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Esquerda em Hollywood, part I: Os “300” de Zizek, ou, os dois lados da ideologia… por Murilo Milek.

Tudo bem, eu confesso! Esse texto é um texto fingido. Como ultimamente eu tenho falado muito sobre política, e tenho usado muito o Zizek como referencia, dessa vez eu resolvi mudar; mas é uma mudança aparente. Eu vou fingir que vou falar de cinema, mas vou falar de política, e sim, vou usar o Zizek como referência – mais especificamente o texto “A verdadeira esquerda de Hollywood”, que esta no livro “Em Defesa das Causas Perdidas” (Boitempo) –, pelo menos de início, porém, de maneira mais crítica que o de costume. Outra peculiaridade desse texto é que ele será dividido em 3 partes, isso porque ele ultrapassa o formato aceito pela maioria dos leitores de blog por aí – ao que parece, a preguiça intelectual não se limita aos “telespectadores” de vlogs.

“No século V a.C., uma superpotência global estava decidida a levar a verdade e a ordem a dois estados considerados terroristas. A superpotência era a Pérsia, incomparavelmente rica em ambição, ouro e homens (e por que não, em tecnologia também). Os estados terroristas eram Atenas e Esparta, cidades excêntricas de uma região atrasada, pobre e montanhosa: a Grécia.”* Com essa citação Zizek começa a chamar a atenção ao paralelo claro da história com nossa atualidade – a gerra entre EUA e o Oriente não-alinhado –, ele começa, a partir de então, a mostrar porque considera o filme “300”(2007), de Zack Snyder, como o retrato possível de uma “verdadeira esquerda de Hollywood.” Segundo ele, as principais armas da Grécia pobre e atrasada contra o Império rico e desenvolvido dos persas foram a disciplina e o espírito de sacrifício; citando Badiou, ele concorda que precisamos (nós, a esquerda subdesenvolvida) sim de uma disciplina popular como forma de organização, e que dê capacidade ao povo para agir em conjunto. Preocupado com a ação política na atualidade, o autor aponta que chegou a hora dela (a esquerda) se (re)apropriar desses valores – disciplina e espírito de sacrifício – pois não há nada de inerentemente fascista neles, como a ideologia permissiva hedonista dominante tenta fazer parecer. Voltando ao filme, um ponto que joga água no moinho de Zizek, é o modo como o Rei rejeita a mensagem do oráculo e parte para a guerra: os sacerdotes, a religião no filme, são representados como “restos de um tempo anterior à saída de Esparta da escuridão; restos de uma tradição sem sentido.” Além disso, a luta grega é definida no final do filme como: “contra o reinado da mística e da tirania; rumo ao futuro brilhante”; definido como o domínio da liberdade e da razão; o que soa, segundo Zizek, como o programa básico do iluminismo, “até com um toque comunista!”, e porque não, ateísta. Por fim, o autor chama a atenção, buscando apoio histórico, para outros “radicais igualitários” que admiravam e mantinham vivo, de certa forma, o legado espartano; como Rousseau e os Jacobinos, além de Trotsky e outros.

O problema desse texto de Zizek é um tipo de problema, curiosamente, zizekiano. Concordo com a argumentação de Zizek, pelo menos ele escolhe bem os pontos de defesa de sua tese e são pontos suficientes para se dar crédito à ela. O problema do texto reside no fato de que o autor dispensa muito rapidamente e sem dar a devida atenção, características essenciais da sociedade Espartana: como o “totalitarismo”, a escravidão e a prática assassina de usar as populações mais fracas, que viviam perto de Esparta, para treinar suas tropas – o filósofo nos diz que há um “âmago emancipatório” na disciplina espartana que sobrevive a tudo isso, mas não trata do que seria esse âmago. O problema de se ignorar tudo isso sem o devido exame é que são, justamente, características essenciais de Esparta; assim, a impressão que o autor passa é de querer uma Esparta sem Esparta, ou elogiar uma Esparta nem tão espartana assim; isso é, Zizek acaba caindo no mantra pós-moderno do qual ele mesmo é um dos maiores críticos: a coisa sem a coisa, a des-substancialização promovida pela ideologia dominante. O esforço do autor em se “evitar de jogar o bebê com a água suja do banho” é valido, mas produz essa sensação de distorção ideológica que ele mesmo chama a atenção em outros momentos e critica.

Outro aspecto que se pode criticar do texto é de que os valores defendidos – disciplina e espírito de sacrifício – são valores de guerra, e que portanto, para a conjuntura atual, eles seriam de maior interesse para os países em guerra, ou em eminência de guerra, com o Império Capitalista, mas que porém pouco serviriam à esquerda de países ocidentais (alinhados); para esses, o texto vale mais como um apontamento histórico para a constituição sólida de um passado; uma história dos valores de esquerda; e muito pouco para uma prática de ação política atual. Sem dúvida esses valores e esse programa descritos pelo autor são importantes para a defesa de um ideário igualitário, porém, ao tomar o filme, e Esparta, como exemplos, o autor se esquece de que o que aquela sociedade fez foi defender valores já constituídos daquela forma, e não lutar para implementar esses valores, que é o problema da ação política de esquerda no ocidente. Portanto, se faz necessário, um empreendimento “pré-espartano”, por assim dizer, para o texto de Zizek e para a ação política de esquerda no Ocidente, a fim de se preparar o terreno para que esses valores possam ser retomados.

É possível encontrar no cinema exemplos que deem conta desse empreendimento? Isso é, quais filmes representariam melhor uma “esquerda de Hollywood”? O próximo texto tentará defender que “Clube da Luta”(1999), de David Fincher, é um óbvio exemplo dessa esquerda, e que sim, da conta do tal empreendimento….

*Tom Holland, “O Fogo Persa”, in. Zizek, “Em Defesa das Causas Perdidas/ A verdadeira Esquerda de Hollywood”(Boitempo; 2011); parenteses nossos.

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A Mensagem básica… Por Murilo!

É só não ligar a tv

 

A Rede Globo de Comunicações nunca foi uma entidade a ser respeitada por qualquer pessoa com o mínimo de senso crítico saudável, porém, ultimamente tem se esforçado muito em baixar o seu próprio nível; o que pensávamos ser impossível. Desde a cobertura esportiva e jornalística que nos brinda todos os dias com o mais clássico dos paradoxos da ideologia: o ser claro e indireto – as tendencias políticas e regionais estão lá para todo mundo ver¹, mas que são negadas em um discurso direto – até a produção de peças de “entretenimento”, que conseguiram até ter alguma qualidade a ser reconhecida em minisséries do passado; tudo tem se tornado, ou pelo menos se revelado, o mais alto dos desserviços à cultura nacional.
Dadas as exigências do formato de um blog, vou me concentrar somente em algumas das mensagens básicas das últimas produções globais. Primeiro, o caso do pseudo-estupro do BBB (Big Bosta do Bial). Primeiro se anunciou que um dos participantes infringiu uma regra do programa, a regra era “Não farás sexo!”, como se expulsou só um participante, subentende-se que a outra envolvida na história não consentiu, e portanto, foi estuprada; o que foi desmentido pela participante em depoimento; tudo muito estranho, e várias questões surgem: “Foi um golpe de marketing do Bial?”, “um golpe estratégico do moçoila para expulsar o concorrente?”, “uma tentativa de conseguir um patrocínio da Jontex?”, “Por que a moça, que assumiu o consentimento da gratinada, não foi expulsa também?” Mas minha questão aqui é a seguinte: confina-se uma série de casais, todas pessoas atraentes, faz-se uma série de festas na casa regadas à champanhe, lap dance e pouca roupa, e ainda, colocam entre os participantes uma produtora de filmes eróticos e um homossexual, que por seu trato com a sexualidade são reprimidos pela sociedade, e que por conta desse caráter polêmico, geram assunto; há toda uma insinuação e um incentivo ao sexo, e um esforço por trazer à tona tensões sexuais, porém, não se pode fazer sexo, isso é, vende-se o espetáculo da intimidade alheia mas veda-se o verdadeiramente íntimo; a mensagem básica aqui é mais um verso do mantra pós-moderno da coisa sem a coisa: é a realidade editada, a intimidade não íntima, a cerveja sem álcool, o sorvete sem gordura, o café descafeinado, o protesto sem violência, a revolução sem terror, enfim, a substância dessubstanciada que permite a tudo que é sólido se desmanchar no ar, como alguém já disse…
Outro caso claro de manipulação ideológica sem vergonha é a série “Dercy de Verdade”; o título já entrega o jogo. “Esqueça tudo que você ouviu falar sobre Dercy Gonçalves. Todos conheceram a “obra” de Dercy, mas nós da Globo à conhecemos além disso e vamos mostrar agora, ela mesma, de verdade!” Qualquer brasileiro com mais de 20 anos de idade sabe algo sobre Dercy Gonçalves, nem que seja só que ela era “A veia louca que falava palavrão no Faustão”; mas ela foi sim uma das mais “punks” e “porra-louca” atrizes desse país. Falava o que queria, quando queria, cagava para uma série de convenções sociais e, claro, soube usar isso em favor de seu bolso, o que se não é nobre, pelo menos lhe garante algum espaço para trabalho e alcance da sua mensagem, e além do mais, essa “falta de nobreza” revela mais sobre nossa sociedade do que sobre o caráter dela.  Porém, a imagem deixada por ela – “imagem” talvez seja o que de melhor um ator pode deixar à posteridade – era de uma mulher subversiva e autêntica, aliás, foi o que fez a Globo contratá-la e deixá-la na “geladeira” por quase toda sua vida. E a imagem era tão perturbadora que só o congelamento da véia e sua morte não foi suficiente para amaciar o travesseiro dos defensores da moral e dos bons costumes; era preciso dessubstanciar a imagem mesma! A mensagem básica aqui é: ela passou a vida inteira construindo e se apoiando numa imagem de porra louca subversiva, mas no fundo (isso é, na nova imagem que a globo montou), ela era uma mulher batalhadora apegada, ainda que a seu modo, aos valores da família e era um belo ser humano, eis a verdade sobre Dercy Gonçalves. Portanto, esqueçam sua velha imagem, e acomodem-se de volta em sua vidinha normal e “verdadeira”. Ou ainda, de forma mais atômica: “Esqueçam essa de subversão e voltem a pastar!”
Já no caso de “O Brado Retumbante” e da novela das nove a coisa é um pouquinho diferente. Trata-se do elemento sorte. A situação econômica do pobre só melhora por sorte e a situação política do país só pode melhorar na cagada.² Novelas nunca foram boas, mas sem dúvida “Fina Escrota” é a pior das que minha sogra, veladamente, me obrigava a ver. Ela toda é um pavor estético feito da colagem de esteriótipos patéticos. A mensagem básica é: melhorar de vida é ganhar dinheiro. Griselda já era moralmente bem formada, mas só se torna feliz quando ganha na loteria e foge da comunidade pobre para o condomínio de luxo. A novela é feita claramente para atingir a classe C emergente no país, e tudo se passa como se esta fosse composta desses esteriótipos ridículos e como se ela fosse emergente por pura sorte, e não por conta de seu trabalho e outras situações políticas e sociais que a Globo tenta a todo custo fingir que não existe.
O Brado Retumbante vai mais ou menos na mesma linha. O personagem central – uma mistura raríssima da ingenuidade da esquerda universitária, com a manipulabilidade de um Severino Cavalcanti, o discreto charme direitista ligth de um Aécio Neves e a pseudo-malandragem de um populista – vira presidente da república por sorte. Pode-se usar como desculpa para a caracterização bizarra do personagem uma possível imparcialidade mas a história revela o contrário. A mensagem básica aqui pode ser bastante variada: desde um lamento carpideiro do tipo “Ah se fosse um Aécio no lugar do Severino, a gente tinha dado um jeito no Lula.”, ou então uma dica “Ponham um Aécio lá que a gente da um jeito de acidentar a  Dilma e o Temer .” Minha mensagem eleita para o texto é a seguinte: o país pode melhorar (para Globo, é claro) mas não com o executivo que está aí! Aliás, como o nobre Zizek assombra todo esse texto, vale a pena citá-lo: “Na Fenomenologia do Espírito, Hegel menciona a “silente tecedura do espírito”: o trabalho secreto de mudança das coordenadas ideológicas, predominantemente invisíveis aos olhos do povo, que de repente explodem e pegam todos de surpresa.” E engordando essa  “silente tecedura do espírito” temos ainda a famigerada foto, que foi sucesso absoluto entre os conservadores e os mais babacas dos leitores do Estadão, da presidente Dilma sendo “atravessada” por uma espada militar em frente ao Palácio do Planalto; foto que revela o desejo oculto e o crescente ódio à democracia nos quadros conservadores do país, “não basta só derrubar o eleito, temos de matá-lo” pensa a elite. Mudança das coordenadas ideológicas ou mera coincidência? Bom, eu já passei da fase de acreditar em coincidências nesse nível…
Dia 25 de Janeiro foi eleito nas redes sociais como o dia sem Globo, pois bem, o que proponho é simples e direto, que todo dia seja um dia sem Globo, ou então, o que também é direto mas nada simples, que façamos o mínimo de esforço interpretativo e crítico daquilo que vemos, e paremos de nos comportar como vegetais perante a TV. Porém, mais que propor um movimento qualquer, a mensagem básica do texto é: preste a atenção às mensagens básicas e deixe de ser ingênuo, o que realmente importa para a vida não vai passar na TV.

1 – Ou não ver, como no caso “Privataria Tucana”. Se bem que nesse caso, o tiro acaba por sair pela culatra, pois o silêncio da grande mídia fala mais que qualquer discurso sobre ela.
2 – Para usar a gíria da malandragem dos anos 90.

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