem suas vidas pela vergonha de serem ridicularizados. Ao se depararem com a morte, retomariam o orgulho perdido pelo ridículo. Mas, como D’ Holbach poderia dizer, o orgulho já havia sido subjugado apenas por participarem deste tipo de relação cortesã. A vida teria menos valor que este falso orgulho, o homem se entrega por completo a esse sistema, e a morte não retomará nem a individualidade, tampouco a virtude.

Assim, o pó de arroz não disfarça apenas as irregularidades da pele. Disfarça ainda mais as intenções dos homens, trazendo desconfiança e competição, o que pode realmente, até matar.

Watteau; "Les Plaisirs du Bal"

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A tolerância como dispositivo… Por Murilo.

A morte de Bin Laden é convenientemente próxima ao que a imprensa ocidental apressadamente intitulou de “A Primavera Árabe” – a série de revoltas ocorridas em países árabes iniciadas depois da queda do ditador egípcio no começo desse ano. E como era de se esperar gerou uma série de reações pelo mundo (inclusive aqui no blog). Uma dessas reações foi o artigo do jornalista Joe Nocera do “The New York Times”, jornal de alguma relevância nos EUA e no mundo. Resumindo o artigo a idéia principal era: só porque Bin Laden morreu não significa que o terrorismo morreu, e além disso, a desconfiança em relação aos EUA continua grande entre os Árabes. No texto o jornalista aponta com pesar, como exemplo da tal desconfiança, o fato de que os jornais turcos estão unidos contra as ações da OTAN na Líbia de Kadafi; cito; “Mesmo apesar de essas ações almejarem impedir que um ditador cruel massacre seu próprio povo. A imagem de ocidentais bombardeando seus irmãos muçulmanos é muito pesada para ser aceita por eles (…) Esperamos que esse não seja o legado de Bin Laden, mas isso é algo que só nós poderemos reverter.”¹ Isso é, trocando em miúdos, mesmo com os ocidentais bonzinhos – com seu complexo de herói – se oferecendo para ir lá salvar a pele dos ‘irmãos’ insurgentes líbios, o restante dos árabes ainda não aceitam o ocidente, ainda desconfiam dos EUA, ainda não nos toleram. Tomara que essa intolerância não seja o legado de Bin Laden. (Reparemos, só de passagem, que a ‘desconfiança com relação aos EUA’ e a ‘intolerância’ quase podem ser sinônimos, no caso. Lembrando muito o que acontecia na guerra fria em que ‘simpatizante do socialismo’ era igual a ‘inimigo da liberdade’ – vamos ver quanto tempo vai levar para serem, de fato, sinonimizados!)

O que significa dizer que isso é algo que “só nós podemos reverter”?² Várias respostas são possíveis, mas levando em conta a história recente e meu profundo pessimismo com relação ao destino da humanidade que só aumenta, só uma expressão me vem à cabeça: “Big Stick!”, isso é, a boa e velha política estadunidense de baixar o cacete impondo soluções que eles acham as melhores. Porém esse não é o ponto do texto. Um dos interesses aqui é tentar se aproveitar do momento histórico para, quem sabe, mostrar como funciona a preparação dos indivíduos para o futuro próximo.

Se lermos com olhos apaixonados o artigo do pequeno Joe veremos nele um elogio à tolerância, um dos mais nobre valores do ocidente esclarecido. E também uma condenação da prática intolerante do terrorismo e da imprudência da imprensa turca; ao mesmo tempo, um elogio a OTAN que está trabalhando para evitar um massacre cruel e sanguinário do povo líbio promovido por um ditador bobo, feio e intolerante. É interessante observar várias coisas: por exemplo, como a divisão de lados é mantida – de um lado o ocidente rico, chique e esclarecido; e do outro os Árabes, fundamentalistas, intolerantes, e atrasados. E ainda, como a idéia de tolerância é usada para massificar – ou se preferirem, representar – todo o ocidente³. Qualquer um que pense um pouco não encontra dificuldades muito sérias para chegar à conclusão “antropológica New Age” que, na verdade, o confronto existe por causa do choque de culturas: a dos teocratas, fundamentalistas, atrasados de um lado; e dos democratas, multiculturalistas, esclarecidos de outro. Seria esse choque de culturas a base do conflito. É errado pensar assim? Por um lado não; no sentido de que não há nenhuma inverdade no julgamento; por outro lado sim, porque essa não é a base real do conflito.

O problema que a história nos mostra é que o confronto cultural é só uma máscara para o confronto real – para usar um termo amaldiçoado, mas certeiro – material, político e econômico. Não faz muito tempo os EUA financiavam pelo mundo ditaduras de todo tipo; vide Brasil, Argentina, Chile, e mais uma dúzia de republiquetas da ‘América latrina’. Um dos maiores aliados dos EUA no próprio ‘Oriente mérdio’ é a Arábia Saudita, uma monarquia teocrática. Na década de 1980, do governo Regam e afins, os EUA despejaram bilhões e bilhões de dólares em espécie, mas também em treinamento e armamento, no Iraque – na ocasião da guerra contra o Irã – e no Afeganistão – para barrar a invasão soviética; investimentos que não muito tempo depois acabaram nos regimes do Taliban e de Saddam Hussein, além, é claro, do próprio Bin Laden. Enfim, a história nos mostra que democracia, tolerância, assim como liberdade e multiculturalismo é papo furado para conselho de segurança da ONU ver.

A questão é, tanto a imprensa turca quanto o “New York Times” sabem disso, conhecem a história, provavelmente melhor que todos nós, e ambos estão tratando de cuidar de seus interesses, ambos estão oferecendo a visão de mundo de seus patrocinadores, ambos estão tentando legitimar o discurso de quem assina o cheque. Mas a peleja aqui é caseira. Sendo assim, por mais que Nocera saiba que para o ocidente se trata de uma luta por poder sobre fontes de matérias-primas, mão-de-obra barata e mercados consumidores, mesmo assim, ele ritualmente encena o teatrinho da democracia tolerante multiculturalista, dos direitos humanos, etc… a fim de “capturar, orientar, determinar, interceptar, modelar, controlar e assegurar gestos, condutas, opiniões e discursos dos seres vivos”4 que leem seu jornal – o que é bastante gente. A impressão que ficamos é que a idéia de tolerância é algo absurdamente evidente e que permeia toda nossa existência enquanto ocidentais desde que nascemos; com a família, com os amigos, na escola, no trabalho, na praia, na zona, na internet, ela sempre esteve lá, ainda que manifestadamente diferente em cada parte. Enfim, a impressão é que ela é e sempre foi um valor ocidental nobre, e molda nossa consciência de maneira quase que constante. Porém, apesar de tudo, o aspecto mais interessante aqui para o texto, é caráter de dispositivo da moça. Isso é, a tolerância como ela é usada, e não como ela é: ela é acionada, se lança mão dela, sempre que se precisa conseguir um determinado efeito em regime de urgência. No caso, a união do Ocidente na manutenção do conflito com os Árabes, independentemente da morte de Bin Laden, Saddam Hussein, ou seja lá quem for, é importante manter a diferença essencial entre os lados, e, consequentemente, o conflito.

Como mostra Zizek: a política atual “concentra-se em guerras culturais e lutas por reconhecimento: seu princípio básico é a tolerância sexual, étnica e religiosa, ela prega o evangelho multicultural. (…) A intolerância sexual e cultural serve de chave para as tensões econômicas.”5 e porque não, políticas também; ao contrário do que acontecia antes da Era Americana. O que o filósofo esloveno chama de “chave para” eu chamo de “dispositivo”, no sentido que Agamben da ao termo (como citado acima). Tudo se passa como se a idéia de tolerância fosse usada para unir (entenda-se, dissolver os indivíduos) contra a cultura do Outro, e o conflito cultural como uma distorção (ideológica) que legitima o conflito real, material, político e econômico.

Não se trata aqui de rejeitar o valor belo e sublime da tolerância – por mais que ela esconda uma dimensão sombria que não vai ser tratada agora – trata-se de abrir os olhos para a história do conceito e principalmente para o uso que se faz dele, cuidando para que ele não vire justamente o seu contrário, um tipo de tolerância que conclama para a guerra.

 

 

 

1 – Ficarei devendo a fonte de maneira decente, mas o artigo foi reproduzido pela Gazeta do Povo, na época da morte do Bin Laden, se alguém estiver com paciência de procurar, eu agradeço, porque eu não tenho a menor…

2 – Não é difícil imaginar essa frase dita por alguém trajando uma capa e com a cueca por cima da calça.

3 – Somos todos tolerantes, democratas e multiculturalistas; e ponto final!

4 – Giorgio Agamben – “O Que é um Dispositivo?”

5 – Slavoj Zizek – “Um empreendimento pré-marxista”. São Paulo: Folha de São Paulo, 24 de setembro de 2000.

 

 

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Onze anos e um segredo. Por Murilo.

Toda vez que sai um resultado de um daqueles testes para se medir a qualidade da educação num país os brasileiros ficam rubros de vergonha. E com razão. Nós conseguimos ficar atrás de países do Caribe e da África – nada contra Caribe e Africa, mas para quem almeja ser uma das maiores entre as maiores economias do mundo isso é embaraçoso. E a coisa fica ainda mais feia se pensarmos que os níveis atuais de educação dos brasileiros que se formam no segundo grau de hoje são inferiores aos níveis dos próprios brasileiros de 45 anos atrás. Nós estamos atrasados 45 anos em relação a nós mesmos. Passamos quase meio século emburrecendo – 20 anos de ditadura militar que considerava ‘pensar’ um ato criminoso, mais 10 anos de “democracia” boa parte dela sem participação popular direta que serviu só para realocar os caciques que não tinham interesse nenhum de mudar a situação da educação, e por último 15 anos de governos com alguma boa vontade em relação a educação, mas uma vontade fraca, insuficiente. E como se não bastasse o “novo” governo federal resolve “cortar gastos com a educação” – como se dinheiro destinado para educação fosse ‘gasto’ e não ‘investimento’ – cuspindo no prato que lhe deu muito o que comer na última eleição.

Mas o ponto aqui é outro; nos últimos anos tem ocorrido – seja por sorte, esforço, ou politicagem – uma volta de matérias há muito esquecidas à grade do Ensino Médio brasileiro, tais como a filosofia, a Sociologia, a Música e, falasse, numa possível colocação da psicologia nesse bolo, entre outras. A intensão por trás disso é das mais nobres: “contribuir para uma formação mais humanista de nossos jovens.” Lindo. Para além do fato de que a grande massa desses jovens chega ao segundo grau sem saber ler e escrever, o que boicota o próprio projeto e torna esse “humanismo” todo uma piada de mau gosto, existe o fato de que a ‘demanda’ de nosso sistema educacional, enfaticamente no Ensino Médio, caga para o ‘humano’. Isso é, o discurso de que “a escola visa formar seres humanos conscientes de sua condição” vai por água a baixo quando a escola acaba e o formado se vê diante da necessidade de entrar numa faculdade, e descobre que o meio para isso é um aborto da razão chamado ‘vestibular’, que exige que ele jogue fora sua educação humanista e se concentre na sua educação tecnicista. Talvez o maior crime contra o ensino em todos os tempos seja esse tal vestibular. É um choque de princípios, de um lado uma ‘formação humanística’ que dura 12 anos, de outro uma demanda técnica para se inserir no mercado de trabalho que só leva em conta o último ano desses doze, e ainda, só uma parte das matérias estudadas. Os alunos passam 11 anos sem saber o que estão fazendo naquele lugar feio que chamam de escola, aí no último ano descobrem que tem que passar num tal de vestibular que, via de regra, é difícil, e então fazem das tripas coração com cronogramas de estudo sub-humanos, os pais gastam um dinheiro que não tem pagando cursinhos astronomicamente caros e sustentando os filhos do aborto supracitado chamados de “terceirões”, assim a educação vira um negócio lucrativo para uma meia dúzia, e um prejuízo enorme para o país que patina atrás de “Panamás” e “Azerbaijões” da vida.

Depois de todos esses anos o que de melhor nosso sistema consegue fazer é formar uma legião de técnicos, uma massa de profissionais relativamente qualificados, e quase nenhum cidadão. Uma corja de pretensas “inteligências” do país que, de “baseadinho” em “baseadinho” sustentam o tráfico de drogas. O mesmo tráfico que promove a violência e mata os amigos desses “inteligentes” que depois fazem passeatas pedindo paz segurando belos cartazes, todos vestidos de branco, com uma imagem bem pacífica – ou seria passiva? – para mostrar toda sua indignação. Um bando de “gênios” que resolvem problemas repletos de ‘integrais’, ‘derivadas’ e ‘infinitesimais’ antes mesmo do café da manhã, e a tarde elegem “Malufs”, “Sarneis” e “Tiriricas” e, ainda no mesmo dia, vêm o jornal e exclamam “Que vergonha!”. É essa a idiotice sistemática que sustenta “Bolsanaros” e “Ricardos Barros” da vida. Essa idiotice é consequência direta dos onze anos jogados fora que os jovens tem perdido na escola. Essa incapacidade quse patológica de pensar encontrada na maioria dos jovens que se formam no Ensino Médio brasileiro é consequência direta dessa contradição interna do nosso sistema – já nem sei mais se esse nome é adequado. Talvez o primeiro e mais importante passo para resolver os problemas educacionais brasileiros seja determinar o que de fato se espera da educação, formar seres humanos ou animais?

Enquanto não nos decidimos, lentamente o ovo da serpente quebra sua casca.

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House e o Deserto do Real… por Murilo.

Há muito tempo tenho tentado escrever algo sobre a série de TV “House” aqui para o blog; para quem caiu na terra ainda há pouco, trata-se de uma série médica, nos moldes de “Plantão Médico (E.R)” só que as histórias não se passam necessariamente na emergência do hospital e sim no (criado) Departamento de Diagnósticos; a grande sacada dos autores foi transformar o processo de diagnóstico numa investigação misteriosa, e o personagem principal num verdadeiro Sherlock Holmes – aliás as referências ao famoso personagem de Arthur Conan Doyle são muitas na série. Mas o grande trunfo, o que sustenta o sucesso da história é a personalidade do personagem central o Dr. Gregory House (Hugh Laurie), ele simplesmente implode a imagem histórica do médico herói humanista e a substitui por um sujeito podre. Completamente egoísta, auto-destrutivo, anti-ético, sarcástico, misantropo, racista, sexista, insubordinado, irônico, insensível e cujo qual os pacientes só o atraem pelo desafio intelectual que representam suas doenças desconhecidas, enfim, um porco, um completo babaca, frio e calculista, porém, genial naquilo que faz, capaz de resolver casos que ninguém consegue, e diagnosticar pessoas só de olhar para elas.

O problema teórico que me impedia de escrever o texto era que a simples resposta pergunta “por que gostamos tanto de House?”, isso é, o fato de ele representar em alguma dimensão algo comum a todos – que no fundo somos todos cretinos e mentirosos – não era suficiente. Essa simples identificação não respondia a dúvida a ponto de merecer um texto. Até que, num belo dia de chuva, chegou-me o livro “Lacrimae rerum: ensaios sobre cinema moderno” do filósofo, psicanalista e comedor de criancinhas nas horas vagas, e esloveno ainda por cima, Slavoj Zizek. O texto é composto por cinco ensaios que vão de Kieslowiski até os irmãos Wacholski – passando por Hitchcock, Tarkowiski e (o melhor) David Lynch, e na composição dos ensaios o autor cita uns outros 150 filmes e uma infinidade de personagens. No ensaio n° 4 intitulado “David Lynch ou A Arte do Sublime Ridículo”, Zizek procura fazer uma análise lacaniana do Filme “A Estrada Perdida” (Lost Highway, 1997) de Lynch, para tal o autor tem a necessidade de colocar em jogo as noções de ‘transgressão inerente à ordem simbólica’ e ‘fantasia fundamental’, além de outras.

Pois bem, quando vai falar sobre a estrutura da transgressão inerente e como ela funciona hoje, o autor usa o personagem Melvin Udall interpretado por Jack Nicholson no bom filme “Melhor é Impossível” de James L. Brooks (1997); trata-se de um escritor quase tão insuportável quanto House. A Estrutura da tal ‘transgressão inerente’ funciona mais ou menos assim:¹ de uma lado temos a ordem simbólica das aparências, do cotidiano, em que seguimos as regras, a ética, respeitamos os coleguinhas, acordamos cedo, vamos trabalhar, voltamos para casa, dormimos, e fazemos tudo de novo, é o dito ²’NORMAL’ nosso. Por outro lado temos nossa ética própria, nossa vontade própria, nossos desejos íntimos, e aquela voz interior, as vezes consciente as vezes não, que vive mandando a gente mandar toda essa m* de ‘NORMAL’ para o inferno e gozar a vida ao máximo. E durante toda nossa vida e por boa parte da nossa história esse segundo lado é reprimido, tido como perigoso, danoso e/ou subversivo. Qualquer libertação desse lado sempre foi vista com maus olhos pela ordem estabelecida (patriarcal). Basta lembrar aqui da Brasilândia em épocas de ditadura o tanto de gente que foi perseguida, chutada, investigada e acusada de ser subversiva, por ser escandalosa, e apesar disso a própria ditadura financiava filmes de porno-chanchada; eis a transgressão inerente, o “erro” que precisa acontecer para a afirmação do “certo” da ordem simbólica.

Pois bem, a época das ditaduras passou – ou ainda esta passando – e vivemos no reino da tolerância e do diálogo como ideologia oficial³. Sendo assim, o que pode transgredir uma ordem que tolera a transgressão? A intolerância. Seja ela sexual, racial, social, religiosa, etc. A intolerância sempre é abominada pelo ocidente renascentista, esclarecido, humanista pós segunda guerra.

Agora, o que diabos o House tem a ver com essa p* toda? Ele é aquilo que a nova ordem abomina, o egoísta intolerante por excelência. E a questão volta, por que gostamos de personagens como House e Melvin Udall? Porque eles realizam de de forma brutal uma fantasia fundamental da constituição do espírito desse homem da nova ordem.

‘Fantasias fundamentais’ são uma espécie de planejamento dos nossos desejos que sabemos que não podemos realizar plenamente porque ofendem de alguma forma a ordem do NORMAL. São elementos psíquicos constituintes da subjetividade, e que são sempre, contrários a ordem do NORMAL – se não o fossem não seriam fantasias. Quando se instala uma ordem tolerante a fantasia deverá ser a intolerância. Mas se o House realiza por meio de sua intolerância fantasias fundamentais, e isso, como foi dito, é subversivo, por que ele não é chutado, perseguido e investigado como um tropicalista dos anos 70? Eis o perigo da nova estrutura da transgressão inerente. Melvin Udall é insuportável, mas “sabemos” que ele se redimirá no final e se revelará dono de um grande coração. Em ‘House’, a série começou a tomar o mesmo caminho, e perdeu audiência, a solução dos produtores foi não mudar a personalidade de House e sim o efeito de suas ações, o que antes causava sofrimento nas pessoas ao seu redor agora acaba fazendo bem a elas e, por consequência, ao próprio House. Enfim, aquela resposta de que gostamos de House por identificação é mais perigosamente verdadeira do que parece, isso é, gostamos daquele sujeito podre, mas só porque sabemos que ele(ou suas ações), de algum modo, se redimirá; na verdade não gostamos dele, e sim da consciência de que ele mudará e se adaptará ao NORMAL. E em um segundo nível a coisa fica mais perigosa, quando esses personagens realizam de forma brutal certas fantasias fundamentais, tornando-as reais, elas são destruídas, pois perdem seu caráter fantástico, e a subjetividade se esvazia e se remolda com seu contrário, a ordem predominante. Resumindo, gostamos de House, pois intimamente ele realiza nossas fantasias subversivas; mas só o toleramos porque sabemos que no fim ele se redimirá; sabemos não, temos fé, cremos desesperadamente na sua redenção e que ela mostre que nós, que gostamos dele, não somos de modo algum subversivos, apesar de nossas fantasias.

O perigo é que a aceitação da transgressão pela ordem simbólica das aparências, em certos níveis acarreta na reafirmação dessa ordem, tolhendo nossa capacidade de mudança psicologicamente, no nível do indivíduo, na celula mesma de qualquer organização social. E assim a onda politicamente incorreta – de heróis que mentem para salvar ( filmes como Watchmen e Batman: O Cavaleiro das Trevas) além de séries como House ou Dexter e muitos outros – acaba por se revelar como agente da manutenção da ordem política que aparentemente transgride. E os questionamentos em relação a essa ordem, suas injustiças, seus absurdos e suas incoerências acabam tendo cada vez menos solo para crescer, na medida em que a arte, solo histórico por excelência, é usada como dispositivo de instrumentalização da cultura para a dominação ideológica.

Nietzsche ao falar da modernidade gostava de usar a frase apocalíptica e enigmática “O deserto cresce”. O próprio Slavoj Zizek tem um livro chamado “Bem Vindo ao Deserto do Real”, frase usada por Morpheus no filme “Matrix” (1999) quando reintroduz Neo na sua antiga realidade cotidiana NORMAL mas agora sabendo da verdade. Heidegger diria que o Deserto toma conta de nós como um destino.4 Pior do que destruir, a desertificação de nós mesmos impede que algo de novo cresça no lugar do destruído, e além disso, a desertificação se expande para todos os lados e acaba com qualquer possibilidade de mudança, ou melhora, que no caso daria no mesmo, e mesmo com qualquer possibilidade de questionamento sobre uma possível mudança. E agora uma última pergunta: como se escapa de um deserto do tamanho do mundo?

 

1- Eu não estudo psicanálise e não to muito aí para o fato de você estudar se for o caso, o que eu tento aqui é interpretar o livro do Zizek.

2- Palavra extremamente pesada e que merece um texto futuro.

3- Não necessariamente prática.

4- Heidegger – Loparik, Z. – JZE Editora. – Col. Filosofia Passo-a-passo. Rio de Janeiro, RJ. – 2004

 

 

 

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A estética da fome, ao vivo. Por Lord Milek, do Abranches.

“(…) um artista, um filósofo, devem não apenas criar e exprimir uma ideia, mas ainda despertar as experiências que a enraizarão nas outras consciências.”

Maurice Merleau-Ponty, em “A Dúvida de Cézanne”.

Essa semana tive o prazer de ser atingido por um texto do antigo e genial cineasta brasileiro Glauber Rocha chamado “Por uma Estética da Fome”. O texto é apresentado como uma Tese-Manifesto datada de 1965, ele discorre de maneira crítica sobre o cinema brasileiro da época, defendendo o Cinema Novo – portador da tal estética da fome – e criticando o que o autor classificou de cinema “digestivo” – produzido a partir do golpe de 1964 e que mostrava o Rio de Janeiro rico, bonito, chique, estiloso e vazio de significado, tal qual uma novela global de Manuel Carlos. Mas o que mais me interessou no texto foi a relação feita pelo autor, a todo momento, entre cinema e política. Talvez a tese do texto possa ser resumida assim: um filme não se encerra nos limites da arte, mas contamina a sociedade, sobretudo o plano político; isso é deixado bem claro no segundo parágrafo do texto.

Pois bem, a anos temos assistido um aumento significativo na produção de filmes sobre a vida nos morros cariocas, sobretudo seu aspecto marginal ligado ao tráfico de drogas. Os três primeiro que me veem à cabeça de modo instantâneo são : Cidade de Deus, de Fernando Meirelles; Tropa de Elite 1 e 2, de José Padilha. Os três têm seu roteiro escrito por Bráulio Mantovani. Obviamente devem existir mais filmes , porém, com certeza esses são os mais bem sucedidos, mercadologicamente falando, e os que alcançaram maior público e destaque.

Até que ponto esses filmes influenciaram o meio político? Difícil precisar. Porém, vivenciamos, em tempo real, uma batalha das mais importantes da história entre Estado e tráfico de drogas – inclusive, se você ligar a TV neste exato momento, em qualquer canal de notícias, eu garanto, vão estar falando sobre a ‘guerra do Rio’. E nessa batalha podemos observar em diferentes níveis: organização do Estado, aplicação dos policiais e apoio popular à ação da polícia. Três elementos essenciais na luta contra o crime e que são impressionante e vergonhosamente novos no Brasil. Afirmo, e exemplos históricos soviéticos, nazistas e liberais-hollywdianos – que em essência diferem muito pouco – que o cinema, e as artes em geral, contribui pesadamente para a realização dessa mudança. Por que outro motivo um soldado com um salário de fome se aplicaria tanto no combate se não pelo reconhecimento quase que como herói dado ao soldado honesto nos ‘Tropas de Elite’?; por que outro motivo a classe média intelectual (ou seria melhor dizê-lo “classe mérdia intelectualóide”) passaria a apoiar ações duras contra bandidos que ela defendia e sustentava baseada em uma idéia rasa e enlatada de ‘direitos humanos’ não fosse pelo xeque em que são postas essas posições em filmes como os três citados?; Por que outro motivo os governos destinariam tanta verba e atenção a essas comunidades não fosse pelo potencial de votos que o bem estar dessa população lhe gera, tema comumente explorado pelos filmes citados.

Não que eu seja inocente a ponto de acreditar que os filmes sejam as causas motoras dessas ações, nem que se pode resumir aos filmes os interesses que determinam essas ações, e que, consequentemente, as artes podem mudar o mundo. Mas seria inocência, por outro lado, acreditar que o cinema e as artes não são um dos motivos mais fortes nesse despertar – ainda que pontual – de consciência que podemos testemunhar. Uma das ideias mais fortes a serem combatidas sobre o assunto “arte e formação de um povo”, é de que a obra de arte é apenas uma obra de arte. Filmes como esses, ou movimentos artísticos como o ‘Cinema Novo’ de Glauber Rocha e cia, não são nunca apenas isso. São reflexos, reflexões, ensinamentos, laboratórios, experiências, criadas ou imaginadas, que permitem a iluminação – ou o obscurecimento, se má intencionadas – dos problemas e modos de lidar com esses problemas de um povo, cabe se educar para perceber esses aspectos quese sempre sutis.

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