Tag Archives: Religião

Esquizofrenia Democrata-Cristã… Por, Murilo…

Seja na “primavera árabe” ou no inverno que foram nossas últimas eleições presidenciais, religião e democracia foram frequentemente tematizadas, analisadas e discutidas. São, sem dúvida, dois dos pontos mais quentes do cenário político atuante. Porém, a pesar da existência e da força de partidos ditos, e não ditos, “democratas cristãos”, pouco se questiona se a relação entre religião e democracia é válida.

Se pensarmos no fenômeno da religião poderemos, rapidamente, perceber que todas as religiões se baseiam numa “palavra sagrada”, pelo menos as religiões mais populares. Essa palavra é a palavra dada por deus, seja ele qual for, aos pobres humanos para que estes se guiem a fim de encontrar o paraíso divino num dado momento – comumente, e comodamente, após a morte. O problema é que, sendo Deus infinitamente perfeito, não há como sua palavra estar errada, e por isso não faz sentido para um homem de fé confrontar a palavra sagrada com outra não sagrada, profana. Se Deus falou, ta falado! Deve se fazer o que Ele disse, como Ele disse! No máximo no máximo, religiosos já iniciados, versados e, quase sempre, importantes membros das instituições religiosas, tem algum direito de interpretar a palavra, mas sempre para garantir um aumento da compreensão do texto e da fé de quem o lê; ele não pode encontrar erros na palavra sagrada, os erros são sempre de nossa interpretação, do mal uso da liberdade que Ele nos concedeu. E esse é o primeiro grande ponto de conflito com a democracia. Basicamente porque ela é um sistema em que a discussão de ideias, o debate, a liberdade de expressão, a possibilidade de se construir uma solução para os problemas, e mais, onde a possibilidade de se estar errado em suas crenças, devem existir sempre, como garantia de liberdade. As questões ética, ou de conduta dos cidadãos, são resolvidas através do diálogo, de debates e acordos, e não por consulta a um livro pronto e acabado que contém todas as verdades e é infalível por definição. Sem se garantir a possibilidade de discussão e de liberdade de expressão não pode haver uma democracia em sua essência; e com a palavra sagrada não se discute; por isso, democracia e religião não são só de naturezas diferentes como também de naturezas conflitantes; e a possibilidade de uma real democracia fica severamente comprometida em povos religiosos.

O sujeito democrata-religioso é um sujeito dividido entre a aceitação pela fé da palavra sagrada e dos dogmas de sua religião, e a possibilidade de questionar doutrinas, dogmas e discutir racionalmente.

Outro problema, especificamente* cristão e de ordem quase psicanalítica, é o trauma com a democracia que existe no seio da história de Jesus. A final de contas, reza a lenda que quem deu a última palavra pela soltura de Barrabás¹ e pela crucificação do primogênito Dele foi o povo, e consequentemente, condenou democraticamente Jesus à morte – aliás, dando um exemplo de democracia direta que deixaria muito grego com inveja. Essa história, como é narrada, apesar de não ser acompanhada por nenhum discurso anti-democrático, é uma alegoria crítica à democracia. A moral dela é que foi pelo exercício do poder do povo que Cristo foi condenado, foi esse poder que permitiu a Pilatos² “lavar as mãos”, e essa escolha que permitiu ao Magrão tirar uma com nossa cara na hora da morte dizendo que “Eles não sabem o que fazem”. Portanto, não é confiável dar ao povo o poder de decisões importantes, o que gera um certo problema para aquele velho ditado “A voz do povo é a voz de Deus”, e ainda, põe um trauma profundo na alma dos cristãos com relação ao exercício da democracia.

Recebemos, além da própria democracia, como herança dos gregos, a palavra “esquizofrenia”, que significa, grosso modo, “Alma Partida.” Esquizofrenia é também o nome de um transtorno psíquico severo que dentre os vários sintomas, o mais clássico, é o paciente “ouvir vozes” em sua cabeça que o mandam fazer coisas que ele não quer, ou que são contraditórias. O esquizofrênico sofre com diversas variações mentais, cognitivas e sensoriais, a tal ponto de perder o contato com a realidade, e confundir a atividade interior do pensamento com a realidade efetivamente existente e exterior; um dos esquizofrênicos mais famosos é o genial John Forbes Nash, que teve sua vida tratada no ótimo filme “Uma mente brilhante”; Nash, quando saudável, escreveu ótimos trabalhos sobre economia, biologia e teoria dos jogos, aprendeu a conviver e a controlar suas alucinações, e ganhou vários prêmios e renome intelectual. Nash seria um ótimo exemplo para os nossos democratas-cristãos, se aprenderem a conviver com seus traumas, a controlar sua alma partida, e tratar sua fraqueza, talvez consigam ser melhores políticos, e passem a se preocupar mais com a liberdade e com uma vida justa para a população, e menos com dogmas anacrônicos.

Muitos de nossos políticos, mesmo que não declaradamente democratas-cristãos, ou não-membros das alas fundamentalistas que se espalham pelo congresso e pelas câmaras do país, ainda ouvem, por questões culturais e educacionais, a voz cristã mandando eles “fazerem coisas”; o próprio povo, defensor da democracia e cristão desde sempre, continua ouvindo vozes. A questão que fica é, já começamos a perder o contato com a realidade? Se nos sentimos confusos com o processo político atual, talvez então, infelizmente, possamos respoder que sim.

 

*Há quem diga que esse trauma é grego antes de tudo, e tem a ver com a morte de Sócrates e a sequente desilusão platônica com a democracia da época, não vai dar tempo de entrar no mérito, mas seria interessante trazer à discussão Hannah Arendt, que no fundo, confirma a “tese” nietzschiniana de que o cristianismo não passa de platonismo para o povo.

¹Não confundir com o “Barras Bar”, lendário boteco localizado na região do Abranches.

²Não confundir com Joseph Pilates, lendário inventor do método “pilates” para tratamento de coluna.

Anúncios

1 Comentário

Filed under cultura, opinião

Obscurantismo eleitoreiro! By Milek!

Esse é o último texto do blog antes do segundo turno se consumar e eu vou tentar fazer uma análise de um ponto de vista filosófico sobre as campanhas.

Começando pela de Dilma, é uma campanha claramente feita para fazer o eleitor acreditar que nada vai mudar com relação ao governo Lula; porém, se eleita, ela pode ou ser uma “marionete” do Lula, “testa de ferro” se preferirem – como a Kirchner da Argentina -, ou então ser maquiavélica e, num de seus primeiros atos como presidente, chutar o nobre batráquio barbudo para bem longe. Não seria muito esperto da parte dela mandar embora 88% de aprovação do seu governo, então tudo indica que ela vá se manter à disposição de Lula. Dilma é uma incógnita. Dentro da história política brasileira há mais de 30 anos, muito poucas vezes foi protagonista em qualquer momento dessa mesma história, sendo assim, a estratégia do PT em colocar a luta partidária em primeiro plano, e não a pessoal dos candidatos, é esperta, e sem querer sincera, afinal de contas os candidatos são só representantes dos projetos políticos e tendências dos partidos.

A campanha de José Serra, além dos inúmeros erros já apontados aqui em outros textos, que eu não vou repetir, tem um aspecto que não foi devidamente abordado no blog: Fé. Não falo só da aliança com o cristianismo radical ultra-conservador franquista fundamentalista feita pelo PSDB, falo sobre o tom que dominou a campanha. Tendo um passado relativamente trágico no comando do país, o PSDB tenta usar a tática do Lula de 2002, apelar à esperança, ao credito, à fé do eleitor; em nenhum momento Serra falou “em retomar o caminho traçado por FHC”, em “volta do programa do PSDB do final dos anos 90”, o PSDB se quer apresentou um projeto de governo, quase não se falou em Fernando Henrique Cardoso, e não porque o possível governo Serra não represente uma continuidade desse modelo, e sim por vergonha e receio político. A campanha de Serra passa todo momento pedindo “a confiança do eleitor”, o “voto de fé”, a “mais uma chance” à acreditar num possível bom governo. A diferença da campanha atual de Serra e a de Lula de 2002 é que Lula representava a esperança num modelo novo de governo, e Serra se esquece que a esperança que ele evoca é a de voltarmos ao neo-liberalismo selvagem da época de FHC. O problema é o seguinte: Serra apela ao Irracional: à Fé, ao sentimento de esperança vazio.

Pode ser que a Dilma ganhe e faça uma tragédia de governo, que ela seja chutada em 2 anos, que ela quebre o país, e tudo mais… mas pode ser que não. O que nós, para sermos racionais na escolha do voto, temos que levar em consideração no segundo turno é que são dois partidos que já governaram o país por oito anos cada, é só escolhermos o que foi melhor, ou menos pior. Qual fez o país crescer mais, e qual fez a desigualdade social diminuir mais? PT ou PSDB? Acreditar em quem será melhor, é escolher o voto pela fé, pela crença, pelo futuro, pelo indeterminado; raciocinar para escolher o voto, é comprar o passado administrativo dos partidos em questão, seus programas de governo (quando existem, não é PSDB?) e suas orientações ideológicas. É escolher pelo concreto, pelo real, pela história. E aí eu pergunto: TERÃO PERDIDO A CAPACIDADE DE PENSAR OS QUE VOTAM PSDB, QUE PRECISAM APELAR À FÉ?


 

 

 

Deixe um comentário

Filed under cultura, Filosofia de Butéco (Botéco), opinião