Será mesmo o fim do amor Xico Sá?… Por Camila Sant’Ana

O que me impulsionou a escrever esse texto foi uma crônica de Xico Sá: “Como se escreve o fim do amor?”
Nela, Xico Sá coloca como só a mulher é capaz de colocar um “ponto final” no amor. O homem, por sua vez, adia, disfarça,vai comprar cigarro na esquina e deixa lá reticências no fim do amor. Além disso, não é assim que o amor deve terminar. A mulher, que põe exclamações no fim do amor, está coberta de razão. “O amor, se é amor, não se acaba de forma civilizada”. Segundo ele, o amor deve acabar com um bom barraco, com ofensas de ambos os lados e muito sofrimento depois. Sofrimento que exige um período de luto, em que a pessoa não consegue se entregar a nenhuma outra. É assim que o amor deve acabar, abruptamente, e com um rastro de dor. Se o amor acaba civilizadamente, com um comprimento calmo e tranqüilo, ele não estava mais lá, se foi na verdade algum tempo, ou muito tempo antes disso.
Deixarei de lado a questão de “quem” põe ponto final no amor, pois isso me pareceu um tanto arbitrário e pouco demonstrável; no texto, Xico delega à mulher tal função. Já sobre o “como” deve acabar o amor, o que me intrigou na crônica, é o certo desmerecimento dos relacionamentos que “acabam bem”, já que ali não tem amor, enquanto o outro relacionamento, que acaba em barraco, esse sim é prova de amor. Não discordo em nada no ponto em que quando o relacionamento acaba bem, o amor não estava mais lá. Ele pode ter acabado de pouco em pouco dia-a-dia, e o relacionamento ficou… por comodismo, ou respeito, etc. Nesse ponto sim, um fim de relacionamento civilizado, já não tem amor.
Mas e quando o relacionamento termina em briga, prato quebrado, arranhão e todas essas delicadezas, o ponto final foi no amor? A raiva que é manifestada na briga só pode ser símbolo de consideração, de amor! O sofrimento, o choro, a resignação que vem depois disso, no que Sá chamou de “período de luto”, também é sinal de que ainda tem algum amor ali.
O meu ponto é: o barraco não caracteriza o fim do amor, mas da possibilidade de convivência, devido à raiva, e ao sofrimento que o ser amado agora causa. O luto então, se refere ao relacionamento, ao contato, mas não ao amor. O amor, por mais que se negue, voltou junto na bagagem, com os livros e os discos, e ficou ali, quieto às vezes, e às vezes nem tanto assim. Talvez ele vá acabando de pouco em pouco, dia-a-dia da mesma forma como aconteceu no relacionamento que acabou bem. E o período de luto do relacionamento vai acabar quando, aí sim, o amor acabar completamente, e a possibilidade de civilidade – que seria o não precisar de enfrentamento, rancor ou sofrimento entre os envolvidos – for restaurada.
A trajetória de um casal que terminou em barraco, comparada a de um que terminou em calmaria, não teve mais amor, ou intensidade. O que acontece, é que em ambos os casos, o fim do amor não acontece ao mesmo tempo em que o fim da relação.
O amor mesmo, aquilo que a gente sente pelo outro estando perto ou longe, se alegrando ou sofrendo, não pode acabar assim, com um tapa na cara. Ele se espanta; se ressente; e se recolhe, até diminuir de mansinho, de maneira que, acredito eu, seja até mais civilizada da parte dele, do que nos deixar como quem saiu correndo, com um vazio ferrenho e sem a possibilidade de lembrar do ser amado com algum respeito.  Até por que, amor, se é amor, deixa alguma marca boa na gente.

A crônica pode ser lida aqui:  Folha , no post: “Educação sentimental: como o amor acaba(I)”

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8 comentários

Filed under bom gosto, opinião

8 responses to “Será mesmo o fim do amor Xico Sá?… Por Camila Sant’Ana

  1. Problema interessante, me lembrou de uma das questões centrais do filme “A Aventura” de Antonioni. No filme um dos personagens sofre do que o cineasta chamou de doença dos sentimentos.” Nós não seríamos eróticos, ou seja, doentes de Eros, se Eros fosse uma boa saúde. E, dizendo boa saúde, quero dizer simples, adequada à medida e à condição do homem. Há então uma doença. E como acontece sempre quando há uma doença, o homem reage. Mas ele reage mal e fica infeliz por conta disso.” É interessante perceber como para Antonioni a crescente erotização da cultura é um sintoma da doença de Eros, mazela oriunda de relações sociais intermediadas por orientações de uma moral envelhecida, por mitos caducos, velhas convenções. Em um dos seus livros sobre cinema, se referindo à Antonioni, Deleuze sintetiza o problema da seguinte forma:”nós estamos doentes de Eros, mas isto porque o próprio Eros está, objetivamente, doente: o que se tornou o amor para que homens e mulheres saiam dele tão enfermos, agindo e reagindo mal no início e no fim, numa sociedade corrompida?” Ou seja, para Antonioni,“o amor, se é amor, não se acaba de forma civilizada”, porém somente se Eros estiver doente.

  2. Jokasta

    Então o que eu ia comentar ontem quando a preguiça me venceu…

    Penso que existem pessoas que nem sabem direito o que sentem, acham que amor é aquela coisa que fica queimando eternamente, mas quando o relacionamento começa a fazer parte do cotidiano (o que não necessariamente quer dizer que caia na rotina) a pessoa acha que não é mais como era antes, pensa que poderia estar num relacionamento melhor e blah blah blah … Então terminam o relacionamento e depois se arrependem…
    E barraco, em minha opinião, é falta de capacidade para dialogar civilizadamente (mesmo que só momentaneamente), e isso nada tem haver com intensidade de amor. Talvez tenha haver com ego ferido, dificuldade para lidar com perdas, choque emocional, etc.
    É por ai …

    • Camila Ferraz

      Pois é Joka, depois de séculos eu apareço aqui pra responder..! rs
      Nesse ponto já passamos da confusão entre relação e sentimento, já entramos no ponto em que confundimos o que o próprio amor é. E tem sido a concepção de amor mais corriqueira, essa que talvez coloque no lugar pro próprio amor as demonstrações dele, e ainda mais as demonstrações doentias, o que pode ser relacionado com o comentário do Guilherme, logo acima.

  3. Acho que o Xico está certo, principalmente quando diz que quando acaba de forma civilizada, o amor não está mais lá. É triste, mas é a realidade.

  4. pode-se por u ponto final no relacionamento, mas não no amor, o amor não acaba como fim do relacionamento ele pode durar por muito mais tempo do que somos capazes de entender!

  5. Rejane Ferreira

    Acabo de termina um relacionamento infelizmente e não pq o amor acabou, mas pelas consequências da vida mesmo. Discordo dessa tese de que relacionamentos têm que acabar com brigas, mágoas e ofensas. O amor é bem mais que isso, acredito que possa acabar de forma civilizada sim. Mas, enfim.. isso vai de cada um.

    Abraços! =)

    http://rejane-ferreira.blogspot.com/

  6. oiecarol

    Caramba, o post está incrível. Muito bem escrito . Gostei da frase “O amor, se é amor, não se acaba de forma civilizada”.
    Ps: Você é jornalista?
    :**

    • Camila Ferraz

      Obrigada pelos elogios e desculpe pela demora para responder! Mas,na verdade, a frase que você citou é sim de um jornalista, o Xico Sá… Eu só citei ela e na verdade discordei dela. Mas eu não sou jornalista não…rs
      Abraço

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