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Esquerda em Hollywood, Parte II; ou “Bem vindos ao Clube da Luta.”… Por Murilo.

Desrespeitando claramente a primeira regra do Clube da Luta, e também a segunda, esse texto vai procurar entender se não estaria aqui um melhor exemplo do que Zizek chamou de “Verdadeira Esquerda de Hollywood.” Na verdade, antes de deixarmos Zizek para trás e prosseguirmos, fica a pergunta: “Por que diabos ele não escolheu esse filme?”

“Clube da Luta”, de David Fincher (1999), é uma adaptação do livro homônimo de Chuck Palahniuk (1996). O filme faz uma crítica aberta à sociedade consumista, a alienação pelo trabalho e pelo dinheiro, ao direito constituído da propriedade privada, entre outros pilares da nossa estimada sociedade capitalista liberal atual. Essas críticas todas são feitas baseadas na história do personagem central, vivido por Edward Norton, e se passa na forma de um “drama psicológico” de dupla personalidade.¹ Porém além de todas essa características óbvias “de esquerda”, podemos encontrar também, ainda que de maneira mais tímida e indireta, os valores “espartanos” de esquerda propostos por Zizek: a disciplina e o espírito de sacrifício. A disciplina fica caracterizada, ainda na fase clube da luta do filme, antes do início do “Projeto Destruição”, pela obediência às regras do clube e pela transformação física de seus participantes, que ao contraio do esperado, se tornam cada vez mais fortes, passam de “bundas de gelatina” à “esculpidos em madeira” – paradoxalmente, o clube se transforma em uma razão para manter a saúde em dia, e se livrar dos excesso mc’donisticos do consumismo. O espírito de sacrifício também é demonstrado de maneira direta e indireta de várias formas, gostaria de chamar a atenção à cena em que Lou, dono da taberna que empresta seu porão como cenário para que as lutas aconteçam, tenta enquadrar os participantes de maneira fascistoide e Tyler (Brad Pitt) se deixa espancar para depois cuspir seu próprio sangue na cara de Lou; é a “loucura” – superação do medo e da dor – que amedronta o fascista e, “salva” o clube.

Saltando para o final do filme, é interessante notar que o que abala o “Projeto Destruição” é a morte de um membro fraco do grupo aceito num “momento” de fraqueza do personagem de Edward Norton, que desencadeia nele uma crise de consciência burguesa que quase salva o sistema financeiro. ¿Essa crise de consciência poderia invalidar uma leitura Zizekiana, na mesma medida do que ocorre com o 300, isso é, no fim das contas, o filme propõe uma “revolução sem revolução”? Nesse momento somos salvos pelo ‘quase’. A crise de consciência quase salva o sistema, mas não salva: os prédios explodem, os registros são apagados, e voltamos para as cavernas pré-capitalistas desabilitando o montante maior de valores para o consumo. Em outras palavras, o plano de Tyler Durden funciona! Talvez até melhor do que se esperava! Na medida em que a crise de consciência desarticula a própria organização do “Projeto Destruição”, a sociedade que nascerá das cavernas não tem uma organização dominante, nem mesmo a organização que a construiu – destruindo a velha. Cria-se, portanto, a condição de possibilidade da auto-organização social ao mesmo tempo em que se salva o indivíduo.

Robert Poulson nada mais é do que a criança defeituosa não sacrificada no nascimento em Esparta, ou então, o soldado fraco, que não pode por incapacidade física defender o soldado irmão à sua esquerda da coxa ao pescoço, e enfraquece toda a formação. Se em Esparta paga-se caro por deixar o fraco sobreviver, pois é ele que retira a possibilidade da vitória gloriosa e absoluta dos 300 sobre o exercito de Xerxes, no “Projeto Destuição” a morte estratégica do fraco é ponto fundamental para o sucesso absoluto do plano. Esparta rejeita o fraco, e o sacrifício dos próprios espartanos torna-se vital para a vitória; o Projeto Destruição aceita o fraco e o sacrifica estrategicamente, tornando-o vital para o sucesso. São os dois lados do dito preço a se pagar pela liberdade em que reside um perigo que mereceria melhor reflexão.

Mas o fato é que, o desfecho do “Projeto Destruição” seria então o evento ontológico básico para a sociedade espartana; no sentido de que os 300 soldados que se sacrificaram, o fizeram por uma sociedade que já era livre “da mistica e da tirania”, enquanto que os “clubistas” se empenharam em construir tal sociedade, atacando de dentro a mística do fetiche da mercadoria e as diversas formas tiranas de alienação da sociedade capitalista. Nesse sentido, o que Clube da Luta faz é preparar o terreno para essa Esparta – ainda que nem tão espartana assim – de Zizek; e mais ainda, preparar o espírito para quem realmente quer, nos dias de hoje dentro de uma sociedade como a ocidental, lutar por racionalidade e liberdade.

 

1 – Sim, isso foi um, ou melhor o, spoiler.

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