Quase que magicamente… Por Murilo.

“Alô criançada o Opinião chegou!” Trocadilhos bestas à parte, o texto de hoje será exatamente sobre as crianças desse mundão; esses serzinhos infantes, pueris, ingênuos e inofensivos. Será?

Recentemente tive um rápido contato com um texto interessante de um pensador chamado Neil Postman, “O Desaparecimento da Infância.” Postman foi um crítico ferrenho da submissão da cultura à tecnica, e também grande estudioso das relações entre mídia e educação. Segundo ele, a infância é uma criação moderna, que surge junto com o aparecimento da imprensa e com a universalização da educação. Antes desses eventos as crianças eram vistas como “mini-adultos”, assim que tinham condições físicas suficientes já acompanhavam os adultos em seus trabalhos, já tinham contato com conversas adultas, já presenciavam, sem maiores restrições, cenas de violência e de sexo. E agora, na nossa pós-modernidade¹, vencida a era mecânica das telecomunicações e da educação, quando da explosão da era digital e do advento da internet, momento em que tempo e espaço se tornam meros detalhes no acesso à informação, enfim, época em que a ciência e a tecnologia se arrogam a ponta da evolução do entendimento humano; vemos as crianças de novo, como na época pré-moderna, com livre acesso a todo tipo de conteúdo adulto, terror, horror, brutalidade, violência, sexo, enfim, a curiosidade é morta com um clic. Fato que joga muita água no moinho de Postman; um exemplo forte de como a técnica ajuda a universalizar a barbárie.
A coisa fica ainda mais séria quando a gente vê pessoas cheias de boa intenção aumentando o problema com ações “pouco pensadas”, para ser educado. É o caso do movimento – que conta com um título ótimo, diga-se de passagem – “Faça amor, não faça pornô.” Trata-se de um movimento criado por uma mulher que começou a sentir os efeitos dessa universalização da ignorância. Ela constatou, de maneira radicalmente empírica, que seus parceiros sexuais mais jovens obedeciam um padrão de péssimo gosto na hora da transa – truculência, falta de romantismo, de compreensão, etc. A conclusão retirada de sua pesquisa de campo é a de que os homens agem assim porque estão se educando sexualmente do modo mais errado possível, e cada vez mais cedo: por meio da indústria do cinema pornô, aonde, sabidamente, a mulher é reduzida a uma coisa com a qual o homem se masturba – uma boneca inflável de carne e osso – e que com a internet, se tornou cada vez mais acessível. Eis o texo na íntegra – http://revistatpm.uol.com.br/revista/112/reportagens/faca-amor-nao-faca-porno.html – Gostaria de chamar a atenção para um dado interessante do texto: Um terço dos garotos ingleses com 10 anos de idade já tiveram acesso à conteúdo pornográfico. Muitas vezes antes mesmo do primeiro beijo eles já viram uma dupla penetração, e pior, com uma atriz pornô que fingia um prazer absurdo, mesmo com – ou por causa da, muitas vezes – dor. Isso tudo torna, de fato, o movimento muito legítimo, isso é: Jovem², o que você assiste em “Brasileirinhas” não é a realidade, se animal!
Muitas perguntas poderiam ser feitas a partir daqui, desde por que as atrizes pornôs se sujeitam a esse tipo de tratamento e a passar essa imagem, até por que diabos essa tiazona da entrevista insiste em sair com esses moleques imbecis. Mas o problema nessa história toda, e que eu gostaria de chamar a atenção, é a solução apresentada pela publicitária: criar um cinema pornô “mais realista” e que inclua a visão “feminina e feminista”. Quer dizer, se o problema é o aceso à pornografia por crianças cada vez mais novas e a influência que isso acarreta na formação delas, aumentar a quantidade de filmes pornográficos e criar um novo sub-gênero de filmes não vai ajudar a reduzir o problema. Por mais que se trate de um gênero “mais justo” de sacanagem, a boa e velha sacanagem clássica não vai acabar. E vale lembrar que a maioria dos homens procuram filmes pornôs para se masturbar e não para ter aulas sobre romantismo, e assim eles vão continuar a produzir e assistir os filmes clássicos. O máximo que esse novo gênero vai conseguir é aumentar a atração de mulheres por pornografia. Mas o problema persistirá. Mais uma vez vale lembrar aquela velha máxima de Gahndi sobre a violência: “Não dá para combater a escuridão fazendo mais escuridão.”³

Quando é que as pessoas vão entender que a internet é um espaço público, assim como uma praça pública? Quer dizer, se você não permite, racionalmente, que seu filho fique fazendo o que quer, na hora que quer, livremente, sem supervisão, em uma praça pública, por que raios permite então que ele faça o que quer na internet? Um criança não precisa de um computador pessoal de uso exclusivo em seu quarto, não precisa de um laptop, não precisa de um celular com acesso à internet, nada disso, em caráter privado, contribui para a formação dela; e é bobagem pensar que aqueles programas de “controle de conteúdo” podem substituir a supervisão paterna, pois se até um macaco treinado consegue desbloquear aquilo imagine uma criança de 11 anos que vive nessa “era digital” há… 11 anos! E, pior, se o macaco e a criança que, via de regra, não são mal-intencionados e sim curiosos, conseguem desbloquear, imagine um pedófilo, que além de tudo é mal-intencionado. Portanto, acredito que a verdadeira campanha, que além de legítima seria eficiente, é: “Não de a uma criança algo de que ela não precisa e que pode eventualmente lhe prejudicar!”4 Confesso que não acredito no sucesso de uma tal campanha por dois motivos: primeiro pelo título horrível, que traça o exato corte entre eu e a tiazona lá, ela é publicitária e eu pretenso filósofo. E segundo, e mais importante,a campanha prega a restrição ao consumo, e nossa sociedade se mata mas não para de comprar.

Para finalizar gostaria de colocar uma pergunta: de onde é que vem o impulso “anti-edipiano” pós-moderno de acreditar que as crianças estão por aí sem pai nem mãe? E mais, será que além de regredirmos moralmente, transformando as crianças de novo em “mini-adultos” pré-modernos, regrediremos cientificamente a ponto de acreditarmos de novo na geração espontânea? Na idade média existia uma famosa receita para se produzir ratos, era só misturar num lugar pouco movimentado e escuro, panos velhos e restos de comida, que os ratos brotavam desses materiais – acreditava-se que a vida pudesse vir do não-vivo. Qual seria a receita atual para a formação de um a pessoa? Dois seres humanos se unem, transam, e de repente, não mais que de repente, um mini-adulto vem ao mundo e com o passar do tempo ele, do nada, sem a interferência das pessoas que o trouxeram ao mundo, ele se torna uma pessoa, quase que magicamente.

1 – Que de “pós” não tem lá tanto assim, é verdade, está mais para “Hiper-Modernidade”.

2 – Nada é melhor para fazer alguém se sentir muito velho do que dar um conselho, e pior, começar esse conselho com a palavra “Jovem”!

3 – Se não for exatamente isso, é coisa parecida.

4 – Por isso não fiz publicidade e propaganda, sou péssimo com títulos.

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10 comentários

Filed under bom gosto, Filosofia de Butéco (Botéco), opinião

10 responses to “Quase que magicamente… Por Murilo.

  1. Jokasta

    Grande coisa os meninos assistirem filme pornô com 10 anos… esses se já vivem no computador só vão fazer sexo aos 30 huahauahuahua
    Piadinhas a parte, cada geração com seus dilemas… e eu não acho eles tão sérios assim … lembrei de uma aula de psicologia com o melhor prof que já tive, ele contou que educou seus filhos para que não sentirem vergonha do seu corpo e para encararem o nu como algo natural que é, sendo que pra eles é comum verem uns aos outros trocando de roupa, tomando banho e etc. Meu prof relatou que seu filho (de 9 anos eu acho) por um acaso abriu fotos pornôs na internet, então simplesmente chamou o pai e disse “olha pai, que boba essa foto dessa mulher” .
    Onde quero chegar, parece que todo mundo é educado para sentir vergonha do corpo e encaram sexo como tabu, algo proíbo que não se fala em casa, e bla bla bla bla
    No meu ponto de vista a raiz do erro não á deixar a criança na frente do computador sozinha, mas sim deixar de conversar com ela, conversar para repreendê-la e reprimi-la ou mostrar o sexo como algo proibido e feio (o que não é).
    Daí a criança cresce, aprende a usar o computador/internet e descobre que pode ver tudo que falaram pra ela que era errado e pior ainda, descobre que pode ser gostoso. Aí o nó na cabeça ta feito hauhauahuahauhau

  2. opiniaodesegunda

    Então Jokasta, talvez estejamos dizendo a mesma coisa de maneiras diferentes; no fundo, o que defendo é que, como seu professor fez, os pais tomem para si a responsabilidade de criar seus filhos. E quando eles se eximem de fazer isso, deixando que a escola, a tv e a internet os formem, seus filhos acabam virando os caras com os quais a mulher da matéria sai. rsrs (pelo menos na imensa maioria dos casos) – E esses caras mostram duas coisas, 1° eles conseguem fazer sexo antes dos 30, hsauhsuashuashuha e 2º Que sexo pode sim ser algo “feio”, principalmente quando a mulher é desprezada no ato, coisificada, e vista como uma boneca inflável com o detalhe de ser de carne e osso; e esse “tipo feio de sexo”, que é o predominante na indústria pornografica atual, deve sim ter o acesso proibído para crianaças.
    Bom te ver comentando por aqui, apareça mais… não faça como fazem outras pessoas da reitoria ¬¬’ …rsrs

  3. Camila

    Muito bom seu texto Murilo.
    E olha só, eu concordo com você! rsrs
    O problema não é as crianças serem criadas para achar o nu algo normal. Trocarem de roupa umas na frente das outras, na frente dos pais e isso não lhes causar constrangimento algum. O problema realmente é como eles vêem o sexo. Uma criança que tem contato com filmes pornôs e somente isso, se for menino achará que ele é o “fodão”, o sexo só será bom quando houver ao menos mais de uma mulher, camisinha não existe, o sexo só tem que ser bom pra ele, independente do que o outro está sentindo, e para a menina será a comprovação do que seus pais falam, que em geral se eles falam alguma coisa sobre sexo para ela é que é feio, e que irá trazer consequências terríveis como a gravidez, ficar mal falada, e tendo acesso aos filmes ela só terá a comprovação disso, ela não passa de um objeto sexual que não tem direito a prazer algum.
    Acredito que as crianças não deveriam ter acesso a isso, não até ter uma maturidade para saber diferenciar a “ficção” da realidade.

    • iiii, se a Camila concordou comigo, é porque deve ter algo de errado no meu texto! haushsaushuashuhha!
      BRINCADEIRA.
      😉

    • Muito bom o texto Murilo!
      Camila, concordo contigo que o problema é como eles realmente vêem o sexo. Mas acho que a questão de eles verem o sexo como algo que só tem que ser bom para ele! Independente do que os outros estão sentido seja até mesmo “ingênua” da parte deles. Mais algo do tipo “Meu papel como homem é meter! De qualquer forma o outro (ela no caso) irá sentir prazer, e se não estiver sentido é só dar uns tapas”. Até porque é isso que ensinamos filmes, não interessa muito o que o cara faz (aliás, muitas vezes o cara nem faz, quem faz tudo é a mulher), de qualquer forma a mulher estará sempre sentindo prazer, é parte natural de sua condição ser submissa (no pior sentido da palavra) e sentir prazer por isso…
      Se os “jovens” realmente tratam o que assistem como realidade não há como se esperar outra coisa senão essa falta de “responsabilidade” durante o sexo…

  4. Camila (a mesma)

    Então, eu concordo com todo mundo!rsrsrs
    Acredito, que o pudor excessivo seja prejudicial para as crianças…o que torna o sexo “magicamente”…possível…ou seja – mistifica o sexo.
    Não que ele tenha que ser entregue em ato assim, aos 10 anos de idade.
    Acredito que sua crítica seja sim válida em relalção à matéria, e que o acesso ilimitado das crianças à internet possa ser prejudicial.
    Mas ao mesmo tempo, acredito que a campanha ão tenha o seu foco nisso. Seu foco não é nas crianças que acabam de sair das fraldas, mas em mostrar uma alternativa de conduta aos pré- adolescentes, e nAs pré-adolescentes, porque não… O pornô violento e machista é hoje principal na indústria, por causa de seus consumidores. Mas e se mostrassemos aos novos consumidores um novo tipo de pornô que se mostra no mínimo como possível na realidade… não faria alguma diferença?
    Continuo contra o acesso de menores, tão menores assim esse tipo de site. Não aacredito que devemos mentir, ou dizer que o sexo é condenável, simplesmente que é para “mais tarde”.
    Mas talvez a matéria tenha colocado esse dado sem pensar nas consequências, e visto a área de trabalho desta senhora da qual fala, o que ela poderia fazer, é apresentar a esse garotos (e garotas) uma forma de conduta mais carinhosa.

    • opiniaodesegunda

      Então Camila, acredito que pornô sem machismo e sem canastrice funcionaria mais ou menos como o café descafeinado, a cerveja sem alcool, sorvete sem gordura, protesto sem violência, etc… Enfim, é mais uma representação da tendência da nossa sociedade em retirar das coisas seu lado subversivo, “mal”. Os homens que recorrem à pornografia para “passar tempo” fazem isso justamente por se tratar de um “tipo” de sexo que eles, na maioria da vezes, não fazem com as mulheres na vida real, é para extravasar mesmo. Funciona mais ou menos como as pessoas que usam drogas, elas recorrem a esse expediente para ter percepções q não encontram na realidade; os casos me parecem análogos em sua problematização: as drogas, assim como a pornografia “clássica”, não são o problema; o problema é o acesso de pessoas despreparadas a esse tipo de conteúdo.
      Respondendo então a sua questão. Assim como o café descafeinado, como o sorvete sem gordura, a cerveja sem alcool e o protesto pacífico, o pornô “feminino e feminista” só vai atender a uma demanda de pessoas q ja se predispunham a querer isso, ou precisar disso; e os homens vão continuar procurando o café com cafeína, o sorvete com gordura, a cerveja com alcool, o protesto violento, e o pornô classico.
      Enfim, a produção de café sem cafeína, sorvete sem gordura, etc… não diminuiu a produção do café com cafeína, do sorvete com gordura, etc… assim como não amenizou, como se propunha, os efeitos sociais dessas substâncias: o nº de obesos, insones, caras que batem o carro bebados, etc… não diminuiu, pelo contrário, aumentou. Assim também vai ser com a pornografia sem machismo e canastrice.
      Esses prblemas só podem ser resolvidos, socialmente, com restrição ao consumo, sem restrção ao consumo, somente com essas mudanças cosméticas, não faz diferença não.
      Na minha modésta e dispensável opinião, é claro.
      😉

  5. Camila

    E adorei a manifestação da mulherada! 😀

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